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O LIVRO DA BERENICE

ANÁLISE

     Pela escritora e estudiosa da literatura infantil Tatiana Belinky, publicada no Jornal da Tarde de 15 de abril de 1984.

 

     Tatiana Belinky e seu marido, Julio Gouvêa, foram pioneiros na apresentação do Sítio do Pica-pau Amarelo na televisão brasileira (TV Tupi).

 

     O Livro da Berenice, de João Carlos Marinho publicado pela Editora Parma.

A turma vocês conhecem: O Edmundo, o Pituca, a Berenice, a Mariazinha, a Sílvia, o Godofredo, o Biquinha, o Zé Tavares... e mais o Hugo Ciência, o menino do QI 250, que gostou tanto da turma que se transferiu do Pueri Domus para o Colégio Três Bandeiras.

 

     Então, esta é a mais nova aventura do gordo e de sua turma – depois de depois de O Gênio do Crime, de O Caneco de Prata e de Sangue Fresco: os três best-sellers de João Carlos Marinho, useiro e vezeiro em esgotar edições das estrepolias daquela patota, com seus heróis e heroínas de 10 a 11 anos de idade.

    

       A trama é simples: a Berenice, qual outra Emília, põe as mãos na cintura e proclama a sua decisão de escrever o melhor livro do mundo. A turma coopera, cada um a seu modo, na feitura da obra-prima que se chamará Ninguém Faz a Minha Cabeça. Só que, ao tomar conhecimento do futuro best-seller milionário, um escroque internacional de nome estrambótico resolve surrupiar o original antes mesmo de terminado, à medida que vai sendo "tipado" (como diria Monteiro Lobato) – e isto por meios eletrônicos ultramodernos. Ou seja, por meio de um computador que vai roubando o texto, registrando e traduzindo a distância as batidas da máquina de escrever da autora. Claro que, depois de uma pá de peripécias, umas incruentas, outras nem tanto, o texto é resgatado, os vilões flagrados, e tudo termina com a tarde de autógrafos da Berenice, sendo a primeira dedicatória para o rabelesiano Frade João (que lembra também Friar Tuck das lendas de Robin Hood). O qual, por sinal, merece um livro só para ele, "anti-super-herói" que é truculento e picaresco, com qualidades que não são mágicas, mas muito melhores. E mais engraçadas.

 

     Mas contar o enredo assim, esqueleticamente, não dá nem a mais pálida idéia do "barato", de ponta a ponta que esta delícia de livro proporciona ao leitor, tenha ele dez ou 110 anos. O que Marinho consegue socar em meras 130 páginas de curtição pura sem mistura em forma de gozação, de informação-formativa jogando com a "informação" consumista, brincando com marcas, nomes, endereços, slogans publicitários, frases feitas, psicologismos de salão, modismos, costumes, preconceitos, frescuras de ricaços, não dá para enumerar. E o melhor é que através de todo esse ludismo, quanta abertura para o mundo, quantas idéias, quanto abrir-de-olhos-e-da-cabeça para a vida, para a participação social, para a literatura, para a cultura – e com quanta confiança e respeito pela inteligência do jovem leitor!

 

     E o estilo de Marinho, então? Quem leu O Caneco de Prata vai lembrar-se da originalidade, da vivacidade, do "staccato" das frases, do jeito enxuto, "short and to the point", sem adiposidades adjetivais, literalmente derrubando o leitor com seu humor agudo, certeiro, ao mesmo tempo demolidor e construtivo. A ponto de alguns acharem O Caneco muito "sofisticado" para as crianças. Mas as crianças da era da informática são mesmo sofisticadas – em certas áreas. E a melhor prova é que O Caneco de Prata já teve sete edições. Verdade que O Gênio do Crime já teve 21 edições, sendo só dois anos anterior ao Caneco – talvez  por sua trama "policial". Acontece, no entanto, que este O Livro da Berenice (que, por sinal, João Carlos Marinho estará autografando hoje, às 15 horas, na Livraria Capitu, rua Pinheiros, 339) reúne o mais gostoso dos outros dois – e com algo mais. O que não é pouco.

           

      Só mais uma palavrinha sobre as ilustrações de Arturo Condomi Acorta: são poucas e boas, em preto - e - branco, mostrando pouco, sugerindo muito – como quer o autor que, dentro do texto, faz um dos personagens comentar que os livros de Monteiro Lobato foram tão bem ilustrados que não deixaram nada à imaginação dos leitores.

 

Tatiana Belinky