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Monteiro Lobato
(como foi o
encontro entre o escritor
João Carlos Marinho e o
Sítio do Picapau Amarelo)
João Carlos Marinho
Em 1942 e 1943, quando eu
tinha sete para oito anos, o
nome de Monteiro Lobato,
tanto na casa dos meus pais
como na dos meus avós, era
respeitado como o do mais
importante escritor
brasileiro vivo. Era o
grande escritor de contos,
um Guy de Maupassant
brasileiro, era o cronista
agudo e engraçado das coisas
do cotidiano e era o grande
polemista de assuntos
brasileiros. Mais do que
tudo era uma presença que se
impunha sobre todas as
outras. Qualquer coisa que
surgisse, todo mundo ia
procurar saber a opinião de
Monteiro Lobato. Mesmo no
período em que a imprensa da
ditadura de Getúlio Vargas
era mais absoluta, achava-se
um jeito de saber a opinião
de Monteiro Lobato.
Ele dominava a cena.
Não a dominava como um
maître à penser,
Lobato não tinha nada de
filósofo nem de encadeador
de conceitos. Ele dominava a
cena com a sua energia, com
a força enorme de sua
presença, com a sua graça
particular e bem
desaforadamente brasileira
de dizer as coisas.
Eu vivia no meio de crianças
e de adultos que davam
livros para crianças ou que
liam livros para crianças, e
ouvia muito conversa de
adultos, na minha casa se
conversava muito, eu sabia
muita coisa sobre a guerra,
sabia que a gente estava
numa ditadura, e sabia que
Monteiro Lobato era um
escritor muito importante.
Mas não sabia que ele era um
escritor infantil.
É claro que muita gente no
Brasil sabia, milhares de
crianças sabiam, mas o que
acontecia na minha casa e na
minha família e na minha
roda de crianças amigas era
um pouco o retrato de uma
situação que veio a se
inverter completamente
depois da morte de Monteiro
Lobato. Era um escritor
importantíssimo que "também"
escrevia para crianças.
Certamente o meu pai e meu
avô, intelectuais
participantes, sabiam que
Lobato "também" escrevia
para crianças, mas, com toda
evidência, o principal eram
as "outras coisas": os
contos, as polêmicas, a
atividade jornalística, a
antiga luta do petróleo e do
ferro, as intervenções
rudes, desaforadas e muito
engraçadas, aquela presença
enérgica e fantástica na
vida intelectual brasileira.
Então começou a aparecer na
minha casa o Frango d'Água.
O Frango d'Água era o Artur
Neves, amigo do meu pai e
editor de Monteiro Lobato na
Companhia Editora Nacional
(depois o foi também na
Brasiliense, quando os dois
mudaram para lá). Ganhou
esse apelido porque era
muito magro, um pescoço
espichado, muito ativo,
gesticulador, ou fosse o que
fosse, o certo é que o
apelido pegou. Eu sempre o
chamei de Frango d'Água, e,
entre os adultos, quando ele
não estava presente, o
apelido é que dominava.
Ele apareceu assim de
repente porque morava em São
Paulo e eu morava em Santos
com os meus pais.
Normalmente meu pai o
encontrava em São Paulo. Mas
deu que ele começou a descer
a serra e passar fins de
semana como hóspede na minha
casa. Uma criança e os
amigos dos pais, as
"visitas", é um capítulo à
parte na infância de cada um
e creio que assim será até o
fim do mundo. As crianças e
as visitas. O leitor deste
artigo já percebeu que o
Frango d'Água vai trazer o
Monteiro Lobato para a minha
vida, mas, tirando fora
isso, mesmo que não fosse,
ele foi a visita mais
querida e mais amiga que
aconteceu na minha infância.
Ele foi aquela visita que
criou uma imensa afinidade
com a criança. Eu nunca
tinha visto uma visita tão
engraçada, tão amiga minha,
tão interessante e tão
original. O Frango d'Agua
entrou no meu coração de
criança.
E ele foi me trazendo os
livros de Monteiro Lobato,
alguns autografados, O
Saci eu tenho até hoje
("Ao João Carlos, com uma
palmada de Monteiro
Lobato"), Os Doze
Trabalhos de Hércules
esse veio depois ("Ao João
Carlos, para que aprenda a
ser esperto como a Emília e
forte como o Hércules") a
minha irmãzinha levou para a
escola e roubaram dela, e os
outros sem autógrafo, ou ele
trazia ou eu pedia para meu
pai comprar. Felizmente logo
na página 4 dos livros vinha
a lista dos volumes
publicados, era fácil, era
só seguir aquilo.
Eu fiquei imediatamente
apaixonado pelas Caçadas
de Pedrinho e pelo
resto, uma força colossal
que me ligou àqueles livros,
eu não ia ficar analisando,
via só a graça que o Lobato
levava aos enredos, aos
diálogos, às descrições, era
um mundo completamente
superior aos dos livros
infantis que eu tinha lido.
Uma coisa assim que o
público (e eu) sentiu quando
viu o Pelé jogar: é ele. É
"ele" e acabou-se.
Naquele tempo das grandes
cozinheiras, e das copeiras,
os almoços e jantares
demoravam uma eternidade. Eu
sempre sentava ao lado do
meu pai, ouvia muito, dava
poucos palpites, ouvia da
estréia do Leônidas, da
batalha de Stalingrado, do
Domingos da Guia no
Corinthians, dos dribles de
meio milímetro que o
Domingos tinha feito antes,
do Zizinho que quebrou a
perna do Agostinho, do nosso
detestado ditador Getúlio
Vargas, que prendia as
pessoas de quem eu gostava
(como prendeu o meu pai e o
Frango d'Água), da paralisia
do Roosevelt, da coragem do
Churchill. Evidentemente não
se falava com amor do
Filinto Müller e dos espias
que rondavam as pessoas
suspeitas ou que elas
achavam que as rondavam, e
de repente, não mais que de
repente, eu e o Frango d'Água
começamos a discutir o
Visconde de Sabugosa, as
pílulas do doutor Caramujo,
as coisas da dona Benta e da
tia Anastácia, o Pedrinho e
a Narizinho, o tio Barnabé e
o Saci, e os rodamoinhos de
vento, e aquela conversa de
mesa esquentou, outros
meteram o bedelho, sem
desmerecer a importância da
Segunda Guerra Mundial, que
era interessantíssima, todas
as crianças desenhavam um
periscópio saindo da água,
um avião largando bomba, sem
desmerecer a Segunda Guerra
Mundial, a turma do Sítio do
Picapau Amarelo foi colocada
em lugar de honra naquelas
conversas também.
Artigo escrito
especialmente para a revista
Bravo! e publicado na
edição nº 126, fevereiro de
2008 |