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SANGUE FRESCO

Artigo de MARISA LAJOLO publicado no JORNAL DA TARDE em 12 de novembro de 1982

     Sangue fresco (Ed. Obelisco, 172 páginas), de João Carlos Marinho, é um romance curto, de leitura devorada e vertiginosa. O sangue começa a espirrar logo nas primeiras páginas, quando a rebeldia chorona de Ricardinho sofre castigo exemplar e o menino é moído e devorado por uma enorme sucuri.

 

      A sangria continua desatada nas refregas subseqüentes entre heróis e vilões: não falta,  por exemplo, uma cabeça decapitada, driblada como bola e que termina por aterrissar em meio a piqueniqueiros da Ilhabela. Noutra cena, sobram braços, rins, fígado, olhos e demais miúdos, apresentados ao leitor com frieza e precisão de um inventário... mesma frieza e precisão com que o autor enumera, por exemplo, o menu do café da manhã do Gordo, ou os xingamentos preferidos do heróico frade João.

 

      Mas que as patrulhas antiviolência sosseguem seu coração: a violência do texto não faz mal a ninguém. É, ao contrário, essencial numa história que faz os leitores, grandes e pequenos, acompanharem, emocionados e solidários, o rapto de crianças paulistas, levadas para um acampamento da Amazônia, onde seu sangue é semanalmente extraído e clandestinamente exportado.

 

      Como se vê, o texto não poderia ser mais atual: não faz tanto tempo assim, jornais, revistas e televisões denunciavam o comércio de sangue brasileiro, indignando e comovendo meio mundo.

 

      Mas, se o assunto em que João Carlos Marinho inspira sua história é jornalístico, seu texto é definitivamente literário. Sem concessão nenhuma o romancista trabalha a violência da matéria de que trata pela intensificação e redundância. Os mortos são tão numerosos, a sangria é tão copiosa, as formas de matar e morrer são tantas e tão variadas – enfim a violência se repete tanto que se torna outra coisa. Por exemplo, ingrediente do absurdo.

 

      É por isso que o banho de sangue não respinga nos leitores. Nem mesmo os mais sensíveis se horrorizam com o número de cadáveres do livro. De tão repetida e intensificada, a violência aponta para o absurdo e, entre napalm e vísceras espalhadas, o leitor experimenta a mesma sensação de absurdo e nonsense que preside a outras cenas nada violentas, como por exemplo, a do sorveteiro que preconiza o Juízo Final na fila da Via Dutra, anunciando a presença de Deus no pedágio.

 

      Como os leitores, as personagens (as mesmas dos outros livros) passam incólumes pelo banho de sangue e violência. Cada qual a seu modo, os protagonistas interagem com a violência e com o absurdo com igual desenvoltura, bom humor e inventividade. Manipulam tecnologias e equações complicadas na mesma seqüência em que um deles, o Hugo Ciência, declama versos de Bilac e Shakespeare, logo depois, fazem uma sucuri (a mesma que almoçou Ricardinho) dar um nó em si mesma e mais adiante provocam um curto-circuito no satélite espião dos vilões, sensível demais ao cheiro do tênis do Gordo.

 

      Mas, se o sangue não respinga nenhum leitor, o bom leitor não fica imune ao jogo de cintura dos personagens, que esbanjam lições de vivência e sobrevivência. Toda a corja de bandidos raptores, exemplarmente derrotados no final, como só acontece nos bons romances do gênero, tem nomes que soam familiares e quase simbólicos: Ship O’Oconnors, Der Moltzer, Fritz Von Kramer, Davydovich e Astakov são por assim dizer a quintessência do vilão moderno, ao menos o da tradição do best-seller: o vilão sem nenhum escrúpulo, e que se vale do que há de mais moderno e sofisticado na tecnologia de assustar, perseguir e matar.

 

      Fechado o livro e, como já se disse, poupado dos respingos do sangue, o leitor começa a perceber os contornos da paisagem que o livro fê-lo percorrer: um universo de violência, de crueldade, de absurdo. O que vale dizer, o universo que se vive hoje.

 

      E Sangue fresco propicia a crítica desse mundo-nosso-de-cada-dia pelo nonsense e pelo humor. Em poucas palavras, um bom livro. Sem contra-indicações. Para os menores e maiores de 18 anos.

 

                                       Marisa Lajolo