O CONDE FUTRESON
ANÁLISE
Pela escritora Márcia Kupskas
Publicada no Jornal da Tarde de 27 de agosto
de 1994
Desde 1969 João Carlos Marinho é uma presença
desconcertante na literatura feita para jovens
no Brasil. Primeiro porque seus vários livros da
turma do Gordo (O Gênio do Crime, O
Livro da Berenice, Berenice Detetive,
Cascata de Cuspe e outros) não pretendem
consertar nada; não há a intenção moralizante de
transformar o leitor em cúmplice de boas causas
sociais.
Segundo
porque mesmo a carpintaria literária de seus
livros é muito particular. Seus livros caminham
numa realidade própria: ora seus personagens
agem de maneira absurda, dão respostas "nonsense"
para os acontecimentos; era ora surgem cenas de
uma realidade brutal, sanguinolenta, com gente
morrendo de verdade: pescoço destroçado, facada
no coração.
Só um
exemplo: a turma está vendo uma fita de vídeo,
quando na tela surge a figura de um cão negro
uivando.
O som
enlouquece o Pancho, o cão do Gordo. O animal
atira-se sobre o aparelho e estraçalha as caixas
de som. Um fato estranhíssimo, não? Pois o pai
do Gordo só fala que "estas caixas acústicas já
estavam ultrapassadas"... quer atitude mais
fleumática?
O resultado
é muito interessante. Experimente dar um livro
do Marinho para um adolescente.
Ele vai
adorar. Cenas que o adulto pode achar de mau
gosto ou resvalar para o "politicamente
incorreto", contarão na maioria das vezes, com
grandes defensores entre seus leitores. Porque
muitas vezes quem pretende avaliar o livro para
o jovem é o adulto, que quer uma mini-literatura
adulta e não uma obra que fale diretamente para
o jovem.
Por isso,
tantos pais e professores atormentam o
adolescente com livros de linguagem rebuscada e
tom poético que podem até quase lembrar um
Guimarães Rosa aqui e ali ou tentam dar um tom
profundo à realidade. E também podem ser muito
chatos...
No Brasil
há centenas de publicações anuais para os
jovens. Há pelo menos duas dezenas de autores
que conseguem "tocar" esse jovem e fazer boa
literatura. Respeito sem caretice, isto é
importante. Livros pequenos mas não menores: o
leitor pode não ter , ainda, absoluta fluência
de leitura, mas tem senso crítico: ao contrário
do que muitos adultos pensam, este público lê
cada vez mais, informa-se e tenta participar do
mundo... e ele sabe quando um livro tem a "sua
cara".
Os livros
de João Carlos Marinho têm, e muito, a cara
galhofeira do jovem. São livros chanchadeiros (e
aqui eu uso a palavra no seu mais respeitoso
sentido: do mesmo modo que as velhas chanchadas
eram paródicas e divertidas, os livros de
Marinho "bebem na fonte" de outros enredos e
partem para a sua versão única).
O CONDE FUTRESON
é a versão de Marinho sobre a história do Conde
Drácula. A professora Jandira foi escolhida,
entre centenas de concorrentes do mundo todo,
para se casar com o conde italiano Futreson.
Jandira viaja para a Itália e encontra o conde,
que é efetivamente o vampiro imortal.
Uma foto
que a professora havia levado consigo faz o
conde estremecer: Berenice, a namoradinha do
Gordo, é a reencarnação de uma camponesa por
quem Futreson estivera apaixonado. O conde e
Jandira vêm ao Brasil, com intenções muito
sinistras em relação à menina.
Mas, para
conseguir vampirizar Berenice, terão de
enfrentar a turma, o guloso frade João, às
voltas com o mau humor do mordomo Abreu, os
amigos Biquinha e Pituca, com o seu jogo verbal
de enlouquecer as pessoas, doutor Marcelo, pai
do Gordo, mais fleumático que um nobre inglês, a
corajosa Berenice e o Gordo: personagem síntese
de todos eles.
Na luta
entre o bem e o mal, Marinho segue os passos
tradicionais dos truques dos vampiros, em cenas
bastante mórbidas. Mas vai também colocar o
Gordo usando um jeitinho "brasileiro" de
descobrir a identidade do Conde, num final
misterioso a encantar os seus leitores.
Márcia
Kupskas