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O GORDO CONTRA OS PEDÓFILOS
Artigo de Geraldo
Galvão Ferraz no Jornal da Tarde 13 de abril de
2001
O
próximo João Carlos Marinho sairá no dia 19 de
maio. O gordo contra os pedófilos aborda
um tema delicado, mas extremamente pertinente,
tendo como ponto de partida o sumiço de crianças
que são raptadas por gente que faz filmes
pornográficos. Felizmente não vivemos em tempos
de ditadura quando o Conselho Estadual de
Educação Paulista chamava os seus livros de
“altamente nocivos” ou quando uma professora foi
presa por adotar O caneco de prata.
Vida real
Um tema polêmico da atualidade não é novidade
para João Carlos Marinho. Ele já tratou, por
exemplo, de seqüestros, de balas perdidas,
terrorismo. Desta vez o palco é a pornografia
infantil. Berenice, a moreninha namorada do
gordo, é seqüestrada, e a turma, ajudada pelo
frade João (um personagem que Marinho herdou de
Rabelais) investiga seu paradeiro. Os bandidos
drogam as meninas raptadas, usam-nas em filmes
pornô que são vendidos em DVD e depois matam as
vítimas.
Impróprio para menores? Contudo, familiarizados com a
Internet e informados do que acontece, para eles
pornografia e pedofilia é um dado da realidade,
e Marinho trata do tema assim, com naturalidade
e sensibilidade. O gordo contra
os pedófilos pode ser visto até como um
alerta para os jovens.
Na verdade, se os leitores brasileiros de
Harry Porter fossem espertos, teriam no
lugar do bruxinho vaca louca as aventuras da
turma do Gordo. Se tivessem pais espertos para
mudar seus hábitos de compra, João Carlos
Marinho rivalizaria com Paulo Coelho, nossa
tradução mais próxima do sucesso de J.K.Rowling.
Pois O gênio do crime e os outros livros
de Marinho têm os ingredientes que fazem o êxito
de Porter & Cia., como humor, capacidade de
surpreender, irreverência e uso de fórmulas de
gêneros consagrados. Falta marketing ao
brasileiro.
Realidade brasileira
Naturalmente, o sucesso dos dois autores é
desigual. Harry Porter é o êxito da
globalização aplicada à indústria editorial. Os
romances da turma do Gordo pertencem a uma
realidade muito brasileira e, por isso mesmo,
sem toneladas de marketing, já venderam muito.O
gênio do crime, começado em 1969, já está na
51ª edição e faz tempo que superou 1 milhão de
exemplares vendidos, esparramados entre pelo
menos quatro editoras – duas delas o tem no
catálogo, uma edição de bolso da Ediouro e uma
normal da Global.
Marinho, como um dos seus personagens adultos (é
comum nas suas histórias as crianças terem
ímpetos e reações mais sérias que as dos
grandes), não tem a menor idéia de quantos
livros vendeu até hoje.
Ao receber o o receber o JT no seu apartamento, no
bairro paulistano de Pinheiros, ele mostrou
também aquilo que as crianças já intuíram lendo
seus textos: esse sujeito de 65 anos é igual a
elas. Adora contar piadas e histórias das quais
ele não deixa de rir e revela que o seu lado
anarquista e contestador que o levou à
militância política está intacto.
Uma das suas primeiras frases foi: “Ao mesmo
tempo que me aposentei, descasei e me mudei”.
Vive de escrever após trabalhar muito tempo como
advogado trabalhista de sucesso com escritório
em Osasco.
Tem três filhos: Alex, Roberto e Cecília. Todos
já passaram da idade de ler O gênio do crime.
Aliás, Alex se recusava a ler os livros do pai.
Só começou quando ele pôs uma foto do filho na
contracapa de um deles.
Escritor tardio
João Carlos Marinho começou a escrever tarde
(afinal antes de estudar no Mackenzie e na
faculdade de Direito do Largo de São Francisco,
cursou uma escola suíça e tem uma sólida
cultura, sem chatices pedantes, entenda-se).
Começou tarde e, talvez por isso, volta e meia
lá vem um livro. Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de . Depois de O gênio,
vieram O caneco de prata, Sangue
fresco, O livro da Berenice,
Berenice contra o maníaco janeloso,
Cascata de cuspe, O conde Futreson,
O disco, O disco II (A
catástrofe do planeta ebulidor). Sem contar
os romances “adultos” O professor Albuquerque
(uma história autobiográfica, homenagem a seu
avô, ídolo pessoal até hoje) e Pedro soldador,
um relato sobre sua experiência de advogado com
operários. Mais os poemas Anjo de camisola
e os contos do Pai mental, ufa!
Loucura Urbana
O escritor extrai suspense do aparentemente
banal. Seus livros são bem construídos, têm
tensão e bom uso dos flashbacks, diálogos,
descrições e sobretudo um ritmo que seduz seus
leitores experientes ou não.
Seu cenário é a cidade de São Paulo, em geral, e
ele aproveita a paisagem da metrópole com
habilidade. Nela vivem os personagens da turma
do Gordo, criançada que parece tirada da vida
real, embora Marinho tenha criado Edmundo,
Berenice, Bolacha e outros sem um modelo
verdadeiro.
Naturalmente a a turminha é do bem e acaba
derrotando os vilões, mas sem didatismos e
moralismos.
Embora seus livros sejam bastante adotados em
escolas, Marinho insiste em explicar que está à
margem da literatura infanto-juvenil produzida
industrialmente para ser “colocada” junto a
professores e seus alunos. Também diz que só
vende suas histórias para o cinema e para a TV
se pagarem muito bem, resultado de uma aventura
cinematográfica meio frustrante com a turma do
Gordo.
Ah sim, quanto a Harry Porter, ele não leu e não
gostou: “Parece mistura de Pokemon com Paulo
Coelho,”
Geraldo Galvão Ferraz
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