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                        O CANECO DE PRATA

      Trechos escolhidos da análise da professora Ana Paula Gualter em que faz um paralelo entre O Caneco de Prata e Memórias Sentimentais de João Miramar.



              
          APRESENTAÇÃO

       As obras Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade e O Caneco de Prata, de João Carlos Marinho, tomados como corpus desse trabalho, são livros pertencentes à Literatura Brasileira e à Literatura Infanto - Juvenil Brasileira, respectivamente.

       Suas análises serão fundamentadas pelos elementos estruturais narratológicos: o tempo, o espaço, as personagens, o foco narrativo e o leitor, bem como  por conceitos e considerações desenvolvidas ao longo do curso referentes ao universo da literariedade, a partir da teoria e da crítica literária.

       Também focalizará a relação texto-ilustração-projeto gráfico, posto que é um dos elementos constitutivos do gênero Infanto - Juvenil na contemporaneidade.

       Estas obras foram escolhidas fundamentalmente pelo fato de apresentarem determinados pontos em comum. 

         Para criticar bem-humoradamente o mundo provinciano, Oswald de Andrade, em seu livro Memórias Sentimentais de João Miramar, publicado em 1924, - com capa de Tarsila do Amaral - pede auxílio à linguagem do cinema. O autor constrói uma narrativa fragmentária, aparentemente caótica, montada em 163 quadros como se fosse um filme, sem necessariamente estabelecer relação entre eles. São narrados sarcasticamente trechos da vida do protagonista, da infância aos 35 anos, com muitos lances autobiográficos, onde prosa e poesia se confundem e se completam.

        Memórias Sentimentais de João Miramar,
através do verdadeiro mosaico que é a obra, é uma narrativa que se recusa a construir-se como tal.

       E são essas as semelhanças entre as duas obras selecionadas: o uso da linguagem e o mosaico narrativo. João Carlos Marinho, em seu livro O Caneco de Prata publicado em 1971, também recorrerá a uma narrativa fragmentada - dividida em episódios pequenos -, à linguagem cinematográfica e sintética para contar sobre um campeonato de futebol entre várias escolas.




                 
 O CANECO DE PRATA

       Com o intuito de fazer uma pesquisa baseada em duas obras que dialogam entre si através de suas semelhanças, fui impulsionada a procurar João Carlos Marinho e questioná-lo se haveria dentro de seu instigante acervo de livro infanto - juvenil, algum que lhe foi inspirado por uma importante obra da Literatura Brasileira.

        João se prontificou em responder-me, por e-mail, que do ponto de vista de bate-papo diletante, ele seria tentado a dizer que, neste ponto de uma obra que inspira a outra, esse termo é sempre acidental e secundário pois, “nas obras-primas, o importante é sempre a originalidade e a mestria com que o autor inventou a sua obra, que é importante porque é única. Nesse sentido não existe obra-prima  filha da outra”
. Toda obra literária importante vem só da cabeça do autor, é única, e como notas de pé de página pode-se especular de influências e vivências do autor etc.

       Dito isto, João Carlos Marinho contou-me que jogou muito futebol na sua infância e adolescência, era  mesmo um torcedor fanático, só pensava em futebol, não pensava em mais nada.  Então depois que houve o sucesso de O Gênio do Crime (que tem um pouco de futebol) ele começou  a pensar em colocar no papel toda aquela emoção que teve com futebol, disputando tantas finais, tendo tantos delírios de vitória e derrota. João pensava e não achava um jeito de desenvolver aquilo numa história; até que certo dia:

       Tá aí, o jeito de eu contar um campeonato infantil de futebol, um negócio louco, surrealista, uma loucura que contagia todo mundo, uma coisa de hospício, eu tenho que contar desse jeito surrealista que se aproxima do jeito que  Oswald fez no João Miramar. (MARINHO, 2007).  

       Portanto, a inspiração de O Caneco de Prata lhe foi dada através da leitura de Memórias Sentimentais de João Miramar. Não quanto ao enredo do Caneco, pois este o autor não teve inspiração direta em livro nenhum. Mas sim,  no uso do recurso da narrativa fragmentada, em capítulos pequenos e ambiente surreal. Corrobora Marinho que lendo o livro lhe veio a solução que precisava.

        Desse modo, as semelhanças entre as duas obras selecionadas foram encontradas: o uso da linguagem e o mosaico narrativo. João Carlos Marinho, como foi mencionado anteriormente, em seu livro surrealista O Caneco de Prata,  também recorrerá a uma narrativa fragmentada - dividida em episódios pequenos -, à linguagem cinematográfica e sintética.

       O Caneco de Prata é uma das aventuras da Turma do gordo. A patota - de 10 a 11 anos de idade - resolve ganhar o campeonato mirim que sempre era ganho anualmente pela escola do professor Giovanni - um italiano fanático, casado com a Filomena. Mas, para isso, precisariam ainda desafiar rivais desonestos. A paixão obsessiva pelo futebol é levada a limites extremos, e todos ficam loucos: juiz, psicanalista, advogado, o gordo, o dono do hospício, um leopardo verde, o Esquadrão da Morte, um robô, um marciano...Todavia, o campeonato avança, estreita-se a tabela e aproxima-se o momento da grande final. Giovanni faz de tudo para vencer o adversário, ensinando seu time quebrar perna sem o juiz ver, jogando bomba bacteriológica na concentração. Enfim,  o professor Giovanni acaba sendo um vilão simpático e fanático - características próprias do autor.

       A propósito do autor real, Booth (1980, p.89)  chama de intricada a relação deste com as várias versões oficiais de si próprio. “(...) o escritor assume ares diferentes, dependendo das necessidades de cada obra.”

        O ambiente retratado é o da classe média alta e embora o estádio sede do último jogo entre as escolas seja o Maracanã - no Rio de Janeiro -, o cenário da narrativa é a cidade de São Paulo.

       Sobre as características da obra, a escritora Tatiana Belinky, afirma que o autor utiliza  originalidade e vivacidade,  literalmente influenciando o leitor com seu humor perspicaz e certeiro.

       Há os que achem que O Caneco seja muito sofisticado para as crianças; mas a crítica e o bom humor são marcas registradas de João Carlos Marinho.


         Percebe-se que, em momento algum há a intenção moralizante:

       O objetivo da literatura Infantil não é diretamente moral, mas é diretamente  literário e como consequência, moral.

       Três são os objetivos da Literatura Infantil, objetivos literários: a) despertar na criança o bom - gosto literário, b) estimular a criatividade, c) provocar o espírito crítico. (TRINGALI, 1982, p.68)

       No princípio da leitura, o leitor é tentado a pensar que está diante de uma narração em terceira pessoa, pois, no início, o narrador não se mostra transcrito no texto. Mas no episódio 19, há a presença marcante do autor-narrador-personagem ao fazer uso do pronome possessivo:

       A ARANHA ESTROBOSCÓPICA deu um pulo e comeu o mosquito.

       E assim, termina a rapidíssima participação da ARANHA ESTROBOSCÓPIA nessa minha história.


       
No decorrer da leitura, estamos novamente diante de um narrador em terceira pessoa, e embora a obra seja surreal, um leitor mirim se divertiria bastante. Vale a pena ressaltar que a diversão é um aspecto positivo, pois, de acordo com os conceitos pesquisados, um bom livro de Literatura Infantil é aquele que agrada a criança.

       A linguagem utilizada, por exemplo, é simples, mas não infantil. O autor implícito traz a infância, a vivência atualizada para o leitor. Os assuntos abordados - como namoricos, escola, aula, professores, campeonato etc - interessam a garotada:

       A professora Jandira saiu da escola, atravessou a rua e foi andando na direção do Corcel. O Godofredo era apaixonado pela professora Jandira e ficou olhando a andadinha dela enquanto o sorvete dele derretia.

       
Como acontece em Memórias Sentimentais, em alguns momentos, o narrador  cede espaço a outros narradores em primeira pessoa. Isto acontece quando são transcritas as correspondências da inglesinha Jane para a Berê (Berenice) e vice-versa. Estas pequenas cartas estão presentes nos episódios 10, 22, 37 e 72.

       No episódio 68, há uma narrativa escrita sob a forma de versos (poesia narrativa). No caso, versos livres que obedecem à cadência escolhida pelo autor:

        
O aquário do gordo
        
Tinha três peixões
        
Então a Berenice comprou
        
Vinte peixinhos
        
Pequenininhos
        
Que só andam
         Juntinhos
        
Pra baixo
        
Pra cima
        
Parado
         Pra frente
         Pra trás
         Em diagonal

        
De cabeça pra baixo
         De marcha a ré

         O gordo riu

         Desmaiou de alegria!


       
Ao término da obra, no último episódio, o autor-narrador-personagem volta em cena, sendo denunciado mais uma vez pelo pronome possessivo:

       Mas o dono do hospício veio dançando pelo corredor e depois pegou no meu livro e escreveu fim.

      
 Booth (1980, p. 90) enfatiza, a propósito da caracterização do autor implícito e da delimitação do seu espaço, que o “narrador é geralmente aceito como o ‘eu’ da obra, mas o eu raramente, ou mesmo nunca, é idêntico à imagem implícita do artista”.

       O autor fez de sua obra uma mistura de gêneros literários: prosa, poema com versos livres, cartas, anúncio, escalação de time, inscrição no cimento,  textos sem pontuação, roteiro de teatro ou filme, além de algumas ilustrações criativas, simples e que sugerem muito. As iluminuras foram feitas pelo ilustrador Roberto Barbosa.


       As tabelas - presentes nos episódios de número: 8, 16 e 96 - e o desenvolvimento do campeonato, que aparecem entre um acontecimento e outro, dão ao leitor (ou pretendem dar) a parte objetiva de continuidade e dinâmica da história, abrindo espaço para os capítulos aparentemente absurdos e que não seguem a linha lógica de uma narração.

       No episódio 75, o  autor-narrador utiliza a função
conativa da linguagem ao chamar a atenção do leitor e assegura assim, a clareza da comunicação:

      Era de noite, meus meninos, era de noite.


       O Caneco de Prata,
como  Memórias Sentimentais, está dividido não em capítulos, e sim, em episódios. Marinho nos conta que o fato de colocar episódio em página não numerada e iniciar o texto de baixo para cima, com números grandes para equilibrar os espaços vazios lhe foi dado pela sua amiga, a pintora Vera Ilce.

       E ao longo destes fragmentos numerados podemos perceber os recursos de linguagem utilizados pelo autor:

       •HIPÉRBOLE: “(...) a bola sumiu na estratosfera e entrou na órbita de Júpiter”. (Episódio 96)

        •METONÍMIA: “O MARACANÃ RUGIA DE ESPONTANEIDADE” (Episódio 91)

        •ONOMATOPÉIA:  “O gato do gordo disse:

                                   
- MIAU.” ( Episódio 35)

                                    ”BUUM” “O coração dele estourou de raiva de perder.” (Último Episódio)

                  Observa-se ainda que o episódio 34 está repleto de onomatopéias:        

         Barulho do chuveiro: CHHH CHHH  CHH

         Barulho do Biquinha se ensaboando: CHOC

         Vapor da água quente: FUIM FUIM FUIM

          Eco das vozes no vestiário: ÔÔÔ

         (...)

         Porta se abrindo: CRAC

         Corrente de ar: ZUUUUUM ZUUUUUM
       
       
(...)

         Arrepio na  pele dos jogadores: PRRRRRRR

         Porta batendo: PLAN

         Metabolismo desintoxicante: UUF UUUUUUUF

         Ainda os efeitos da corrente de ar: ATCHIM!

         Um gracejo: RÁ RÁ RÁ

         Barulho de toalha sobre as costas: FLAP

         (...)

        Cheiro gostoso de sabão no ar: MUF MUF MUF

        •PLEONASMO: “Miado de gato é onomatopéia.” (Episódio 35)                     

       O autor, também realiza diálogos intertextuais, fazendo referências a outros autores e obras:

       •
Guimarães Rosa. (Episódio 67)

       •
Os miseráveis, de Víctor Hugo.  (Episódio 21)

       
• Contos de Fernando Uzeda Moreira. (Episódio 3)

       • Teorema de Pitágoras. (Episódio 57)

        Quanto mais o leitor tiver conhecimentos prévios a respeito de citações, de figuras de linguagem, mais a leitura se fará rica em sentidos. E Compagnon (2003, p.152) salienta: “Para que a leitura se realize, um mínimo de interseção entre o repertório do leitor real e o repertório do leitor implícito, é indispensável.”

       O livro é lúdico e há inúmeras cenas surrealistas:

       • A de número 80, por exemplo: 

       “A bomba era tão perfeita que a sala de janta pegou catapora.”

       • O episódio número 21:

       “O professor Giovanni foi roendo as unhas, roeu todas as unhas, roeu a mesa, roeu a cadeira (...)”

       • Ou o episódio 95:

       “O professor Giovanni deu uma dentada no Maracanã.”


       O Caneco de Prata é considerado um dos marcos da renovação da Literatura Infanto - Juvenil Brasileira iniciada na década de 1970, e é sempre citado como uma referência importante por autores envolvidos nessa mudança, como Ruth Rocha e Ana Maria Machado.




   Texto apresentado em fevereiro de 2008 no programa de pós-graduação de Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de São  Paulo, para avaliação da Professora Doutora Juliana  Loyola