O primeiro emprego, de Ignácio de Loyola Brandão

O primeiro emprego (Global Editora) é como uma grande crônica de Ignácio Loyola Brandão a partir de suas vivências e impressões sobre o trabalho – e sua busca. A seguir, o trecho de um dos capítulos do livro:

Jornalista tem salário?

Trabalhei com ele alguns meses e minha crítica era publicada alternadamente na Folha Ferroviária e no Correio Popular. Trabalhava sem ganhar. Nem imaginava que um jornalista pudesse receber salário, era tão agradável de fazer. E começava a me dar nome, os estudantes me apontavam no colégio, os professores me tratavam de modo diferente. Um dia, encontrei o Paulo Silva, cuja família era dona do maior jornal da cidade, O Imparcial, tradicional. “Tenho lido suas críticas”, ele me disse. “Por que você não passa para O Imparcial? Tem mais leitores, tem mais força.” Tinha mesmo. “Vou pensar”, respondi. “E conversar antes com o Lázaro Rocha Camargo.” Magro, espigado, seco, austero, Rocha Camargo disse, simplesmente: “Vá. Tem de ir. É a sua promoção. Vai ver por quantos jornais se passa na vida para fazer carreira. Ficar muito tempo em um lugar paralisa. Vai ganhar quanto?” Riu quando disse que não tinha discutido o assunto.

Paulo Silva era poeta e cronista, fundador do Centro Intelectual dos Jovens Araraquarenses, Cija, que promovia debates, discussões, reuniões, tentava movimentar a pasmaceira do interior. Fui ao O Imparcial, aceitei o convite, criei coragem e perguntei:

– Quanto vou ganhar?

– Não posso pagar nada. Aqui, todo mundo colabora. Mas talvez o Graciano te dê uma permanente para os cinemas.

Graciano R. Affonso era o dono dos dois únicos cinemas da cidade. Eu não teria salário, mas poderia ver filmes todas as noites. De graça. Como os ingressos custavam Cr$ 2 nos dias normais e Cr$ 3 aos sábados e domingos, fiz as contas e concluí que “meu salário” seria de uns Cr$ 65 por mês. Assim, passei para um jornal diário. Paulo dizia: “Se quiser venha todos os dias. Jornalismo não é apenas crítica de cinema. Vou te dar mais coisas a fazer.” Eu, fascinado. Passava todas as tardes pela redação, uma sala minúscula na rua Padre Duarte, onde deparava com o olhar severo, carrancudo e acima de tudo irônico do velho Antônio Correa da Silva, o fundador do jornal, pai do Paulo. O jornal não pagava porque quase não tinha anúncios. Alguns tijolinhos de lojas, missas de sétimo dia. A indústria local e o comércio achavam que não precisavam de publicidade. Acreditava-se na propaganda boca a boca, na tradicionalidade do estabelecimento etc. O jornal vivia dos editais das prefeituras e do cartório e de algumas matérias pagas eventuais. Ah, tinha também a programação diária dos dois cinemas, que recebia um desconto substancial, por ser permanente. Os colaboradores eram advogados, pretensos intelectuais, funcionários públicos vaidosos, poetas ocasionais, professores que gostavam de aparecer, políticos em campanha. Aliás, sabíamos que alguns políticos subsidiavam o jornal, para serem apoiados nas campanhas, daí a incongruência da ideologia em zigue-zague. Não fosse isso, como se manter? Naqueles cinco anos que colaborei fui aprendendo os meandros da mídia e suas necessidades. E não sabia ainda se aquilo era uma profissão.

[…]

O texto é parte do livro O primeiro emprego – uma breve visão (Global Editora), de Ignácio de Loyola Brandão, que se firmou como um dos mais relevantes jornalistas do país e, mais ainda, como escritor, autor de clássicos da literatura contemporânea como Zero e Não verás país nenhum, e cronista do jornal O Estado de S. Paulo.

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