Cecília pequena: a infância da grande poeta

O livro Olhinhos de gato (Global Editora) é uma das grandes surpresas na vasta obra de Cecília Meireles. Os textos desse livro foram publicados na revista Ocidente, de Lisboa (Portugal), entre 1939 e 1940. Neles, a poeta usa um tom de confissão para resgatar personagens e situações de sua infância. As vivências reais são a base, mas a rigor trata-se de ficção. As pessoas aparecem com apelidos: Boquinha de doce é sua avó Jacintha, Dentinho de arroz é a ama, e Olhinhos de gato, a própria Cecília. A seguir, o trecho inicial do capítulo 5, para que o leitor possa entender melhor do que se trata e entrar no clima criado pela autora – o que, nesse sentido, aproxima a prosa de sua poesia de sensações construídas.

5

Solidão, solidão… Acumulam os dias de solidão.

No entanto, as pessoas passam, param, entram, falam… Mas há valas, grandes, muros…

As próprias crianças desencantam: ou porque têm sardas, ou os olhos sujos, ou porque metem os dedos no nariz, ou porque andam com a cara toda melosa de calda de balas ou de visgo de frutas.

As crianças chamam por ela: “Coisinha! vem cá, coisinha!” Ela, porém, não pode ir. Não a deixam ir – e mesmo não tem muita vontade. “Coisinha, me dá aquela flor?” “Coisinha!, qué me dá a tua boneca?” Falam de longe, de longe, e nem adianta responder. Custam tanto a ouvir! “Coisinha, qué trocá a tua boneca por uma bala?”

Não a deixam ir porque há sarampos, coqueluches, perebas… “É a morte certa! Esticas a canela que nem se tem tempo de chamar o doutor-da-mula-ruça!”

“Coisinha, sabe? – eu vou a Niterói!”

E há ruas! Há ruas, sim, por onde passam cavalinhos, puxando tílburis… Há ruas, onde os doceiros se sentam embaixo das árvores… Há ruas com grandes casas de escadarias de mármore, em que, de cada lado, pajens de pedra seguram lampiões de vidro, em forma de archote. Há jardins com grutas onde uma água esverdeada esfria, silenciosa, sob estalactites de cimento… Há cascatas com muitas conchinhas frisadas… Há canteiros cheios de flores, por perto dos quais parecem mesmo ir passando anões de carapuça, gordos e corcundinhas, com uma risonha cara vermelha e barbada… No alto dos portões os leões de pedra meditam. Pelos telhados das casas, fileiras de moças, brilhantes e brancas, soerguem seus mantos de louça, de pregas imóveis, no vento…

Em certos domingos, pode-se passear por alguma dessas ruas.

Veem-se os quadros com molduras de veludo, e os bronzes e as jarras, por entre as cortinas das janelas. Veem-se as famílias nas varandas, conversando com as visitas. E as crianças, com cara de quem está de castigo, ouvem sem dizer nada, hirtas nos seus laçarotes e bengalinhas, como plantas presas em estacas.

Tudo isso – e as palmeiras enegrecendo contra as cores violentas do crepúsculo. E então de uma sala distanciada no fundo de um jardim, algum piano derramando uma chuva de ouro sobre um telhado de cristal e um secreto vento levando-a e trazendo-a, ora leve, ora intensa, ora copiosa, ora tão lenta que se esperava cada gota, que se podiam contar uma a uma. E depois, nada mais. Silêncio. Nada mais? Não: uma espécie de melancolia que modifica todas as coisas que se vão encontrando…

Solidão, solidão…

O homem de bigodes retorcidos pega os peixinhos de chocolate carinhosamente: “Quere o azul? Quere o dourado?” E depois de receber o tostão faz uma festinha no queixo da menina.

Mais tarde, estende-se a toalha, com alguns furinhos, sobre a mesa, e pousa-se a travessa dos pastéis, a da carne-assada, a do arroz-doce. “Ainda temos doce de goiaba?” A compoteira chega, com uma formiguinha no pé. “Precisamos dar cabo dessas formigas.” – “Já fiz três cruzes de carvão: não adiantou nada.”

E como ainda não escureceu, e não é hora de ter sono, abre-se o álbum de retratos, em cuja pesada capa de couro voam anjinhos de bronze com asas de borboleta.

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