Cooperifa 12 Anos – A Academia de Letras da Periferia

P1000318“E aí, família? Que bom que você veio!” É assim que é recebido quem chega ao bar do Zé Batidão, onde acontece o Sarau da Cooperifa, todas as quartas-feiras, a partir das 21 horas. A hospitalidade e o respeito ao conceito do que é uma comunidade que se importa com os seus pode ser vista e sentida no engajamento e animação dos que ali trabalham, nos sorrisos convidativos e encorajadores de boas-vindas. Está tatuado na pele, no braço esquerdo de quem arregaça as mangas com vontade. Como também na deliciosa batata com queijo gratinada, no escondidinho de carne seca e nas diferentes batidas de goiabada, carambola e abacaxi com hortelã. Na variedade das pimentas, que aquecem as cordas vocais e as almas dos poetas. No convite do sentar-se à mesa, na necessidade de não deixar o outro deslocado, de inseri-lo nessa grande família. Lá, você é conquistado pela paixão pelo que se faz.

O Sarau da Cooperifa, idealizado pelo poeta Sérgio Vaz, completou 12 anos no último dia 19. Um movimento que transformou o Bar do Zé Batidão, localizado em um bairro da periferia da zona sul de São Paulo, em um centro cultural, que entende, valoriza e divulga a literatura periférica brasileira. O projeto também promove o encontro de leitores e escritores, além de divulgar a poesia nas escolas. Improvisa uma sala de cinema na laje do boteco e abre espaço para a produção cinematográfica alternativa das quebradas. Um projeto de sucesso, que influenciou e deu origem a quase 50 saraus, além da publicação independente de mais de 100 livros.

Promover eventos culturais na periferia não é tarefa simples. Segundo Sérgio Vaz, para propor qualquer projeto primeiramente é preciso escutar a voz da periferia e entender de que modo ela precisa e quer ser ajudada. “Quem se propuser a encarar essa interferência tem de fazê-la com humildade. “É preciso eliminar os atravessadores para que os protagonistas possam contar a sua própria história.”, diz Sérgio.  Sobretudo, a chave do sucesso é a paixão pela poesia, pela literatura, pelo amor ao que se faz. “Eu amo o que faço, e isso reflete nas pessoas. Eu me envolvo, vou atrás de parcerias, consigo camisas para o time de futebol da quebrada, e a comunidade valoriza porque percebe que a Cooperifa tem força.”, completa.

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O projeto deu tão certo que deu origem a um documentário; uma coletânea com 43 autores (Rastilho de pólvora: antologia poética do sarau da Cooperifa, 2005); um CD de poesia falada (Sarau da Cooperifa) – ambos (livro e CD) lançados pelo Instituto Cultural Itaú; cerca de 50 livros lançados por lá; e a Mostra Cultural, realizada pela Cooperifa em parceria com outras instituições. Além de transcender os quintais da periferia, tudo isso alcança o reconhecimento das diversas classes sociais, permeando a relação entre as classes e levando o conhecimento mútuo das diferenças entre elas.

Segundo a acadêmica Heloísa Buarque de Hollanda, “a Cooperifa é um dos fenômenos culturais mais importantes desses anos 2000. Pois refaz não apenas o caminho antropofágico da poesia modernista e sua Semana da Arte Moderna, mas, sobretudo, recria agora, dono de sua voz, o grande quilombo da poesia paulista”.

E é dentro desse quilombo que muitos dos poetas frequentadores da Cooperifa têm trilhado caminhos alternativos diante dos obstáculos enfrentados pela periferia. Os textos ali declamados expressam espontaneidade e palavras sedentas de olhares mais cuidadosos para com a sua realidade. Mas ali também é divertimento, é rir dos próprios conflitos, brincar com as dificuldades. É fazer piada, repente, dar um recado ao amante, externar o suplício da saudade. É poesia!

Sérgio Vaz

Foi lendo Pablo Neruda, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, entre outros, que Sérgio Vaz descobriu a poesia e decidiu ser poeta. “Quando você escreve, acha que o mundo está esperando pelo seu livro, mas não está! Você precisa ralar muito, divulgar, correr atrás. Mas fazer uma publicação independente é importante para conhecer o seu público.”  É autor de seis livros: Subindo a ladeira mora a noiteA margem do ventoPensamentos vadiosA poesia dos deuses inferiores, Colecionador de pedras e Literatura, pão e poesia, os dois últimos publicados pela Global Editora.

“ Você molda a poesia e a poesia molda você”. Sérgio Vaz

Para transmitir essa energia, a Global Editora foi até o local e filmou o evento de comemoração de 12 anos, que você pode assistir abaixo:

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