Cecília Meireles – A poeta que fez da morte o seu encanto

box_biografiaExistem muitas maneiras de se contar uma história, de depor sobre um tempo, de relatar fatos e de lagrimar sentimentos. Cecília escolheu a poesia. Com lirismo, nos devolveu emoções de outras épocas. Foi além dos documentos, do que viram os seus olhos, escreveu com sentimento todas as suas verdades memoriais.

A história de Cecília começa antes de seu nascimento. Inicia-se nos Açores, onde nasceram seus antepassados. E essa memória intrínseca à sua alma fora inspiradora para quase toda a sua obra. A beleza e o silêncio do mar foram enriquecidos com os mistérios e o lado obscuro da morte – revelando uma poesia mística, lírica e serena. Seu pai morrera três meses antes de seu nascimento. Antes de completar três anos de idade, perdeu sua mãe. O primeiro marido enforcou-se.

Cecília Meireles foi a primeira poetisa brasileira a representar a afirmação definitiva da autoria feminina em língua portuguesa. Uma mulher multifacetada que, além de poeta, foi pintora, professora,  jornalista, esposa e mãe. Uma revolucionária que, na educação, modificou as diretrizes da literatura infantojuvenil e, na poesia, consagrou-se como uma poeta desviante, pois não se enquadrava em seu período histórico, o modernismo. “Ela começou na contramão e isso é muito bom. O poeta deve mesmo começar na contramão, pois ele descobre caminhos laterais”, comenta Antônio Carlos Secchin, poeta e imortal da Academia Brasileira de Letras.

Considerada uma neossimbolista, Cecília dialogava com o movimento literário do século XIX. Sua poesia não era de vanguarda, não seguia a quebra das regras como faziam os modernistas da Semana de 22. Ela era uma poeta que se preocupava com algo mais universalista e “resistia a qualquer adesão passiva do modernismo. Ao mesmo tempo, ela tirava o seu humor de onde queria, das coisas que encontrava, com um ecletismo muito grande. Ela se preocupava com uma poesia mais lírica, mais metafísica, mais misteriosa.” Sua visão humanista era muito ampla, “o partido dela era o da humanidade. Ela não queria o mar do Rio de Janeiro e da Bahia, ela queria o mar absoluto”, comenta Secchin.

Com uma linguagem elegante, ela não repete os velhos modelos parnasianos, entretanto, ainda de maneira sofisticada, não cede à piada e ao vocabulário vanguardista de 22. E foi por isso que os modernistas demoraram tanto tempo para reconhecê-la. Mas, quando reconheceram, se apaixonaram. “Você não vai encontrar em sua poesia o elogio da força, mas o elogio da delicadeza, alguma coisa bela e imortal”, finaliza Secchin.

Cecília fez parte do grupo Festa – grupo de poetas modernistas cuja proposta era um retorno às raízes simbolistas que cultivavam uma linha espiritualista e de tradição católica – uma contraposição aos modernistas da linha de choque. Esse grupo, considerado modernistas conservadores, se assemelhava aos estilos modernistas americanos, como Elliot, que não eram ateus, mas cristãos – católicos e protestantes.

Segundo o crítico Otto Maria Carpeaux, a poesia de Cecília, embora pertencente a nós e ao nosso mundo, é uma poesia de perfeição intemporal. Sua poética não é anacrônica. E, apesar das influências passadistas, os seus versos situam-se além das escolas do século XIX, não se enquadrando em qualquer conceito muito rígido. São versos delicados, intimistas, subjetivos, sempre carregados de musicalidade. A música, algumas vezes, parece ser mais importante do que o próprio sentido dos versos.

Cecília fora uma criança especial, pois teve de aprender a conviver com o efêmero. Desde muito pequena lidou com a ausência e fez da morte uma companheira com a qual ela tinha intimidade. “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão.”Segundo Alberto da Costa e Silva, escritor, historiador e diplomata, Cecília era extremamente cuidadosa com a sua vida particular. Sabia-se muito pouco sobre os seus sentimentos.

Ela teve uma grande dificuldade em seu primeiro casamento com o artista plástico Fernando Correia Dias, que sofria de depressão. O retorno do casal a Portugal – a convite do governo português – fez mal a Correia Dias, que lá adoeceu e teve de retornar ao Brasil. “Alguns dizem que ele já viajou doente. Todavia, se sabe que ele piorou com o fato de não ter sido tão bem recebido em sua terra natal. box_solombra_livro_valeEnquanto Cecília teve toda a sua glória: mulher no auge da carreira, linda, comunicativa e muito elegante”, comenta Alberto da Costa.

Quase um ano após essa viagem, um certo dia, Cecília retorna ao lar e encontra Correia Dias morto. Ele havia se enforcado, na sala da casa do casal, deixando sua obra, Cecília, e três filhas. “Ela nunca se livrou dessa imagem. Nunca se libertou disso”, lamenta Alberto da Costa e Silva. Todos esses demônios são retratados em sua última obra, Solombra, considerada por Alberto o livro mais importante da poeta.

Viúva,casou-se com o engenheiro Heitor Vinícius da Silva Grilo, falecido em 1972, que, até o último dia de sua vida, teve verdadeira admiração e adoração por ela.

Cecília e a educação
Cecília, além de poeta, foi também uma importante educadora. Organizou, em 1934, a primeira biblioteca do Rio de Janeiro. Considerado um Centro Infantil, o local funcionou durante 4 anos, no antigo pavilhão Mourisco, no bairro do Botafogo, com mais de mil crianças inscritas. Mas, em 1937, houve uma falsa denúncia de que havia livros comunistas na biblioteca e o lugar foi fechado. O livro em questão era “As aventuras de Tom Sawyer”, do escritor norte-americano Mark Twain.

box_voce_sabiaCecília, talvez até mesmo por se lembrar da pobreza das obras infantojuvenis durante a sua infância, criou uma poesia infantil bem original, de questionamento, de assuntos mais filosóficos. Como a obra Ou Isto ou Aquilo, que lida com as decisões, já que passamos a vida inteira escolhendo entre uma coisa e outra.

A poeta defendia o ensino laico. Com muita firmeza, no momento em que o Brasil tinha um pensamento muito conservador, quase fascista, ela teve a coragem de se opor à mistura entre religião e ensino público. Era uma educadora nata. Tanto que, o primeiro livro de teoria de literatura infantil brasileiro foi escrito por ela, Problemas da Literatura Infantil.

Lecionou Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, em 1940. Promoveu conferência sobre Literatura Brasileira em Lisboa e Coimbra. Em 1942, torna-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Realiza várias viagens aos Estados Unidos, Europa, Ásia e África, fazendo conferências sobre Literatura, Educação e Folclore.

 

Confira abaixo a linha do tempo com todas as obras da poeta Cecília Meireles:

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