Um hino de Natal: Dickens por Cecília Meireles

Esse é um dos clássicos da literatura mundial. Já foi adaptado de diferentes formas para o cinema, com versão até dos Muppets, de Caco, o sapo, e o ator Michael Caine interpretando o danado do senhor Scrooge. Trata-se de uma aventura de Natal, com o encontro de um senhor muito materialista com sensações, desejos e impressões há muito enterrados em si mesmo. Além das ilustrações riquíssimas de Lelis, Um hino de Natal da Global Editora tem a tradução e adaptação da poeta Cecília Meireles.

Jamais alguém o fizera parar na rua para perguntar-lhe: “Meu caro Scrooge, como vais?”. Nem os mendigos lhe pediam uma pequena esmola, nem as crianças lhe perguntavam que horas eram, nem homem ou mulher jamais procurara saber de Scrooge como se ia para este ou aquele lugar.

Um hino de Natal, por Charles Dickens.

E de novo o Espectro soltou um grito, sacudiu a corrente e torceu as mãos na sombra.

– Estais agrilhoado – disse Scrooge a tremer. – Dizei-me, por quê?

– Eu levo a corrente que forjei em vida – respondeu o Fantasma. – Eu a trancei, elo por elo; eu a cinjo por minha vontade; por minha própria vontade a cingi. Estranhais o seu modelo?

As ilustrações foram feitas pelo ilustrador Lelis.

Scrooge fechou a janela e examinou a porta: estava fechada com duas voltas, como ele mesmo a fechara com a sua mão; e os ferrolhos se encontravam intactos. Tentou dizer: “Bobagem!”; mas parou na primeira sílaba. E sentindo-se, pelas emoções experimentadas, muito necessitado de repouso, foi logo para a cama, sem se despir, e adormeceu imediatamente.

– Meu tempo está diminuindo – observou o Espírito. – Depressa!

Essas palavras não eram dirigidas a ninguém que Scrooge pudesse ver, mas produziram efeito imediato, pois de novo se avistou a si mesmo: já mais velho, agora, na força da vida, e com os sinais da avareza começando a aparecer-lhe no rosto. Havia em seus olhos um ambicioso, incansável movimento a mostrar a paixão que nele se enraizava. Sentou-se ao lado de uma bela jovem. Nos olhos dela havia lágrimas que cintilavam à luz do Fantasma do Natal Passado.

Capa e quarta capa de Um Hino de Natal

– Nunca vistes ninguém como eu! – exclamou o Espírito.

– Nunca! – respondeu Scrooge.

O Fantasma do Natal Presente levantou-se.

– Espírito – disse Scrooge humildemente –, conduzi-me aonde quiserdes. A noite passada fui levado à força, mas aprendi muito. Esta noite, se tendes alguma coisa a ensinar-me, deixai-me aproveitar.

Cecília Meireles, Charles Dickens e Lelis.

– Espírito do Futuro! – exclamou. – Vós me inspirais um medo maior que todos os fantasmas que já vi. Mas, como desejo vir a ser outra pessoa, diferente da que fui, estou pronto a acompanhar-vos, cheio de gratidão. Não me dizeis nada?

Ele não respondeu. A mão apontava para frente.

Um hino de Natal, por Charles Dickens.

– Que dia é hoje? – perguntou Scrooge para um rapazinho que passava pela rua em trajes domingueiros.

– O quê? – retorquiu o rapaz, espantadíssimo. – Ora essa, é DIA DE NATAL!

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