Nossos Fernandos Pessoas

A portuguesa Teresa Rita Lopes é hoje uma das mais respeitadas especialistas na obra de Fernando Pessoa. E é com ela que a Global vem lançando edições muito especiais desse que é, sem dúvida, um dos autores mais influentes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos. Como os textos de Pessoa já são de domínio público, é ainda mais importante reparar na edição dos livros – definitivamente não é tudo igual. Conheça Vida e obras de Alberto Caeiro e Livro(s) do desassossego da Global Editora.

Livro(s) do desassossego

No plural? – será a primeira surpresa. É verdade: o Livro é três livros: assinados por três autores, perfeitamente diferenciados: o Primeiro por Fernando Pessoa que, a certa altura, nomeou Vicente Guedes seu representante, o Segundo pelo Barão de Teive e o Terceiro por Bernardo Soares.

Introdução escrita por Teresa Rita Lopes

A posse é para meu pensar uma lagoa absurda – muito grande, muito escura, muito pouco profunda. Parece funda a água porque é falsa de suja. A morte? Mas a morte está dentro da vida.
Morro totalmente? Não sei da vida. Sobrevivo-me? Continuo a viver.
O sonho? Mas o sonho está dentro da vida. Vivemos o sonho? Vivemos. sonhamo-lo apenas? Morremos. E a morte está dentro da vida.
Como a nossa sombra a vida persegue-nos. E só não há sombra quando tudo é sombra. A vida só nos não persegue quando nos entregamos a ela.
O que há de mais doloroso no sonho é não existir. Realmente, não se pode sonhar.
O que é possuir? Não não o sabemos. Como querer então poder possuir qualquer coisa. Direis que não sabemos o que é a vida, e vivemos… Mas nós vivemos realmente? Viver sem saber o que é a vida será viver?
Nada se penetra, nem átomos, nem almas. Por isso nada possui nada. Desde verdade até a um lenço – tudo é impossuível. [A propriedade não é um roubo: não é nada.] sic 

 O livro de Vicente Guedes – autobiografia de quem nunca existiu  texto 39 – “Lagoa da posse”

 

Viver é ser outro. Nem o sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.
Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que foi será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.
Altos montes da cidade! Grandes arquicteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que [não serei] amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem.

“O livro de Bernardo Soares – Rua dos Douradores” texto 51

 

Vida e obras de Alberto Caeiro

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação.
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite já entrada
Como uma borboleta pela janela.

Estrofe inicial de O guardador de rebanhos

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