Melhores Contos, de Fausto Wolff

Por / 3 meses atrás / Resenhas / Nenhum Comentário

* por Marco Severo

Eu era um adolescente quando Fausto lançou À mão esquerda. Como sempre fui curioso em relação ao mercado editorial, acompanhei o burburinho que ocorreu à época. Quem era aquele autor de quem todo mundo começara a falar de repente? Descobri que Fausto era um mineiro que vivia há muitos anos no Rio, mas antes mesmo que eu pudesse separar o dinheiro da mesada para comprar seu livro, os hormônios típicos da idade desviaram minha atenção para outro rumo e eu fiquei sem conhecer a obra do autor.

Mas a vida tem seus mistérios, e eu os aceito sem maiores questionamentos. O fato é que nunca esqueci do nome Fausto Wolff, que por mera sonoridade que me causa simpatia, por ter lido algo em algum momento da vida que ficou guardado no inconsciente, ou porque eu tenho alguma tendência à clarividência, nunca esqueci completamente da minha vontade supostamente abandonada de lê-lo.

E digo supostamente porque, de repente, o livro Melhores Contos, editado pela Global Editora, veio parar em minhas mãos. Confesso que comecei a leitura com um olhar enviesado: era tanta gente boa falando bem das coisas do Fausto que eu não poderia ficar outra coisa senão ressabiado. Rubem Fonseca, Ziraldo, Campos de Carvalho, Amilcar Bettega Barbosa… Aí tem!, pensei.

E tinha mesmo. Digo, e tem mesmo. Nos nove contos encerrados nas 180 páginas do livro, o leitor encontra todo o universo e, se quiser, ainda mais um pouco.

O livro já começa com a seguinte frase, do conto “O jardineiro”: “Como todo país neoliberal do Terceiro Mundo, o Brasil é uma democracia. Tanto o Executivo, como o Judiciário, o Legislativo e a Mídia estão de acordo. A grande maioria da população não se pronuncia, pois ou está morrendo de fome ou desempregada […]” Sim, meus caros, a obra de Fausto Wolff é socialmente crítica e muito politizada. E não pense você que ler sua ficção é como ler um desses tratados chatérrimos. Ao contrário, a narrativa de Fausto é uma verdadeira bomba de nitroglicerina de entretenimento e diversão.

Exemplo disso é “A velha”, em que um adolescente resolve entrar na mansão onde uma velha mora sozinha com o intuito de assaltá-la. Mas o que acontece lá dentro o deixa na dúvida sobre o que fazer. Além disso, a última página e meia do conto dá uma reviravolta tão absurda que a impressão é que fomos lançados dentro de um cinema, filme dos bons.

Em “O canibal”, um conto distópico de um Brasil que voltou a viver uma monarquia (com cara de Brasil nos anos 1990), seres humanos devoram-se uns aos outros porque o preço da carne está impraticável. Utilizando-se desse mote, compreendemos a que talvez seja a crítica mais aguçada do autor em relação ao que estamos nos tornando, que nada mais é do que o retrato do que hoje somos. Quer saber do que eu estou falando? Só lendo.

No conto “A menina”, conhecemos Lisa, uma menina de seis anos filha de um casal completamente irresponsável e indisposto a viver uma vida a dois. Na história mais delicada de toda a obra, encontramos aqui um Fausto Wolff que fala de forma sensível sobre o abandono, as formas inevitáveis como somos atingidos por toda a vida com aquilo que nos confrontamos na infância, os medos, a ingenuidade e, por fim, a vontade de amar que, nunca correspondida, se transforma em rancor e solidão.

E Fausto vai por aí, desfilando seus personagens picarescos, profundamente humanos, que deixam dentro do leitor um legado sociológico, filosófico, desses que a gente sente vontade de ampliar, lendo outros livros do mesmo autor.

Curioso, fui procurar no YouTube vídeos com entrevistas do autor. Eu sentia aquelas histórias ressoando tão forte dentro de mim que eu queria trazer o autor um pouco mais para perto. Não deu outra: vi a fala de um homem ora sorridente e bonachão, ora cético e melancólico. Era, todo ele, a representação, diante das câmeras, das histórias que inventou. Impossível não desejar ficar ouvindo por muitas horas o que aquela voz, marcadamente afetada pelo tabagismo, tinha a dizer. Não podemos mais desde 2008, quando faleceu precocemente – a impressão que temos quando um escritor da potência de um Fausto Wolff morre é a de que em qualquer idade teria sido cedo demais –, mas aí estão o livros para serem descobertos e lidos. E eu digo a você: esse Melhores Contos é uma joia rara que todo leitor deveria descobrir. Agora. Nesse minuto. E apesar do tom de urgência, deleitar-se parcimoniosamente com esse maravilhoso exemplar, pedindo aos deuses para que o livro não acabe.

* Marco Severo é de Fortaleza, Ceará. Professor de inglês, tradutor, gosta mesmo é de escrever em português claro e de ler em todas as formas da língua. Autor dos livros Os escritores que eu matei (Editora Substância, 2015) e Todo naufrágio é também um lugar de chegada (Editora Moinhos, 2016).

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