Natal em Salvador

Por / 11 meses atrás / Leituras / 5 Comentários

Zeel Fontes *

Eu precisava cravar os pés na cidade. Andar com alguma ilusão de liberdade. Ver as amendoeiras.

Vista de baixo pra cima, amendoeira é céu verde-claro iluminado. Ruas, asfalto, semáforos – velho sem pernas na cadeira de rodas em frente ao Colégio Nossa Senhora da Luz, meninos limpando vidros dos carros de vidros fechados. Todos pretos.

Véspera de Natal. Preferi ficar sozinho na cidade do Salvador que não me salva. Dor estranha essa minha. Não choro a separação. Aquiesço até, fizemos o que precisávamos fazer. Mas a volta, o retorno, eu diante do eu de antes. O que será que vem? Esquisito movimento de tempo. Parece que volta quem já não tem mais volta.

Dia do nascimento do Salvador, em Salvador, e, honestamente, não é salvação o que desejo. Aliás, o desejo anda bem desanimado. São outras sensações. Premonição da latência a se encruar na carne. Ontem, vinte e três, depois que Olívia, minha amiga, me deixou aqui, depois de desfeitas as malas, na casa de minha irmã, depois do voo da madrugada, da chegada, todo o resto das horas catatônico à beira do sofá. Ninguém por aqui, fico feliz. Todo mundo viaja.

Enquanto caminho e logo se desfaz a insegurança de andar sozinho, fico levemente feliz ao lembrar do Natal. E me dou conta dos primeiros passos na calçada. O sol da cidade na pele avivando o verão, desses prazeres que a gente só entende porque sente sozinho. Respiro devagar, fecho os olhos, discreto arrepio, “Chestnuts roasting on an open fire”, baixinho, “Jack Frost nipping at your nose”. Lembro de quando comecei a escutar músicas de Natal, desde outubro. Quando descobri que as lojas aprontavam suas vitrines, logo depois do dia doze. A gente fazendo bolo na cozinha, ele estranhando, nós rindo, eu cantando as músicas que descobri, Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby.

Na orla, inspiro o mar forte, agitado, agudo. Lembro de Gil, Candolina de Caetano, de professora Vitalina e de meu amigo Diogo. Outros estados de pretos nesta minha cidade da Bahia. Estados lindos. Eu vim de Periperi, eu vim de Periperi – grita minha alma suburbana, querendo olhar nos olhos de quem caminha. De repente penso, não foram os dez anos passados fora que me afastaram da cidade.  Foi o carro, a burra urbanidade. Sinto vontade de olhar nos olhos do meu povo. Poucos me olham.

Vou descobrindo que a cidade é mais nossa quando andamos a pé.

O concreto da orla é linha divisória entre a cidade e a aldeia que a cidade foi um dia. Há peixes recém pescados. Há canoas, barcos. Há pequenos grupos de pescadores resistindo aqui e ali. Vi espécie de gaivota com penas azuis no dorso, vi tartaruga parada na areia e o remorso me fez voltar. Estava morta.

 O mar não faz mínima concessão. Movimento contínuo completamente alheio ao silêncio de que preciso.

Chego ao Jardim de Alah. Tomo água de coco. Vai chover. Bate vento soprado do mar. Forte, persistente. Grãos de areia chicoteiam meu corpo como ramas de benzedeira. Não é chuva de vento apenas. É o que provoca na pele. O que se sente. São pingos d’água na carne quente.

O céu acinzenta as ondas que quebram violentas. Sou eu e minha intensidade sob as gotas, grãos, ventos. Fecho os olhos, abro os braços, espalmo as mãos e aceito o banho que os santos dão. Corpo de frente ao mar, tempo de silêncio e bem em frente ao meu nariz, o horizonte de que nem lembrava mais.

Os pingos molhando a roupa, a língua roubando gotas, a pele picada pela areia, parece que estou num poema. Rio, sozinho, dessa mania de em tudo procurar poesia. O silêncio volta. Verão, outros tempos, dezembros, mais lembranças que presenças, de novo o arrepio. “And so, I’m offering this simple phrase to kids from one to ninety-two”. A música indo e vindo. Natal em Salvador. Merry Christmas to me. “Merry Christmas to you.”

* Zeel Fontes desviou-se da psicologia e descobriu a literatura. Está concluindo pós em Formação de Escritor no ISE Vera Cruz, em São Paulo. Mora em Salvador, onde nasceu.

5 Comentários

  • Railda Fontes16. dez, 2016

    Lindo, comovente, lembranças verdadeiras, amor que se foi.
    Amei!

  • Railda Fontes16. dez, 2016

    Muito bom.

  • zilma17. dez, 2016

    Que modo lindo de escrever. Parecia que eu estava ali observando e vivendo junto o que vinha sendo escrito e esperimentado! Obrigada!

  • cristiane Naiara19. jun, 2017

    Tamanha serenidade ao narrar, me fez viver o enredo e me deliciar em suas emoções.Foi lindo sentir…

  • Natan Barreto24. jun, 2017

    Belíssimo texto! Doeu em mim. Parabéns!

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