Josué Montello – 100 anos

Por / 3 meses atrás / Leituras / Nenhum Comentário

O Maranhão especialmente comemora o centenário de um dos mais importantes escritores do Brasil no século XX, Josué Montello, que nesta semana completaria 100 anos – nasceu em agosto de 1917, morreu em 2006. Mas a celebração é de todo o país. Escreveu quase trinta romances e por muitos anos foi colunista do Jornal do Brasil, em crônicas definidas assim pela professora e pesquisadora Flávia Vieira da Silva do Amparo, que fez seleção e preleção do livro Melhores Crônicas Josué Montello (Global Editora):

“A crônica de Montello tem o ar das coisas sérias, com a linguagem fluida de um mestre das palavras, disposto a desvendar um mundo todo seu: o universo da escrita. Nem por isso perde a leveza, a cumplicidade com o leitor, podendo provocar tanto as lágrimas quanto o riso, tamanha a sua capacidade de trabalhar com a palavra e com os sentimentos, ora tocando as fímbrias do intelecto, ora as cordas do coração.”

Montello foi eleito aos 36 anos de idade para a Academia Brasileira de Letras. Além de escritor, foi assessor de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek e embaixador do Brasil na ONU. Seus textos partem de suas memórias e sempre ganham outra dimensão, mergulhando em questões humanas como amizade, saudade, a noção da passagem do tempo, morte, amores, as escolhas que todos fazemos na vida. Tratou muito da literatura, comentando sobre livros e autores. Teve coluna no Jornal do Brasil entre 1955 e 1993. Convidamos à leitura de uma delas, bom exemplo de sua habilidade como escritor:

O jornal da juventude
7 de agosto de 1984

De repente, ao pôr em ordem o espaço da biblioteca destinado a publicações periódicas, verifiquei, com espanto, que o meu jornal – o jornal de que fui redator-chefe aos dezessete anos – está completando meio século. Meio século exato, no próximo dia 15 de setembro.

Realmente, foi nessa data que apareceu em São Luís o meu jornal. Chamava-se A Mocidade. Com redator-chefe, secretário, diretor-gerente e diretor-tesoureiro. Só não tinha sede nem dinheiro. Mas existia, e com circulação periódica regular.

Tenho defronte de mim, neste momento, a coleção completa de A Mocidade, e até hoje não consigo saber como levei adiante o meu jornal. Sei que, pouco antes, eu assumira a presidência (não deixei por menos) do Centro Estudantil Maranhense. Lembro-me de que convidei colegas de outros estados para irem a São Luís, entre eles o Yaco Fernandes, que presidia instituição análoga em Fortaleza, e que aquiesceu ao meu convite, ponto de partida de uma amizade que só a morte iria desfazer, já no Rio de Janeiro.

É na adolescência que traçamos o roteiro do caminho que vamos seguir. Se o itinerário se altera, a culpa é menos nossa do que do destino, que não teria tido sensibilidade suficiente para nos levar a sério.

Tive um conterrâneo, Antônio Sobrinho, a quem perguntei, logo que chegou ao Rio, o que pretendia ser. E ele, sério, com rapidez:

– Ministro da Justiça.

Morreu pouco depois – por causa de 20 centavos – ao reclamar o aumento das barcas para Niterói, na Estação da praça 15. Protestou contra o aumento, e correu para apanhar a barca, que já ia sair: no momento em que saltou para apanhá-la, desequilibrou-se, caindo no mar. Morreu ali mesmo, pelo menos com o consolo de não ter deixado sem a sua reclamação o aumento extorsivo. Não fora isso, e estou certo de que o ministro Abi-Ackel o teria, hoje, entre os seus predecessores.

Eu, se não cheguei a redator-chefe de um grande jornal na maturidade, realizando assim a vocação de adolescência, devo-o à circunstância de ter feito um pequeno desvio de rota, que terminou por me abrir espaço nesta coluna, sonho também de juventude.

Já Nabuco havia previsto que seria assim, neste trecho de Minha formação: “O traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, e ao qual este terá que se cingir sem o saber.” Ou sabendo, como no meu caso.

Planejei meu jornal aos quinze anos. Mal saído dos dezesseis, consegui realizá-lo. E é com justificada emoção que o revejo agora. A plataforma do jornal, em duas colunas, assinada por mim, no centro da página, tem um ar compenetrado e suficiente, de que hoje acho graça. De onde concluo, à luz dessa prosa matinal, que eu me levava a sério, já nessas horas matinais.

Eram meus companheiros de aventura: Otaciano Rego Júnior, J. B. Lemos (não o daqui, à frente de editoria do JB, mas o de lá, ainda na estacada, como então se dizia) e Souza Reis. Ou seja: o secretário, o gerente e o tesoureiro.

Eu tinha, por esse tempo, o estilo de minha eloquência juvenil. E usava palavras rebuscadas que, hoje, minha simplicidade repele, como plêiade e ínclito. Valha-me Deus.

Vejam aqui o começo do meu primeiro artigo: “São comuns à Mocidade estas arrancadas violentas para a luta”.

Nas quatro páginas da folha, acolhíamos a prosa e o verso dos nossos colegas do Liceu Maranhense e do Centro Caixeiral. O Centro Caixeiral, não obstante o seu nome, era um núcleo de bons estudos, dispondo de excelente biblioteca literária. Foi ali que li, por esse tempo, as Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, nos pequenos exemplares de sua primeira edição em três volumes de meu mestre Nascimento Morais, sobre a obra poética de Gonçalves Dias.

O jornal tinha uma eminência parda, se mal não me recordo, na pessoa de um companheiro do Liceu. José dos Santos Carvalho. Perdi-o de vista, nesta caminhada de meio século. Que é feito dele?

Ao contrário do que ocorre com os jornais de sua espécie, A Mocidade durou mais de ano. Chegou mesmo a comemorar o seu primeiro aniversário com fartos louvores a si mesmo, como é de praxe. Nesse número, figuro como poeta, com um soneto bem metrificado – e horrendo, e ameaçador – de que dou aqui, como pano de amostra, estes dois versos sintomáticos: “E se um dia te fores do Caminho,/ órfão de meu olhar, de meu carinho…”.

Dada a veemência do poema, suponho que a Eleita (era assim que se dizia), ou se rendeu, ou me deu o fora. É natural que, a esta altura, eu suspire. Suspire, e me pergunte: – Que fim levou, convertida hoje em matrona (já avó, ou bisavó), essa menina-moça de olhos verdes, que entraria mais tarde em dois de meus romances?

Repasso a coleção de A Mocidade, e os nomes de companheiros que vou encontrando se despojam da farda do Liceu, transformando-se em médicos, advogados, desembargadores, comerciantes, industriais, sem faltar sequer uma bela troca de murros e pescoções entre alunos do Liceu e do Centro Caixeiral, precisamente no dia em que tínhamos feito, no Teatro Artur Azevedo, nossa festa de congraçamento.

Também ficou a mancha de sangue, quando dois velhos amigos, e nossos companheiros, se desavieram na Fonte das Pedras, no Centro da Cidade, e um deles abateu o outro com uma punhalada. Veio no jornal.

De repente dou comigo a abrir fogo contra um Marechal. É verdade: aos dezessete anos! Lá está, no número de novembro de 1934, a minha Carta a um defunto histórico. O defunto era o Marechal Deodoro da Fonseca. E o propósito da República. Chumbo grosso. Cacetadas rijas. Por isso mesmo, aqui no Rio, quando passo pela estátua dele, tenho a impressão particular de que é para mim, com ar de troça, que o Marechal tirou o chapéu.

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