Homenagem a Moacyr Scliar

Por / 4 meses atrás / Leituras / Nenhum Comentário

Moacyr Scliar completaria 80 anos neste dia 23 de março. Nasceu em Porto Alegre e, além de escritor, era médico. Escrevia em qualquer lugar que pudesse, praticamente até sua morte, em 2011, depois de sofrer um AVC. E assim foram publicados mais de sessenta livros que eternizam o contista, romancista e cronista. A Global Editora publica seleções de Melhores Crônicas e Melhores Contos de Scliar, que são generosas portas de entrada para sua vasta obra, com apresentações e compilações feitas por grandes especialistas, como Luís Augusto Fischer e Regina Zilbermann.

Abaixo, um dos textos que fazem parte de sua seleção de crônicas, exemplo da capacidade de observação da sociedade, de sua ironia bem-humorada e de sua escrita poética que dava cirúrgico valor às palavras:

O interino
Moacyr Scliar

O interino é exatamente isto, um interino. Híbrido e sibilino, pragmático e circunspecto, o interino é sempre cordial, muitas vezes trivial, mas nunca chega a ser venal – por falta de tempo? De ocasião? Mistério. O coração do interino tem razões (mas só no ventrículo esquerdo e na aurícula direita – o interino nunca ocupa as quatro cavidades cardíacas) que a própria razão desconhece. Na dura realidade da interinidade se origina a melancolia da verdadeira sabedoria: sic transit gloria mundi, murmura o interino, veraz, ainda que fugaz. A cátedra e sua vitaliciedade, a Academia e sua imortalidade, a glória da Eternidade, nada disto está ao alcance do interino. A ele está reservada a fração de minutos, os quartos-de-hora, os solstícios e os equinócios, os interstícios e os solilóquios. O interino é a sístole, mas não a diástole, a expiração mas não a inspiração. O interino aspira a desaparecer: como a primeira pomba, mas sem o fragor da bomba. Como a neblina que se desfaz, lá se vai o nosso rapaz.

Questões: quem é que ocupou o lugar do Senhor quando Ele, no sétimo dia, foi descansar? Quem é que fica tomando conta da situação, depois que o último apaga a luz e sai? Quem é que ficou em Marte, quando toda a vida de lá desapareceu? Quem é que administra o limbo? No meio do caminho da nossa vida, quem é que achamos?

Relatos. No primeiro Congresso dos Interinos recentemente realizado numa cidade de barracas provisoriamente armadas no deserto de Gobi, ninguém apareceu. É que os interinos mandaram seus interinos, e estes mandaram outros interinos e assim por diante – até agora os interinos estão se substituindo uns aos outros, a esta altura com tal velocidade que nenhum interino permanece como tal mais que meio segundo.

Não é comigo. Volte amanhã. Procure o responsável. O senhor tem certeza que o apêndice é do lado esquerdo? – perguntou o paciente ao cirurgião. Este não estava bem certo; era interino. Mas o paciente não tinha mais apêndice; também ele era um interino.

Um prisioneiro político se evadiu e deixou em seu lugar um interino. No mesmo dia este foi chamado: era a data da execução. O interino enfrentou com um sorriso o pelotão de fuzilamento: de certo usarão balas de festim, pensou. Estava enganado; e assim, de preso interino se transformou em mártir titular. Mesmo os interinos têm seus momentos de glória.

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked. *