Escuridão

Por / 9 meses atrás / Leituras / 6 Comentários

Zeel Fontes*

Tempo doido, né, Joana? Tempo escuro.

Por aqui, tristezas. Salvador cada dia mais árida. Não se veem mais os flamboyants nas praças como no tempo em que você esteve aqui. Hoje, no máximo, umas graxas plantadas nos canteiros. E as coitadas nem florescem como aquelas. Tenho tido dificuldade de lembrar como eram os cachos das acácias, pra você ter uma ideia. O tom do amarelo. Ouro. Lembra daquele amarelo? A praça da Revolução, cimentaram. Tudo árido, Joana. Agora, a Barra, daqui a pouco, o Rio Vermelho. O coqueiral da orla virou fila de coqueiro replantado. Largado. Um filete.

Honestamente, nem sei por que tenho lembrado de você. Nem éramos amigos assim. Amigos, amigos mesmo, não éramos. Você era da idade de Lara. Talvez até um pouco mais velha. E Lara era a mais velha lá de casa. Eu deveria ter, então, o quê, uns 11 anos? Mexeu com todo mundo, Joana. Periperi inteiro. Todo mundo sentindo. Aquele luto calado. Todo mundo sério. Quis saber o que tinha acontecido. Tudo era meio segredo. Tinham medo de que a gente comentasse.

Eu insisti para saber. Lara entendeu meu interesse, confiou que eu queria era, sei lá, aprender. Foi a primeira vez que vi discussão sobre aborto malfeito. Que quis entender o jornal. Uso de sonda. Gente usando até cabide de ferro. Como sonda. Útero ferido, perfurado. Morte. Morre-se mesmo. Por nada. Por tudo aquilo que já vem antes. Por vergonha. Porque suas irmãs tinham saído de casa, grávidas, e você não queria que fosse assim. Queria casar antes. Já namorava há um tempão com Brito. Queria que as pessoas achassem bonito o amor de vocês. Você era tão jovem. Dezessete anos, meu Deus. Dezessete anos.

Quero te dizer que foi mais do que apenas com você. Mesmo sob sussurros, as mulheres saíram de suas tocas. Falavam, entre elas, que era injusto correr risco por causa de lei. Do homem. Falavam que era fácil julgar a clandestinidade, quando se tinha dinheiro. E em meio a isso, confessavam sonhos. Depois esqueciam e voltavam a falar do jeito que deveriam, naquele tempo: 1978. Sem se comprometer. Mas não sei, eu via que existia uma força invisível entre elas, mesmo entre aquelas que diziam que quem aborta chega no mundo espiritual cheia de pontinhos pretos, um para cada aborto. Eu, de longe, sei lá, aprendia sobre camadas escondidas. Sobre o que existe, mas não se enxerga. Sobre o que não se deve enxergar, mas existe. Coisas assim que vão virando tristezas. Escuridão.

O que quero te dizer é que homens também abortam. Sem sangue, com outras mortes, sem sondas. Todos abortamos, Joana. Interrompemos ciclos.

Nem sei por que estou te chamando de Joana, se era pelo nome mais curto que te chamávamos: d’Arc. Seu segundo nome. Inspirado na heroína francesa morta aos 19 defendendo a pátria, o lugar de origem, o lugar a que se pertence, o lugar do filho.

Quem te deu esse nome? Coincidência reversa.

Não é de escuridão que me lembro quando lembro de você, d’Arc. É de aldeia. Fogo iniciado no escuro. Fósforo riscado na caverna, expondo sedimentos. Clareando fósseis. Revelando que desejo de pertencimento pode ser maior que medo de morte. E você só queria que achassem bonito o amor de vocês.

* Zeel Fontes desviou-se da psicologia e descobriu a literatura. Está concluindo pós em Formação de Escritor no ISE Vera Cruz, em São Paulo. Mora em Salvador, onde nasceu.

6 Comentários

  • ana Lu21. mar, 2017

    Forte intenso sofrido mas entendido

  • sandra Rita Motta22. mar, 2017

    Texto perfeito, intenso,triste,melancólico e ao mesmo tempo suave.

  • Lisandra Maria Fontes Pereira Chgagas24. mar, 2017

    Sempre tocante, intenso e emocionante.

  • Ligia Begovacz25. mar, 2017

    Tão real e profundo!

  • ariselma25. mar, 2017

    Parabéns Zeel!!
    Transcreva sempre para o papel inspirações transcendentais….

  • Natan Barreto24. jun, 2017

    Tão contundente este texto! Parabéns!

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked. *