Bolha de ar na seringa

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                                                                                                                    *Zeel Fontes

Alguma urgência me impacienta.

Chet Baker toca Almost Blue.

Meu corpo querendo diálogo dança olhando a sombra inexata projetada na porta de vidro da esquadria e continua, porque gosto do que vejo e deixo meu corpo dançar. Estou sozinho e danço na sala do apartamento. Feliz, descobri que felicidade não é alegria. Felicidade pesa. Estou mais sério, olhando pouco para os lados. Imerso. Vivo. Conectado ao meu tempo, porque ele não me leva. Estou nele. Galopando as horas. Produzindo. Querendo gostar das coisas. Querendo saber onde as pessoas estão.

Quem passa por mim pedalando nem tem ideia. Pedalo leve com disfarçada serenidade, porque preciso ouvir cliques, martelo batendo pregos, pontes, foices, meu peito redobrado de palavras. Voltei a escrever o romance. Poder imenso exala do meu corpo e provavelmente altera meu andar e a maneira como passo a olhar o mundo.

Talvez por isso, minha presença calada assuste as pessoas, eu percebo. Tenho lido e escrito em pequenos cafés e livrarias. Os seguranças desconfiam da minha rotina, alguns com curiosidade, outros com empáfia. E eu apenas leio e escrevo. Leio e escrevo e pago meu café.

Fiz pequenas amizades na medida desses pequenos pedaços de tempo de convivência. A moça do café, as meninas da doçaria. Desejamo-nos bom-dia e tentamos com gentileza tornar o dia mais leve. Sabemos que os dias não são leves.

Escrever, ler tem parecido assustador por aqui. Os seguranças reconhecem a potência – eu pergunto – ou apenas obedecem aos que a reconhecem? Às vezes, pareço um pequeno peixe no aquário no café da livraria. Não é apenas o fato de ler e escrever, outros fazem o mesmo por ali, é o mergulho. Ontem mesmo, uma segurança se esgueirava silenciosa por trás tentando captar o que eu fazia.

A questão de ler e escrever é que ler e escrever são pensar – fico tentando elaborar. E quando se pensa, tudo é mais simples e mais claro. Menos nublado. Menos nebuloso. Com menos frescuras e mais cordialidades. Mas bem-estar aproxima. Aproximação é força.

Não somos livres. Estamos presos ao medo das diferenças. Presos à pressão de força que empurra para o fundo. Entre nós, constroem-se pontes verticais que não transpõem vales. Apenas distanciam-se deles. Preferem-se edifícios a mares, marfins a bichos, poucos ao invés de muitos. Tenho estado pessimista assim em todos esses dias de felicidade.

Escapar do esquema é como bolha de ar na seringa – tenho entendido. O interessante é que só percebi que escapava de algum esquema por causa do monitoramento excessivo. Passei a me perguntar o porquê. E enxerguei a matrix. A realidade que se reveste de aparências. É por isso que se arrancam turbantes, agridem-se gays, violam-se sigilos de fontes. Temem-se as bolhas.

As bolhas estão entre. O que está entre escava, derruba. Quem está feliz está entre. Vivo, entre si e o que o cerca. Felicidade encorpa, firma a pisada, altera o olhar, revela realidade, descobre aparências. Felicidade pesa porque sentimos que o outro também poderia ser feliz.

Comentário

  • Lisandra chagas17. maio, 2017

    É sempre bom, ler zeel Fontes. Sua forma p oética de escrita. Fala de humanidades e poesia!

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