A resposta de Nietzsche

Por / 2 meses atrás / Leituras / Nenhum Comentário

Marco Severo *

Foi Nietzsche quem disse que inventamos a arte para não sermos destruídos pela realidade. Se aceitarmos essa ideia como coerente, temos aí respondida a pergunta: “Arte para quê?” (E por arte entenda-se toda e qualquer expressão artística, do grafite, passando pela literatura, cinema, fotografia, pintura etc.) Penso que essa pergunta nos dias de hoje, inclusive, é algo ultrapassado. O propósito da arte não poderia ser outro além do revelado por Nietzsche. Aliás, claro, podem ser vários; talvez não exista causa nem razão única para um ato ou fato, mas todos retornam para essa máxima esbofeteada do filósofo alemão.

Assim, segundo ele, é como se a arte existisse para que possamos driblar a morte. Eu diria ainda: a arte existe para que possamos driblar a própria vida e sua esmagadora pujança. A vida, essa coisa linda, é muitas vezes um monstruoso pesadelo. Não é fácil seguir a um só tempo vivo e vivendo – viver em momentos difíceis somente à base de muita culpa incutida por religião, por exemplo, medo do que vem depois ou, voltando-se novamente para o filósofo: quando se tem uma razão pela qual viver. E a arte cumpre muito bem esse papel. Não confundir aqui, claro, a arte como missão – missão é coisa para profissionais, para religiosos, espiões, detetives, pessoas que lutam em guerras. E alguém que se resolva a fazer arte pelo sentimento atávico do ser artista pode sim ganhar (muito) dinheiro com sua arte, pode exercê-la com regularidade, mas jamais pensará em si mesmo como profissional.

Aquele que deixa de ser amador para se profissionalizar, em se tratando de arte, corre o sério e amargo risco de perder-se no caminho, como tantos. Tanto que começaram trilhando caminhos artísticos esplendorosos, arrancando aplausos e elogios, e deram em nada. Vivermos na época da sociedade do espetáculo conduz a isso, é claro. Basta ligar a televisão num reality show ou programa de auditório para atestarmos esse fato. Um bando de macacos reproduzindo comportamentos num behaviorismo que daria náusea a Skinner. São aplausos e mais aplausos, e adjetivos tão megalomaníacos direcionados a trabalhos com uma profundidade que formigas poderiam atravessar com água pelas canelas, como dizia Nelson Rodrigues.

Romântico como isso possa parecer, e parece, amador sempre me soa como “aquele que ama”. Profissional não pode amar, então? Pode. Mas, se o fizer, ama outros fatores periféricos, e não apenas o objeto da arte em si.

Na esteira de grandes histórias que narram a nós mesmos enquanto espécie (numa visão macro) ou a nós mesmos (numa visão micro e mais particularizada ou individualizada), é bem certo que, numa lista imaginária, nos lembraremos mais de grandes romances.

Passado dessas questões, então, parece-me que a pergunta pertinente a se fazer hoje em dia é: arte para quem? E ainda uma outra: arte a que preço?

Uma coisa de cada vez.

Refuto completamente a ideia de que arte nasceu para ser “consumida”. Consome-se cerveja, água, eletricidade, tempo. Arte é outra coisa. Exige contemplação. Por ser algo quase rarefeito, subjetivo, etéreo; arte, ironicamente, pode ser objeto de desejo, mas nunca de consumo. Desejar implica investimento da libido, da admiração, da sedução. Assim, arte é para quem estiver disposto à fruição, e não ao mero usufruto. Portanto, pode ser feita – e direcionada – para muitos ou poucos.

Não nascemos com um chip que nos programa para amar, cultivar o amor, acariciar. Nascemos livres do amor romântico. Se nos tornamos dispostos ao amor, pode estar certo: foi a arte que nos sensibilizou. Nascemos bicho, e muitos de nós só não morrem bicho porque sobrevivemos à vida. E só sobrevivemos a ela porque algo nos engrandeceu durante todos os percursos ao longo dos anos. Tudo o que está à nossa volta, e que já está à nossa volta quando aqui chegamos, nos impele em várias direções. É por isso que tantas vezes nos vemos em luta alvoroçada com nós mesmos. Dentro de nós, tempestades se abrem, cabos de guerra são puxados para todos os lados, sangue é derramado em batalhas violentíssimas: é difícil ser um só e ter de fazer escolhas, peneirar as opções. E sim, temos de fazê-lo, a limitação física nos impõe.

Pelo menos, temos opções. Boas ou ruins – isso vai depender de como cada um adere ao seu gosto pessoal;  este, por sua vez, determinado pelo seu repertório e pelo meio onde vive –, elas existem.

A arte, então, deve ser direcionada àqueles que desejam amealhar não apenas conhecimento, mas que almejam compartilhá-lo. Isso pode muito bem voltar à ideia de missão, anteriormente refutada, mas não. Penso que arte está para a vida como a vida está para a sua própria finitude: são indissociáveis. Ainda sobre a “resposta” de Nietzsche, arte torna a vida vivível, que é uma palavra que não existe, mas que agora existe e é linda – e tem um significado que nem precisa de explicação.

Agora, a que preço se deve produzir arte? Não me refiro aqui à ideia de valor financeiro agregado. Refiro-me, isto sim, a algo que sempre martela na cabeça de qualquer pessoa que, nos dias de hoje, tenha a ousadia de querer produzi-la: até onde se deve forçar sua realização? Até onde insistir? Qual o limite? A qual custo financeiro (aqui vale) e emocional?

São perguntas densas, tensas e por demais espessas para se lidar tão facilmente.

Evidentemente que o desejável é que vivêssemos num mundo onde os governos quisessem não apenas patrocinar as mais diversas formas de arte, mas ensejá-las de maneira ampla, diversa e o mais tresloucadamente plural possível. A realidade é que, por vezes, a impressão que temos é a de que o mundo é o inferno de algum outro lugar, onde pensar em arte é não apenas impossível, mas passível de graves punições por ser pecado em sua forma plena.

Contudo, a vida segue, a duras penas. E é por seguir que se insiste. Hoje, como sempre, vemos pessoas fazendo arte de todas as maneiras, no singular ou no coletivo, e levando suas criações aonde quer que elas queiram fazer chegar. Vivemos, nos últimos três anos, um momento sui generis para editoras de pequeno porte, que têm começado a aparecer mais em resultados de premiações importantes no Brasil e mundo afora. As redes sociais tornaram-se um marketing poderoso para aqueles que produzem de forma silenciosa, criando suas lojas sem paredes, dando voz a si mesmos, ampliando seus limites e suas vozes.

E nem adianta questionar se isso é suficiente, porque em tempos cada vez mais diluídos numa corrente abjeta, nada parece nos bastar. Entretanto, as formas de se chegar estão aí, lançadas. Sem contar que muitos agitadores culturais, muitos produtores querem permanecer pequenos. Há quem lance um livro com uma tiragem de 150 livros e que ache esse um número bom, pelo simples fato de que não almejam o céu, não sonham em viver da escrita. São esses os verdadeiros amadores? Não necessariamente. Possivelmente, são apenas pessoas que enxergam o meio e o processo de uma outra maneira.

Naturalmente, em se tratando de criação, invenção, de obras, as pessoas querem ser reconhecidas, querem curtir suas crias e desejam loas àquilo que puseram no mundo. Um sonho nunca anda sozinho.

Vale a pena sonhar às custas da própria vivissecção? Porque isso também implica o questionamento de que tipo de arte se tem produzido. E isso geraria discussões sem fim.

E, honestamente? Pouco importa. Toleramos ser seviciados porque existe algo para além da compreensão, do tangível, que impele o ato criador. Ao criarmos, brincamos de ser Deus. E esta fagulha divina da criação nos faz não apenas rejeitar a morte, mas adiá-la.

Para que cantar, fotografar, fazer cinema, pintar, escrever um livro? Porque viver é por si só um levante contra todos os seres humanos e suas loucuras. Ver-se aqui, do lado de fora, e obrigar-se a existir só é possível se tivermos elementos que nos mantenham na eternidade desse instante. E arte é, em pequenas palavras, essencialmente isso. Criamos não para entender a loucura do outro ou a loucura coletiva, mas para entender a loucura de termos sido colocados aqui e a nossa também. Se não para entendê-las, que seja pelo menos para aceitá-las.

A vida não apenas permite o ato criador; ela é também, ironicamente, sua maior inimiga. A arte existe para que nos salvemos de nós mesmos.

* Marco Severo é de Fortaleza, Ceará. Professor de inglês, tradutor, gosta mesmo é de escrever em português claro e de ler em todas as formas da língua. Autor dos livros Os escritores que eu matei (Editora Substância, 2015) e Todo naufrágio é também um lugar de chegada (Editora Moinhos, 2016).

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