A arte de conversar

Por / 4 meses atrás / Leituras / Nenhum Comentário

* Luís Martins

Muito se fala no Brasil, mas pouquíssimo se conversa. E exatamente porque todos falam ao mesmo tempo, ninguém ouve – e a conversa é a arte de saber ouvir, mais talvez que de falar; em todo o caso, exige falas e pausas alternadas, como no teatro. O brasileiro, em geral, não é um bom causeur; é um tagarela. Tem maior propensão para o recitativo do que para o diálogo; de modo que uma conversa entre brasileiros é quase sempre uma exibição de monólogos paralelos, em que todos falam para todos, ou cada um para si mesmo, o que vem a dar na mesma.

O bom causeur  deve ser discreto e pouco propenso a brilhar. Situa-se no meio-termo, no juste milieu; nem tão calado que passe por desdenhoso, nem tão assanhado que dê a impressão de se exibir. Nem tão omisso que pareça burro, nem tão inteligente que faça ressaltar, nos outros, a evidência da própria burrice, cuidadosamente dissimulada. Procure mostrar-se agradável, interessante, espirituoso, mas com moderação; não convém dar aos demais a sensação de que são cacetes, insípidos e sem graça.

Quanto à erudição, o que dê para o gasto; e por gasto se entenda a parcimônia de duas ou três citações pertinentes, displicentemente lançadas no momento propício. Não importa que sejam erradas; basta que sejam oportunas, dependendo a oportunidade da maior ou menor disposição do auditório em se manter na condição de auditório, o que em geral não acontece; pois todos são filhos de Deus e não há quem não tenha pelo menos uma anedota engatilhada, a propósito de tudo, ou sem propósito nenhum…

Não são conselhos que estou dando, por me faltar, obviamente, autoridade para tanto; sei muito bem que não sou um bom causeur. São observações que venho fazendo através de uma existência já longa, em que vi muita gente falar – mas pouquíssima realmente conversar.

28 de julho de 1964

* Luís Martins publicou romances, mas é mais comumente reconhecido como um dos mais significativos cronistas do país. Escreveu para jornais do Rio e depois de São Paulo. Foi casado primeiro com a pintora Tarsila do Amaral e depois com a escritora Anna Maria Martins – sua filha, a também escritora Ana Luisa Martins, acaba de assinar a seleção e o prefácio do livro Melhores Crônicas – Luís Martins, lançamento da Global Editora.

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