O que aprendi sobre fragilidade e ser mulher ao ler Marina Colasanti

A rua ainda não é inteiramente nossa, mas a palavra é

Por Naiara Albuquerque

Acordei com medo esta noite. De madrugada, um sobressalto acelerado estremeceu meu corpo e me acordou. Andei sonâmbula até a cozinha e enchi a garrafa seca de água. Um sentimento de não-lugar. Depois, fui buscar, entre as muitas fotografias soltas, uma das poucas lembranças que tenho da minha vó. Vó Ana, como gostava de ser chamada. (…)

A história que conto aqui é sobre e para mulheres. E sobre como nossas narrativas femininas formam muitas outras. É também sobre minha vó, e o medo que ela tinha de falar – sobre qualquer coisa, inclusive sobre si mesma.

Viver em uma cidade tão grande como São Paulo nos dias de hoje pode ser tão solitário quanto no século passado. Ao menos foi a impressão que tive ao ler o livro “Eu Sozinha“, de Marina Colasanti. Ela morou sozinha no Rio de Janeiro e trabalhou como redatora e cronista no Caderno B no Jornal do Brasil. Colasanti desenvolveu, aos poucos, um olhar ímpar para o cotidiano – em seu livro (spoiler) ela trata sobre o seu próprio tempo.

No trecho que separei logo abaixo, é possível ter uma dimensão:

Nada se esconde debaixo do lençol embolado. O travesseiro guardou a marca da minha cabeça. A roupa dorme sobre a cadeira. Sei que volto, mas não há outro alternativa, e busco, na entrega voluntária, um ato de coragem. Acordarei outras vezes durante a noite, sem noção de tempo. E, cada vez da mesma maneira, irei à cozinha beber água, trégua justa e merecida nesta longa batalha, pausa que me obriga a tomar conhecimento daquilo que escondo no fundo da consciência.

Trecho do capítulo 20

O livro de Colasanti me remexeu. Me fez lembrar de muitas coisas. E pensar nessa escritora, pra mim, tem uma relação muito especial. Me faz lembrar das mulheres fortes que tive e tenho em minha vida.

Conheci Colasanti da forma mais clichê possível: dei play no vídeo de Abujamra, que declama um de seus textos mais conhecidos: A gente se acostuma mas não devia. Um ano atrás, tive a chance de entrevistá-la para um trabalho jornalístico que desenvolvi. E guardo, com carinho, a dedicatória que ela fez em seu livro.

Falar sobre ser mulher e solidão, hoje, passa por muitas questões. Duas delas que consigo pensar é sobre direito, mas também sobre ameaça. Direito que mulheres, muito antes de mim alcançaram. Direito de votar, de viver; e também a ameaça de tentar viver esse direito: andar pela rua com medo de ser estuprada; o racismo que as mulheres negras passam diariamente; o preconceito que nós mulheres LGBT enfrentamos cotidianamente. Ser mulher é luta, e no passado ou presente, não deixa de ser. Mas também é acreditar que não andamos mais só; já que antes de mim e de nós outra veio antes. É aquela ciranda:

“Companheira me ajuda
Que eu não posso andar só,
Eu sozinha ando bem
Mas com você ando melhor”

Coletividade feminina:
Ilustrações de Naomi Mariko

domingo longo, sem sol, as horas se esgotam lentamente, sem alterar a luz, e eu, fechada neste apartamento, me sinto perdida no tempo.

Página 32

Nós, mulheres, conquistamos muitos espaços ao longo do tempo. Além do direito de existir, o de viver e de estudar. Mas é importante ressaltar que não é em todo lugar que mulheres vivem assim. É necessário continuar enfrentando o sentimento de não-lugar e de não-pertencimento. A rua ainda não é inteiramente nossa, mas a palavra é.

Olympe de Gouges, Dandara, Maria da Penha, Dona Ivone Lara, Marielle Franco, minha vó Ana e tantas outras vivem!


Conheça algumas obras de Marina Colasanti:

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