O mais profundo pensamento da esquina

Sabe o que é uma tese? Rubem Braga explica… não, não explica. Ele mostra. E mostrando a gente sabe mais o que é uma coisa do que lendo uma tese sobre o que é uma tese. Entende? Essa, esmiuçando a Economia com E maiúsculo, até se pode aplicar ao momento do Brasil, nesse maio de 2018, com greve de caminhoneiros, combustíveis custando caro e tudo mais.

A empregada se lamentava das filas para comprar carne, do preço da carne. Para lhe dizer alguma coisa, eu disse que é isso mesmo, está havendo uma crise de carne, o governo está discutindo com os criadores, e há também os frigoríficos, e os marchantes, e os açougueiros, é uma questão de política econômica…

– Que nada, meu senhor. Não há falta de carne não, isso aí anda tudo cheio de carne, e o interior está cheio de boi, de vaca, de bezerro, de tudo. No Brasil tem muita fartura. O que estraga o Brasil é a esganação!

O que é uma tese. 

O texto está na página 169 da novíssima edição do livro Recado de Primavera, de Rubem Braga (Global Editora). Esses pequenos causos, ou pequeníssimas crônicas, se espalham pelo livro, entre outras, do mais importante cronista brasileiro em todos os tempos. Aliás, “o inventor da crônica”, disseram, entre outros fãs, a escritora Clarice Lispector e o poeta e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna.

Recado de Primavera foi publicado pela primeira vez na década de 80. É um dos mais fortes exemplos compilados da força desse escritor, que alcançou o mais alto grau de importância literária escrevendo, despretensiosamente, sobre coisas pequenas do dia a dia ou sobre grandes coisas como se fossem do dia a dia.

Nesse livro está uma de seus mais conhecidos textos, em homenagem a Vinícius de Moraes, depois da morte do poeta: “Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta primavera – acho que você aprovaria.”

O jeitão da Esperança na Guerra

Onde nomeio um prefeito é uma das preciosidades dessa coletânea. A crônica é uma lembrança de sua cobertura como repórter da participação brasileira no fim da Segunda Guerra Mundial, cobrindo a Força Expedicionária Brasileira na Itália, contra o que restava do exército nazista no país. Sem escrever a palavra esperança, ele revela naquele contexto um de seus mais profundos significados, pelas reações dos italianos de pequenas cidades e povoados, ao perceberem que ali estavam representantes da libertação.

Alguns liam escrito nas mangas de seus uniformes a palavra Brasil, sem saber bem onde ficava. Uma moça tem um irmão que mora na Austrália, e pergunta se é muito longe. Braga responde, comovido: vicino, vicino (perto). Sem armas, a não ser suas canetas e blocos de papel, os jornalistas (entre eles, Braga) eram saudados como comandantes Aliados. E com esse “poder”, nomearam até um prefeito provisório.


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