Semana para lembrar de Cora Coralina

Uma notícia com destaque nos jornais goianos em abril de 1985 dizia que Ana Brêtas havia morrido e se fazia eterna a poeta Cora Coralina.

Uma das mais importantes autoras publicadas pela Global Editora, ao lado de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Rubem Braga, Bartolomeu Campos de Queirós, entre outros grandes nomes da Literatura brasileira, Cora Coralina tem um texto ao mesmo tempo acessível e profundamente autêntico, dando voz – como é uma das principais características da grande poesia – a pessoas e situações que costumam habitar as sombras das atenções públicas. Neste vídeo, o escritor goiano André de Leones apresenta aspectos da Poesia de Cora Coralina.

Antes da era da internet, os jornais eram os principais veículos de informação para quase tudo, inclusive para a Literatura. E nesse cenário tinha muito destaque o Caderno B do Jornal do Brasil. As edições antigas do jornal (que depois de ter parado de rodar voltou recentemente a ganhar versão em papel) podem ser pesquisadas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Foi lá que encontramos uma entrevista de Cora, assinada pela jornalista Cristiane Samarco, e publicada em 22 de dezembro de 1981. Era uma celebração pelos 93 anos da poeta. Entre as declarações de Cora, estas têm destaque, por mostrarem a autenticidade dessa mulher cuje vida e obra celebramos sem cansar:

Sobre seu olhar para o mundo:

A poesia está na vida, e não fora dela. E o que representa maior fonte de vida do que um monte de lixo, uma lixeira? Ali são milhões de vidas transformando toda aquela matéria orgânica e repulsiva em novas fontes de vida. O que é o lixo? É tudo o que é rejeitado pelas casas e pela própria cidade. É o espólio, o mínimo, mas valioso. Todo lixo veio da terra, foi aproveitado, espremido, sugado, retando apenas aquele bagaço, aquela bagaceira inútil, indesejável e que, todos os dias, através de varreduras, a cidade, pelos seus caminhões de coleta, leva-o e para onde? Então, eu vejo no lixo uma fonte de vida que ele contém, dos milhões de vidas que estão ali, fermentando, operando a transformação da matéria. E este matéria transformada deve ser de novo incorporada à terra para revigorá-la, enriquecê-la, levá-la a produzir seja uma flor, seja um legume, seja uma fruta ou seja, simplesmente, uma haste com suas raízes, tronco e folhas. E, por isso, eu canto e descanto o lixo; porque vejo e sinto além do lixo.

Sobre os poemas:

Não houve de minha parte nenhuma despreocupação e nenhum desligamento no que se relaciona à métrica e às rimas, mas uma impossibilidade psicológica e até biológica de me enquadrar. Eu bem que tentei, mas nada consegui, nem sequer armar uma quadra. E na impossibilidade de ser uma poetisa como eu desejava, vaidosamente, passei a escrever em prosa, e já se dizia, naquele tempo, que eu escrevia poesia em prosa. Mas só me achei totalmente liberada para escrever meus poemas depois que a poesia liberou-se do rigor da métrica.

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