A História e o livro – A pesca, de Affonso Romano de Sant’Anna

Um poema publicado na página das cartas para o Jornal do Brasil, em 23 de maio de 1959, pegou-se à História como um dos mais significativos de sua época até hoje. A pesca, de Affonso Romano de Sant’Anna, em suas dez estrofes, com três versos em cada, marcadamente curtos, não esconde o jogo no título: é mesmo sobre o ato de pescar. Mas a pescaria tem, em si, suas metáforas embutidas, que no poema são elevadas à máxima potência, pela concisão, pela tensão entre as palavras escolhidas, as imagens que criam ora ação, ora contemplação, além da aliteração e da rima criando um ritmo intenso.

A pesca no Jornal do Brasil, em 23 de maio de 1959

O ANIL
O ANZOL
O AZUL

O SILÊNCIO
O TEMPO
O PEIXE

A AGULHA
VERTICAL
MERGULHA

Na edição da Global Editora, A pesca ganhou letras maiúsculas e as ilustrações de Lúcia Hiratsuka, em gestos da técnica japonesa sumiê, expandindo o alcance também para jovens e crianças e mantendo o encanto para os leitores adultos.

Detalhes da capa

Vanguarda, esperança e confusão

O poeta mineiro tinha 22 anos de idade e cursava Letras no que hoje é a Universidade Federal de Minas Gerais. “Fiz o poema baseado no JB (Jornal do Brasil): era um tempo de vanguardas… e achei que podia fazer algo.”

O Concretismo agitava as artes no Brasil, pelas ideias dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, além de Décio Pignatari e outros poetas. Na capital do país, ainda o Rio de Janeiro, porque Brasília só seria inaugurada no ano seguinte, em 21 de abril de 1960, os tempos eram marcados pela esperança, certa euforia até: a Seleção Brasileira de futebol, campeã do mundo em 1958 com Garrincha e Pelé, a economia pulsante do governo Juscelino Kubitschek, a bossa nova nos dedos de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moares – o Brasil parecia, para uma parte da população ao menos, a melhor e mais criativa nação do mundo. Mas nem tudo era festa. E aquela edição do Jornal do Brasil trazia na capa uma baita confusão: o episódio que ficou conhecido como Revolta das Barcas.

Não havia a ponte Rio-Niterói. A travessia entre as cidades era feita por balsas, um serviço realizado por uma empresa privada, o Grupo Carreteiro. O mau funcionamento da travessia e as acusações de que os proprietários pressionavam o governo Juscelino para conseguir mais dinheiro, forjando alegações de prejuízo, provocaram um protesto no dia 22 de maio. O Exército reagiu contra as pessoas revoltadas, que incendiaram barcas e depois atacaram outros locais do Grupo Carreteiro, inclusive a residência dos donos.

Essa edição pode ser encontrada graças ao arquivo digital e democraticamente aberto da hemeroteca da Biblioteca Nacional, aliás, órgão que foi por muitos anos dirigido pelo próprio Affonso Romano de Sant’Anna.

 

“Suplemento Literário” e o caminho do poema

O “Suplemento Literário” do Jornal do Brasil, nessa mesma edição, trazia um poema de João Cabral de Mello Neto na capa. E bem ao lado da página onde saiu A pesca trazia uma crítica de arte assinada por Ferreira Gullar.

Suplemento literário do Jornal do Brasil

Affonso Romano depois apresentou esse poema tanto no Encontro de Culturas Populares, no Recife, quanto na Semana Nacional de Vanguarda, que organizou em Belo Horizonte. Sua consagração como poeta, em livros de muitos anos depois, como A grande fala do índio guarani, Que país é este? ou Textamentos, não deixou para trás  a força de A pesca.

ABERTA A ÁGUA
ABERTA A CHAGA
ABERTO O ANZOL

AQUELÍNEO
ÁGIL-CLARO
ESTABANADO

O PEIXE
A AREIA
O SOL.

Curiosidades

Nessa edição do Jornal do Brasil, de 23 de maio de 1959, há algumas curiosidades sobre a época. Por exemplo, na seção de classificados, que engordava consideravelmente o jornal aos fins de semana. Alguém procurava ali comprador para um carro da marca Jaguar, ano 1951, por 180 mil cruzeiros. Enquanto uma máquina de escrever Olivetti custava 12 mil cruzeiros, e o próprio jornal custava cinco cruzeiros. O colunista Célio de Barros comentava em sua coluna a decisão do técnico Vicente Feola de substituir Garrincha por Julinho num jogo da Seleção Brasileira, havia grande destaque para o anúncio da candidatura do Marechal Lott à presidência e um título dizia que Fidel Castro, então primeiro-ministro de Cuba, não acreditava em sanções econômicas partidas dos Estados Unidos. Parece que, de tudo que foi publicado, mais longeva e firme foi mesmo a poesia.

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