Thiago de Mello, 91

Os 90 anos do poeta Thiago de Mello foram muito comemorados, com eventos e homenagens pelo país, além do lançamento de seu último livro, Acerto de contas (Global Editora). No dia 30, esse tesouro vivo da Amazônia e da humanidade completa 91 anos. A homenagem parece ser para ele, mas, publicando poemas seus, que estão no livro Melhores Poemas – Thiago de Mello (Global Editora),  torna-se uma homenagem a todos nós, à vida.

MADRUGADA CAMPONESA

Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

***

AS ESTRANHEZAS HUMANAS
A OTTO LARA RESENDE

Não quero mais o motivo
das coisas, nem mais cobiço
as verdades que se escondem,
avaras, no âmago límpido
das estranhezas humanas.
Foi-se-me a fome de nuvens,
foi no escuro, antes da aurora.

Trava-me o gosto da vida,
de tão pesada, esta absurda
precisão que tem meu ser
de ser sempre inteiramente,
sempre intensamente: em tudo.
Sobretudo no saber.
Contudo, jamais alcanço
sequer a fímbria da sombra
do saber que em vão persigo.

Não quero mais os motivos.
As coisas que me sucedam
a seu gosto: em meu desgosto
hei de fronteá-las. O mundo
que avance conforme a lei
(se é que mistério tem lei)
que rege e gera as razões
com que engana, cauteloso,
a todos que lhe moramos.
As mágoas que me chegarem
– e também as desventuras,
desalentos, solidões –
não lhes irei mais às causas
(as ganas já me murcharam
de ir aos côncavos, aos bojos):
simplesmente as sofrerei
– como quem sofre, fazendo
de conta que está fingindo.
Assim vai ser. Não me quero
nem a própria explicação.
Capenga me siga o ser,
tonto me avance o vagar,
a cada passo pungindo
fundo em mim.

Pode pungir:
além não vou (sempre, ou só
agora e aqui?) da certeza
que as coisas trazem na cara
e nas mãos, quando sucedem.
O que escondido restar,
que reste.
Já me cansei
de mergulhos
– sempre vãos,
sofridos sempre –
em funduras
onde peixes lisos, frios
e invisíveis, acalantam
com ferrões feitos de nada
o desencanto da vida.
Assim me sonho. Entrementes,
me transpareço e me aceito:
– não tenho jeito, a não ser
o jeito de ser sem jeito.

***

AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

 

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