Poetas de maio na coleção Melhores Poemas

A pequena lista de homenagens de maio demonstra, ao mesmo tempo, a grandeza dessa coleção Melhores Poemas: o mineiro Murilo Mendes, o maranhense Raimundo Correia, o paulista Alberto da Costa e Silva e o português Mário de Sá-Carneiro.

 Quem

Quem um dia dançou os pés de outro?
Todos os que dançam, todos
Apenas dançam os próprios pés.
Quem pensa na imortalidade do outro
E durante seu próprio sonho
Sonha com o sonho do outro?
Quem, no nascimento do menino humilde,
Pede sua coroação pelos reis?
Quem manda violetas ao pobre encarcerado?
Quem se sente poeta pelo que o não é?

Murilo Mendes nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, dia 13 de maio de 1901.

“Poeta ‘diferente’ nos dias da sua estreia, católico, surrealista, barroco, metafísico, visionário, insubmisso, Murilo Mendes é recuperado hoje pela crítica brasileira como um dos seus autores mais significativos, uma das vozes mais inovadoras e, por isso mesmo, mais essenciais da lírica modernista” – na apresentação de Luciana Stegagno Picchio.

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Mal secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correia nasceu em São Luís, Maranhão, dia 13 de maio de 1859.

“Considerado por Manuel Bandeira como um ‘dos maiores artistas do verso em nossa língua’, Raimundo Correia o demonstrará em Sinfonias, seu segundo livro” – na apresentação de Telenia Hill.

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Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Pra atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minha’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor de ser quase, dor sem-fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

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Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Pra atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

                                   Paris, 13 de maio de 1913

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, Portugal, dia 19 de maio de 1890.

“A leitura dos poemas de Mário de Sá-Carneiro comunica a experiência do êxtase própria das viagens alucinatórias; contagiando o leitor com sua atmosfera de embriaguez e visões sensoriais, a partir da expansão da consciência provocada por alterações da mente na busca de novos modos de sentir” – na apresentação de Lucila Nogueira Rodrigues.

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Breve solilóquio no jardim das tulherias

O que quer este menino a andar de bicicleta,
senão lembrar-me do que fui? Senão, tonto de
riso,
entre pombos e pardais no chão ensolarado,
fingir-me?

Não aceito o ter sido. Nem me quero menor
no coração que guardou o assombro e a fábula
de tudo o que viveu como um sonho escondido.

Os dias me cobraram o que era infinito.
E, se agora persigo o pedalar do menino,
é porque sei que sou o final do seu riso.

Alberto da Costa e Silva nasceu São Paulo, dia 12 de maio de 1931.

“José Paulo Paes aponta ainda o essencial sobre os seus temas primordiais: ‘A preocupação da morte, as mais das vezes centrada no sentimento da perda do pai; a nostalgia da infância, vinculada de perto ao tema anterior pela circunstância de que, para o poeta, ‘a morte retorna as cousas da infância tangível’” – na apresentação de André Seffrin.

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