Poetas de abril na coleção Melhores Poemas

Celebramos aqui, com um poema de cada, os poetas nascidos no mês de abril, publicados na coleção Melhores Poemas da Global Editora: Vicente de Carvalho, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Augusto dos Anjos, Luiz de Miranda, Alberto de Oliveira, Augusto Frederico Schmidt e Antero de Quental. Embaixo de cada poema, um trecho das apresentações feitas pelos escritores e estudiosos que fazem a seleção das obras. Em si, é uma antologia que dá uma ideia do quão relevante é esse conjunto de publicações, um caso de sucesso no mercado editorial brasileiro.

 Velho tema

I

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Vicente de Carvalho nasceu em Santos, São Paulo, dia 5 de abril de 1866.

“Não pertencendo a uma determinada escola e não tendo escrito manifestos, profissões de fé ou artes poéticas, Vicente de Carvalho consegue, no entanto, ser admirado até hoje graças à natural fluência de seus emotivos poemas” – na apresentação de Cláudio Murilo Leal.

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Nunca mais seremos os mesmos CII

A sabedoria conhece o mundo,
mas nada tem a ver com a poesia.
As hélices do tempo se movem
com a loucura verbal do poema,
o tempo imortal é o tema
que funda palavras na eternidade.
A felicidade ergue seus voos,
e escrevemos o que dela se avista,
a dor da fome é fúria limpa
e no final do verso se declara.
Os humildes, os pobres e os humilhados
escrevem por mim vida afora.
É ave muito, muito clara,
a marcar nos relógios
a sentença dos minutos.
O poeta nomeia as coisas
e ordena o mundo.
Este é meu ofício,
seu vício diário
e instransferível.

Luiz de Miranda nasceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, dia 6 de abril de 1945.

“Afirmar o próprio eu e, a partir desse ponto, construir a poesia são as marcas da poesia de Luiz de Miranda. A identidade pessoal é o ponto de partida de uma obra fortemente subjetiva, facultando ao sujeito dizer de si mesmo: ‘Sou o louco, o deserdado, o gaudério’, como procede em Cantos de Sesmaria.” – na apresentação de Regina Zilberman.

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Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta.
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
– Velho caixão a carregar destroços –

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos nasceu no engenho do Pau D’Arco, hoje Cruz do Espírito Santo, na Paraíba, dia 20 de abril de 1884.

“Raríssima vezes detém-se ele, como o comum dos homens, na aparência das coisas. Prefere antes penetrar-lhe microscopicamente as entranhas para discernir as células ou átomos de que são feitas – ou, mais fundo ainda, os ‘intramoleculares sóis acesos’ que o seu subconsciente entrevê em ‘Numa Forja’ –, quando não ultrapassá-las telescopicamente para abarcar com a sua mirada o cosmo, o universo inteiro.” – na apresentação de José Paulo Paes.

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Evolução

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo…

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, Açores, Portugal, dia 18 de abril de 1842.

“Conjuga-se assim o poeta e o cidadão. Da poesia para a intervenção social foi o sentido da luta de Antero de Quental contra uma universidade livresca, retrógrada, que precisaria ser reformada em favor de um Portugal moderno, europeizado, sem morgadios e frades ociosos.” – na apresentação de Benjamin Abdalla Junior.

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Vazio

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo –
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo –
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

Augusto Frederico Schmidt nasceu no Rio de Janeiro, dia 18 de abril de 1906.

“Nele teria ocorrido um milagre: as imperfeições não abalam, antes valorizam, a qualidade estética da obra, que assim ganha ares de um autêntico conjunto barroco. De outra parte, as ressalvas nunca destruíram a convicção, também formada desde o princípio, de que Schmidt havia se tornado um mestre” – na apresentação de Ivan Marques.

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Canção do vento e da minha vida

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas…

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades…
O vento varria as mulheres.

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

Manuel Bandeira nasceu no Recife, dia 19 de abril de 1886.

“Toda a vida de Manuel Bandeira está como que refletida na sua poesia. Talvez, não exista, na literatura da língua portuguesa, exemplo maior de transposição para o plano artístico de uma experiência pessoal, com a mesma consistência e igual intensidade, desde o primeiro poema e o derradeiro verso de Estrela da vida inteira” – na apresentação de Francisco de Assis Barbosa.

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Adeus, poesia

Senhor Jesus, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o mando mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.
Quero leveza no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.
Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.
Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam – me dai Vossa mão.

Jorge de Lima nasceu em União dos Palmares, dia 23 de abril de 1893.

“O conflito entre o homem religioso e o médico positivista se resolvia na poesia: a Arte era a saída da dialética cultural em que se encontrava. Mas a concepção de arte de seu tempo inclinava-se para o sentido científico da Estética, de modo que Religião e Arte passaram também a oferecer conflito ao poeta. Era preciso uma superação do problema. A saída foi levar a Religião à Poesia, isto é, ao poema” – na apresentação de Gilberto Mendonça Teles.

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Almas sofredoras

 I

A fumaça da fábrica 

Em escuro pendão, da fábrica a fumaça
Sobe, e fala, talvez, ondeando no ar vazio:
– “Belo é o trabalho, mas a recompensa é escassa
E escasso é o pão, o lar é pobre, e há fome, e há frio…

Destes malhos brutais mesclado aos ecos passa
Um gemido de dor; a cada rodopio
De polés ou moitões uma queixa de enlaça,
E uma súplica aos céus, dali partida, envio.

O fogo de onde vim, aí dentro, em cada rosto
Ressalta amargo transe, alumia um desgosto…
Com que vagar, porém, hoje me aprumo e elevo!

Estranho mal-estar, como um torpor, me invade…
Deve ser deste ar frio o peso da umidade,
Da umidade… se não das lágrimas que levo.”

 Alberto de Oliveira nasceu em Palmital de Saquarema, Rio de Janeiro, dia 28 de abril de 1857.

“Dos poetas que se incluem no Parnasianismo brasileiro, três logo se destacaram dos demais, a ponto de chegarem involuntariamente a formar uma ‘trindade’: Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.” – na apresentação de Sânzio de Azevedo.

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