A nossa pitangueira e as de Rubem Braga

Rubem Braga habita o casarão-sede da Global Editora, mas não chegou a conhecê-lo assim, como hoje, restaurado como um dos símbolos da cidade de São Paulo, obra e residência que foi de Ramos de Azevedo. O maior dos cronistas brasileiros talvez tivesse dado atenção à construção, mas certamente teria ficado deslumbrado com o jardim. Braga adorava árvores frutíferas e pássaros. Sua própria cobertura em Ipanema dizia isso, sem palavras – até um coqueiro está lá de pé até hoje, apesar dos castigos do vento sul no Rio. Mas Rubem Braga precisava era chegar agora aqui. Dar de cara, como todos que trabalham na Global, com a esbelta pitangueira que desde sempre tem seu crachá da editora. Chega ao primeiro andar do casarão, pegada à parede, como em copas sobrepostas ou vestido de festa. Quando chega o calor da primavera oferece refresco de sombra e pitanga. Os galhos mais altos frutificam primeiro, depois os mais baixos, os que se podem alcançar com os braços. Ela própria uma festa. Em homenagem ao encontro que o tempo não permitiu acontecer, oferecemos a crônica Pitangueiras, que está no livro lançado esse ano pela Global Editora, Dois pinheiros e o mar e outras crônicas sobre meio ambiente, com textos de Rubem Braga que ainda não haviam sido publicados em livro.

Pitangueiras

Rubem Braga

A conversa foi sobre pitangas; a senhora disse que se lembra muito quando era menina apanhava pitangas e Copacabana; depois, já moça, colhia pitangas na Barra da Tijuca; e hoje não há mais pitangas. Disse isso com uma certa animação, e depois ficou um instante levemente triste – a melancolia de não ter mais pitangas ou, quem sabe, a saudade da meninice ou de alguma remota manhã em que passeou com seu namorado entre pitangueiras de praia.

Também em minha infância há pitangueiras de praia. Eram poucas, mas crescidas muito perto umas das outras, suas folhas se tocavam e faziam uma sombra suave no verão. Lembro-me do amarelo e do rubro vivo das pitangas entre o verde das folhas miúdas, e também da sombra na areia branca, uma sombra varada por pequenos pontos de sol. O que foi dito em um soneto lido na adolescência (acho que o soneto era de B. Lopes) onde “o sol bordava a pino, sobre a areia, um crivo de ouro num cendal de prata”, o que é um tanto precioso mas é lindo, mesmo a gente não sabendo o que é cendal. Nesse soneto havia um bando alegre de gente moça – esqueci as palavras, mas me lembro que as moças colhiam pitangas e os rapazes namoradas.

São lembranças vãs. Que fazer a respeito? Bem, eu poderia sugerir ao prefeito Francisco Negrão de Lima que determinasse, no caso de proceder à reforma de alguma praça ou jardim da Zona Sul, que se reserve um pequeno trecho para a antiga vegetação, uma espécie de homenagem póstuma às árvores amigas que o cimento expulsou: pitangueiras, cajueiros… Receio muito que essa ideia seja acoimada de tola – oh, sugerir pitangueiras quando o Rio precisa de água, transportes, há menores abandonados, assaltantes mil, favelas – e o senhor Braga a pedir pitangueiras!

Está bem; retiro, senhor prefeito, o pedido das pitangueiras. No fundo não merecemos mais pitangueiras; pitangueiras evocam não sei quê de lírica pureza, bobagem de infância, casto namoro antigo. Não merecemos. Talvez devêssemos falar: isso foi há muito tempo, no tempo das pitangueiras… E os mais novos nos olharão com estranheza, porque eles nem sabem nem sonham sequer que houve um tempo das pitangueiras.

16 de janeiro de 1957

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