Lima Barreto, cada vez mais presente

Um homem de seu tempo, sem dúvida, mas para hoje e no futuro também. A gente lê as crônicas de Lima Barreto e facilmente encaixa o que ele diz no que estamos vivendo, observando neste exato momento: quando ele manda seus “recados” aos governantes, quando critica costumes da sociedade, passando pelo racismo, pela violência contra as mulheres. A literatura, não raramente, explica a História, em menos linhas e mais impacto, como já reconheceram historiadores como Carlo Ginzburg.

Como jornalista, Lima Barreto fez reportagens importantes, como a série sobre o Morro do Castelo, mas acabou fora das redações dos grandes jornais porque revelou, digamos assim, os podres do jornalismo, em seu romance Recordações do escrivão Isaías Caminha. A vingança não o impediu de incomodar políticos e outros poderosos ruins em jornais menores. Muito menos barrou sua literatura, hoje reconhecida como fundamental. O escritor será homenageado na Flip de 2017.

A Global Editora publica os principais textos de Lima Barreto nas coleções Melhores Contos e Melhores Crônicas, de onde sai o trecho de “Maio” (abaixo), crônica em que compartilha memórias de sua infância, testemunha da euforia geral com a Lei Áurea, transformada em frustração e sofrimento ao seu olhar crítico, já nas duas primeiras décadas do século XX (e de muitas formas, até hoje).

Maio

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice.

Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço.

Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo.

Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio.

Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas…

Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia.

Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… Houve o barulho de bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões, alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos, assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de tarde, ao anoitecer.

Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apiedado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira.

Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.

Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão.

Quando fui para o colégio, um colégio público, à Rua do Resende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado.

A professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito, creio que nos explicou a significação da cousa; mas com aquele feitio mental de criança, só uma cousa me ficou: livre! livre!

Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia.

Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: “Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres?”

Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!

[…]

A crônica completa é parte do livro Melhores Crônicas – Lima Barreto (Global Editora), com seleção e prefácio de Beatriz Resende.

***

Compre aqui:

Livraria Cultura: https://goo.gl/vxCwKC
Livraria da Travessa: https://goo.gl/b11oym
Amazon: https://goo.gl/3gddRo
Martins Fontes: https://goo.gl/x3LvjZ
Cia dos Livros: https://goo.gl/I4BJaP

*

 

Compre aqui:

Livraria da Travessa: https://goo.gl/aqDUhg
Amazon: https://goo.gl/lZp3Ta
Cia dos Livros: https://goo.gl/oQNBoQ

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked. *