Dez grandes autoras

O que significa escrever como uma mulher? O que significa escrever como um homem? Os pontos de vista sobre a vida e o mundo podem ser tão diferentes? Não estamos aqui propondo respostas, mas caminhos para que os leitores explorem por si e colecionem pensamentos e impressões. O catálogo da Global Editora tem algumas das mais significativas autoras do Brasil em todos os tempos. Conheça, ou, se já as conhece bem, curta a viagem:

1. Cecília Meireles

Sereia
(do livro Viagem)

Linda é a mulher e o seu canto
ambos guardados no luar.
Seus olhos doces de pranto
– quem os pudera enxugar
devagarinho com a boca,
ai!
com a boca, devagarinho…

Na sua voz transparente
giram sonhos de cristal.
Nem ar nem onda corrente
possuem suspiro igual,
nem os búzios nem as violas,
ai!
nem as violas nem os búzios…

Tudo pudesse a beleza,
e, de encoberto país,
viria alguém, com certeza,
para fazê-la feliz,
contemplando-lhe alma e corpo,
ai!
alma e corpo contemplando-lhe…

Mas o mundo está dormindo
em travesseiros de luar.
A mulher do canto lindo
ajuda o mundo a sonhar,
com o canto que a vai matando,
ai!
E morrerá de cantar.

Cecília é uma das poetas mais influentes do Brasil em todos os tempos, ao lado de Drummond, Bandeira, João Cabral e Vinicius de Moraes. Quando não é citada nesse time, é por descuido, no mínimo. Além da obra poética, foi cronista e educadora. Cecília montou na década de 1930 a primeira biblioteca infantil do país, considerada ousada para a época. Atualmente tem toda sua obra sendo publicada pela Global Editora.

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2. Marina Colasanti

São os cabelos das mulheres / trecho
(do livro 23 histórias de um viajante)

Naquela aldeia de montanha perdida entre neblinas, a chuva havia começado há mais tempo do que era possível lembrar. Só água vinha do céu, em fios tão cerrados que as nuvens pareciam cerzidas ao chão. As plantações haviam-se transformado em charcos, as roupas já não secavam junto aos fogos fumacentos, e pouco ou nada restava para comer.

Reuniram-se os velhos sábios em busca de uma resposta, e longamente deliberaram estudando as antigas tradições.

– São os cabelos das mulheres – disseram por fim. E obedecendo aos pergaminhos, ordenaram que fossem cortados.

Na praça da aldeia, desfeitas tranças e coques, soltos todos os grampos, os longos fios que chegavam à cintura foram decepados rente à raiz, e entregues à chuva. Todos os viram descer na correnteza, ondulantes e negros. Todos se encheram de esperança, enquanto as mulheres abaixavam a cabeça deixando a água escorrer em filetes sobre a pele nua.

De fato, pouco demorou para que as nuvens levassem sua carga em direção ao vale, desfazendo-se ao longe. E o sol acendeu-se num céu tão enxuto e limpo que parecia novo.

Aquecia-se ao sol a antiga umidade guardada entre pedras e grotas. Vindas daquele calor, talvez, daqueles vapores abafados no escuro silêncio, longas serpentes negras começaram a deslizar para a luz.

Os homens só se deram conta da temível presença quando os campos abaixo da aldeia já estavam invadidos. Com asco e horror as encontravam de repente enroscadas no cabo de uma enxada, no fundo de um cesto, ou brilhando entre os sulcos. Eram tantas. De nada adiantava caçá-las; cortadas ao meio ou degoladas por facão ou foice multiplicavam-se, cada parte adquirindo vida própria e afastando-se como se recém-saída do ovo.

Quase não lhes bastassem os campos, começaram a deslizar em direção à aldeia. Em breve bastou afastar um móvel, abrir um armário, para encontrar uma serpente enovelada. Qualquer cobertor, qualquer travesseiro, qualquer manta ou almofada podia ser seu ninho. E entre as achas de lenha, entre as talhas de azeite, entre os gravetos e as cinzas do fogão, entre os grãos nas despensas, por toda parte e em todo canto cobras ondulavam suas espirais.

– São os cabelos das mulheres! – exclamaram afinal os aldeões, sem necessidade de reunir os sábios.

E as mulheres riram, escondendo o rosto nos lenços e nos xales com que cobriam suas cabeças.

– Acabem com isso! – ordenaram-lhes os sábios. E não se referiram ao riso, mas às serpentes. E com voz que não admitia réplica, repetiram – Acabem com isso, mulheres! […]

Marina Colasanti é escritora desde a década de 1960 e segue escrevendo e publicando. Seus gêneros de excelência são a poesia, o miniconto, a crônica e os contos de fada – principalmente por causa deles, que têm alta carga metafórica e de questões contemporâneas (como esse trecho que reproduzimos acima), vem sendo indicada para o prêmio Hans Christian Andersen.

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3. Lygia Fagundes Telles

Pomba enamorada ou uma história de amor / trecho
(do livro Melhores Contos Lygia Fagundes Telles)

Encontrou-o pela primeira vez quando foi coroada princesa no Baile da Primavera e assim que o coração deu aquele tranco e o olho ficou cheio d’água pensou: acho que vou amar ele pra sempre. Ao ser tirada teve uma tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. Sorriso meio de lado, para esconder a falha do canino esquerdo que prometeu a si mesma arrumar no dentista do Rôni, o Doutor Élcio, isso se subisse de ajudante para cabeleireira. Ele disse apenas meia dúzia de palavras, tais como, Você é que devia ser a rainha porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra. Ao que ela respondeu que o namorado da rainha tinha comprado todos os votos, infelizmente não tinha namorado e mesmo que tivesse não ia adiantar nada porque só conseguia coisas a custo de muito sacrifício, era do signo de Capricórnio e os desse signo têm que lutar o dobro pra vencer. Não acredito nessas babaquices, ele disse, e pediu licença pra fumar lá fora, já estavam dançando o bis da Valsa dos Miosótis e estava quente pra danar. Ela deu a licença. Antes não desse, diria depois à rainha enquanto voltavam pra casa. Isso porque depois dessa licença não conseguiu mais botar os olhos nele, embora o procurasse por todo o salão e com tal empenho que o diretor do clube veio lhe perguntar o que tinha perdido. Meu namorado, ela disse rindo, quando ficava nervosa, ria sem motivo. Mas o Antenor é seu namorado?, estranhou o diretor apertando-a com força enquanto dançavam Nosotros. É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única, informou com ar distraído.

Lygia Fagundes Telles escreveu contos e romances em que o mergulho na realidade é tão fundo quanto longos são seus voos na invenção. Ela raramente narra uma situação de forma comum, ao contrário, a leitura de Lygia é um acúmulo de sustos, surpresas, admirações. A escritora paulistana ocupa a cadeira número 16 da Academia Brasileira de Letras e tem uma vasta coleção de prêmios por suas obras.

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4. Cora Coralina

Nunca estive cansada / trecho
(do livro Vintém de Cobre)

Fiz doces durante quatorze anos seguidos.
Ganhei o dinheiro necessário.
Tinha compromissos e não tinha recursos.
Fiz um nome bonito de doceira, minha glória maior.
Fiz amigos e fregueses. Escrevi livros e contei estórias.
Verdades e mentiras. Foi o melhor tempo da minha vida
Foi tão cheio e tão fértil que me fez esquecer a palavra
“estou cansada”.
Cansada talvez a lavadeira do rio Vermelho da minha cidade.                                                                                              Talvez a mulher da roça de São Paulo, nem mesmo ela.
Nunca ouvi da lavadeira a expressão “estou cansada”.
Sim, seu medo: faltar a freguesa e trouxa de roupa para lavar e passar
Suas constantes, quando na folga: “Graças a Deus!”
Seu dia começava com a aurora e continuava com a noite. […]

Cora Coralina nasceu na cidade de Goiás, hoje uma cidade histórica. Foi doceira, criou quatro filhos e escreveu contos e poemas. Lançou seu primeiro livro aos 75 anos de idade. E a partir de 1980, já aos 91 anos, ficou mais famosa por causa de um texto elogioso sobre sua obra, publicado por Carlos Drummond de Andrade no Jornal do Brasil. Sua obra é publicada atualmente pela Global Editora.


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5. Nélida Piñon

Tempo das frutas / trecho
(do livro Melhores Contos Nélida Piñon)

Teve nojo do seu cheiro como daquela velhice que era a aparência da morte. Esforçou-se em apreciá-la como se ainda pudesse conduzir a velha a seus anos iluminados. Mas já a sua pele enrugara-se igual terra mexida no uso, dissimulando sujeira nas suas trilhas mais secretas, através das quais perpetrou-se tanto crime, se acaso as seguíssemos haveríamos de descobrir.

Após a confissão da velha, escondendo espanto que era a trégua da raiva, iniciou-se entre elas a ferocidade do amor. Aquela verdade que ousava na sua invenção modificar o mundo, surgia na face de qualquer delas como uma expiação. A velha pôs-se a chorar. Ainda assim, a mulher não esticou a mão, para salvar ou mergulhar na penumbra o milagre que ali se operava, ao menos, preservar para as gerações vindouras a excepcionalidade da velha. Enquanto percebesse violentamente alterado o sistema de vida, recusava-se a prestar condolência a um corpo.

A velha pediu-lhe água como se exigisse remédio. A mulher deu-lhe água como se impusesse veneno. Atingida a gratidão, a amargura do reconhecimento, iam gradualmente inutilizando a delicadeza dos gestos fraternos. E apenas porque seu estado assim o exigia, a velha manifestou fome. Embora lhe devesse comida, para isto os restos na despensa, e no mundo as plantas crescendo, perturbava-a sustentar a fome daquela velha desprezível, ou colaborar com o que viesse a engordá-la. Envergonhou-se a velha, como se além da feiura também exibisse as coisas antigas que o tempo obriga o corpo a proteger. Nos seus pelos nenhum sopro restaurador o adornaria mesmo invisível, e jamais outra boca houvera por bem alimentar-se em suas células à procura do amor. Fugindo-lhe a transitoriedade do corpo, finalmente compreendia o seu estado.

A mulher percebia o perigo em que vivia para que o triunfo da velha não a envolvesse. Pois o que se agitava internamente na velha era o desaforo que levava ofendida para casa.

– E agora, o que é que a senhora vai fazer? – Viu-lhe o riso, as pernas que mal suportavam o convívio. Precisaria acumular um conhecimento de anos e de vida para hostilizá-la. – Porque a senhora bem sabe que tem setenta anos.

Nélida Piñon é carioca, filha de galegos e morou por dois anos na Galícia na infância. Essa ponte Brasil-Espanha é uma marca em sua trajetória. Jornalista, contista, romancista. Recebeu diversos prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais, destacando-se o Príncipe de Astúrias-Letras, tendo sido a primeira autora de língua portuguesa a conquistar essa premiação. Ocupa a cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras.


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6. Ana Maria Machado

Quem foi que fez? / trecho
(livro em parceria com a filha, Luisa Baeta)

Quem será que fez a árvore
e o vento que nela passa?
Foi também quem fez a praça?
Muitas vezes olho em volta
e gosto de perguntar:
foi gente ou não que fez isso?
É um jogo bom de jogar.
Ruas, praias, parques, casas,
paisagem sem igual.
Como saber na cidade
o que nela é natural?
Planta, como é que aparece?
Às vezes tem quem plantou.
Mas como é que ela cresce?
E a terra onde ela brotou? […]

Ana Maria Machado foi presidente da Academia Brasileira de Letras. Destaca-se pelos romances adultos, mas principalmente pelas obras juvenis e infantis. É, além de escritora, uma respeitada pensadora da literatura brasileira e, em 2000, recebeu o prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante para a literatura infantojuvenil no mundo.

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7. Rachel de Queiroz

O brasileiro perplexo / trecho
(do livro Melhores Crônicas Rachel de Queiroz)

Você me peça a Lua que eu te dou a Lua, meu bem; mas dez mil cruzeiros não pode ser. A gente na vida tem que tomar o costume de desejar o impossível, porque o possível é muito mais difícil. O impossível, como não se alcança nunca, acaba se dizendo que afinal eram sonhos, e o sonho é no sonho que fica. Já o possível a gente pensa que se quisesse mesmo, se tentasse e fizesse força… E aí começa a amargura.

E ainda mais, o que é possível é uma espécie de saco sem fundo, todo dia aparece novidade. Você hoje quer dez mil cruzeiros, amanhã serão vinte mil, ou é um relógio, um sofá Drago, uma televisão. O impossível, você fala nele e não se azeda – é viagem a Paris, ou ser artista de cinema, ou tomar lanche com o presidente no Palácio da Alvorada, ou ter cinco filhos gêmeos como aquelas Dionne – como as Dionne não, que são feias e já morreu uma, mas como aqueles quíntuplos Dilligenti da Argentina, ricos e bonitos que parecem fantasia de filme. Sendo ele impossível você pode ficar a vida inteira com o mesmo ideal; já que não tem perigo de realizar, não precisa estar mudando.

Ah! minha filha, pensa que é só você que deseja as coisas? Desejar desejo eu e desejo coisas grandes para este nosso Brasil. Desde quando eu era menina e o Getúlio andou no nosso Estado que eu sonhava Getúlio chegar na nossa escola e perguntar à professora quem era o aluno mais inteligente e a professora dizia que era eu e aí ele botava uma medalha de ouro no meu peito. Mas o Getúlio nem foi na escola, passou de automóvel escoltado por um piquete de cavalaria, dando adeus com a mão. […]

O escritor Ignácio de Loyola Brandão conta que uma das maiores emoções da vida foi quando recebeu o convite para escrever crônicas para o jornal O Estado de S.Paulo, na coluna que era assinada por Rachel de Queiroz, quem lia com frequência. Rachel nasceu no Ceará, foi repórter, romancista e cronista. Na década de 1930 publicou o romance O quinze. O comentário do consagrado escritor Graciliano Ramos resume o impacto da obra: “… fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova”. Destruindo texto a texto pensamentos e olhares machistas, foi a primeira escritora a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.


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8. Edla van Steen

A promessa / trecho
(do livro Melhores Contos Edla van Steen)

A gente se acostuma a tudo na vida – Alba pensou – menos à sensação de não ter um rosto. E de uns tempos para cá ela se sente assim, sem rosto. Antes não reconhecesse o corpo ou os braços ou as pernas – movimentou-os preguiçosamente – mas o rosto… Aqueles traços não eram seus, não lhe diziam nada. Pelo menos não se reconhecia neles. Nem nos cabelos – passou a mão – crespos e curtos. A vontade de voltar a Desterro crescendo. Um buraco no estômago? Não, um buraco na alma – virou-se na cama. Ela devia continuar dormindo indefinidamente. Ou só acordar quando aquela impressão de vazio tiver passado – ajeitou o travesseiro. Mês que vem completa cinquenta anos. Meio século de existência, um século de dor. Adiar eternamente a viagem seria uma temeridade. Precisava ensaiar um jeito de pedir ao marido: Olavo, meu bem, você se incomodaria se eu fosse… se eu desse um pulo a Desterro? Preciso ir. Tenho medo que não dê tempo… Você sabe… Por favor, deixo a geladeira cheia, a faxineira avisada – o entusiasmo fez com que se levantasse. Por que agora, querida, que não posso largar o hotel? – ele diria. Promovido a gerente tão cedo você não tira férias e eu não posso esperar mais – o argumento forte, indiscutível. Viajaria de avião ou de carro? As passagens aéreas custavam muito dinheiro, ela se locomoveria melhor se tivesse a sua própria condução. Difícil dirigir numa cidade que não se domina – Olavo alegaria. A resposta na ponta da língua: compro um guia. Tão logo ele chegasse do trabalho, colocaria a questão da viagem como definitiva – arrumou a roupa devagar, os objetos de toalete, lixa de unha, lixa de pé, tesoura, pente, escova. Olavo vai ter uma surpresa vendo a mala pronta. Há trinta anos, puxa vida, ela não ia lá à sua cidade, nem falava com a mãe. […]

Edla van Steen é um castelo. Somente seu gigantesco trabalho de pesquisa e de edição de autores brasileiros, defendendo e guardando muitos do esquecimento, principalmente com a direção na Global Editora das séries Melhores Poemas, Crônicas, Contos e Melhor Teatro, ela já merece ter o nome eternizado entre os mais importantes da literatura brasileira em todos os tempos. Mas, além desse papel protetor, escreveu muito e segue escrevendo contos e romances premiados.


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9. Henriqueta Lisboa

Vertigem
(do livro Melhores Poemas Henriqueta Lisboa)

A roda gira
o mundo gira
gira a cabeça
mais que o girassol.
Em derredor de algo ou de alguém
que talvez gire em volta de outrem
ou de outra cousa mariposa
sobre si mesma.
Nem sabe a espiga porque giram
as asas ríspidas do moinho.
Hoje é o esteio que se abate
de chofre contra o duro solo
enquanto o grão de areia sobe
em vertical pela argamassa.
O oceano cala nos pélagos
e joga as ondas em vaivém.
Pela vesânia a mesa farta
pela vindícia a mesa parca
aos impulsos do pêndulo.
Essa girândola que pende
para a direita ou para a esquerda
não edifica em centro.
Daqui de lá dos quatro cantos
das montanhas ao vale
são reflexos que refractam
não os deuses mas os mitos.
É o provisório o aleatório
o que ainda pouco se diluíra
na miragem dos plainos.
Para voltar com novo embalo
ao velho torno da aflição.

É preciso conhecer Henriqueta Lisboa. É preciso ler Henriqueta Lisboa. É preciso falar de Henriqueta Lisboa. Foi, além de poeta, educadora, pesquisadora, tradutora. Recebeu o prêmio Machado de Assis, em 1984, da Academia Brasileira de Letras. Nasceu no mesmo ano que Cecília Meireles, 1901. Seus poemas abraçam a vocação da sonoridade e do ritmo que tem a poesia e não têm medo das palavras nem da preguiça eventual do leitor em buscá-las em dicionários.


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10. Maria Julieta Drummond de Andrade

Na varanda / trecho
(do livro Melhores Crônicas Maria Julieta Drummond de Andrade)

Já faz parte do anedotário lírico brasileiro aquele episódio (autêntico) de Murilo Mendes caminhando por uma rua, nem sei mais se de Minas ou do Rio. De repente vê uma moça debruçada na janela. Há tanto que não presenciava cena semelhante, comum no interior e em tempos idos, mas praticamente extinta na vida urbana, que, invocado e cheio de entusiasmo, ajoelhou-se e começou a exclamar aos berros, gesticulando com excitação:

– Mulher na janela, que beleza! Mulher na janela, meus parabéns!

A moça deve ter fugido assustada, provavelmente sem entender o que aquele homem alto e ossudo saudava com tamanha efusão. Como explicar-lhe que, com certeiro instinto, Murilo identificara e estava fixando para sempre, da maneira espontânea e exuberante que lhe era própria, um flagrante poético perfeito, o milagre que ela própria, sem perceber, corporizava? Moça que, em plena cidade e infensa à agitação a seu redor, dispunha ainda de lazer e prazer para pôr-se à janela e contemplar a rua, os transeuntes, a tarde, as nuvens. Mulher na janela…

Pois a mim também, há pouco, me foi concedido o privilégio de captar um momento desses, tão impregnados de passado que dir-se-iam irreais nos dias de hoje – coisa de outra civilização. […]

Sim, filha de Carlos Drummond de Andrade. Mas como canta a filha de Elis Regina, como jogou futebol o filho de Pelé, como também escreveu o filho de Graciliano Ramos, escreveu e publicou a filha do maior poeta do país. Quando mais nova, Maria Julieta publicou um romance. Depois, dedicou-se a lecionar literatura brasileira em Buenos Aires, onde chegou a dirigir o Centro de Estudos Brasileiros. Foi também tradutora e editora. Na década de 1980 firmou-se como cronista, principalmente escrevendo sobre suas vivências e impressões.


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