Como era falar com o mundo antes da internet

O conhecimento humano hoje viaja com liberdade, mas enfrenta trânsito pesado. A internet traz de tudo aos nossos olhos. É difícil ver tudo e discernir. Discernimento é um outro nome de Câmara Cascudo. Sua obra tem tanta informação que poderia se assemelhar a um Google da vida. A diferença é que no site de buscas a gente pergunta algo, então precisa saber o que perguntar. Na obra de Cascudo vêm respostas e vem o que a gente não tinha a mínima ideia que existia.

Ainda vale muito nos dias de hoje essa viagem ordenada que nos oferece o mestre, a partir dessa ponta importante do país que é a cidade de Natal, em outro tempo, um tempo eterno. Aliás, é esse conceito de eternidade um dos mais presentes no livro Prelúdio e fuga do real (Global Editora), uma coletânea de conversas de Cascudo com personagens históricos ou seres fantásticos da história e da cultura da humanidade: Midas, Ramsés II, Epicuro, Menipo, Caim, entre outros. Quer espiar uma dessas conversas?

 

Pentesileia. As mentoras da Igualdade Feminina

Recebo na biblioteca a “professora estrangeira” anunciada. Alta, forte, serena, fausse maigre (falsa magra), é uma exaltação de saúde, decisão, autodomínio. A boina escura cobre-lhe a cabeça alongada, modelada em mármore, cabelos curtos e densos, testa estreita, olhos negros, olhar direto, limpo, sem subentendidos, lábios finos, um rosto algo másculo, agressivo na placidez. Na brancura da face estão manchas rubras do sol tropical. O tailleur verde desce até os joelhos, em linha harmoniosa, mostrando as pernas ágeis, os pés esguios, defendidos pelas sandálias elegantes. A blusa, branca e leve, deixa ver a garganta firme. Um anel de camafeu. Um colar de pedras luzentes e negras. No pulso, relógio suíço. No arco da grande bolsa de couro, um par de luvas claras. Acomoda-se, sorridente, mas sem intimidade. Voz grave, rápida, sem denunciar a procedência da visitante.

– Professor, estive há poucos dias em Londres com Bianor Silva…

– O Centauro?

– Exatamente, o Centauro. Disse-me o assunto que expusera ao senhor e entendi não lhe pertencer o monopólio da confidência nem a honra do convívio. Vim procurá-lo, tendo os mesmos direitos do Centauro e razões que me parecem mais lógicas que as dele…

– Não me diga que é uma Centauresse…

– Não, não sou. Sou Pentesileia, uma Amazona.

Pentesileia levara as Amazonas em socorro de Príamo dos derradeiros da resistência de Troia. Fora morta por Aquiles. Despojando o cadáver, o herói emocionou-se com a beleza da guerreira e chorou. Tersites riu daquela estranha mágoa. Aquiles abateu-o como a uma mosca. O astrônomo Knorre denominou Pentesileia a uma estrela. Galopam no voo imaginação, Hipólita invadindo Ática, Esfione visitando Jasão, Menálipe dando o cinto a Heracles, Antíope vencida por Teseu, Taléstris abraçando Alexandre Magno, Tomires derrotando Ciro, Virgílio exaltou-as na Eneida. Lembro a versão de Manuel Odorico Mendes:

Sob a despida mama um cinto de ouro

E a virgem com varões a brigar se atreve.

Raça predestinada, que o Tempo não renovaria, batendo-se sempre, morrendo com armas na mão, viva nos mármores de Fídias, Policleto, Ctesilas, moedas de Éfeso, mausoléu de Helicarnasso, violenta indomável, atrevida, amorosa. Comunica o exemplo aos batalhões femininos da Boêmia no século XVII, à cavalaria indômita do rei Glelé do Daomé, de cujos esquadrões, Yahi, the last os the Amazons, ainda vivia em 1935, alquebrada e saudosa.

Deu batismo ao Rio-Mar no Brasil.

Dizem que a pedra jade das muiraquitãs era oferta dessas Icamiabas ao esposo de uma noite. Tornava-se amuleto para a Felicidade.

Cristóvão Colombo aludira à existência das Amazonas nas Antilhas. Walter Raleigh nas Guianas. Hernando Ribeiro deparou-as no Paraguai. Em 24 de junho de 1541, Francisco de Orellana combateu-as no rio Nhamundá. Moravam em setenta acampamentos de pedra, sete dias de jornada da costa fluvial. Conhori era a rainha. Os indígenas desciam 1.400 léguas para vê-las. Vinham moços e voltavam velhos. Frei Ivo d’Evreux registra-as no Maranhão de 1612. Em 1587, Gabriel Soares de Sousa alude às mulheres guerreiras de uma única teta, lutando contra os Ubirajaras, nos sertões da Bahia. Spix e Martius nada encontraram no Amazonas de 1820.  Não se divulgaram nas tradições mestiças do Brasil, cantigas ou cantos Anônimos. Em Portugal são apenas as Amazonas, Almajonas, agigantadas e bravias. Também Alamoas. Com esse nome reaparecem, fantasticamente, na ilha de Fernando de Noronha, ruivas, temíveis, sedutoras.

A saliência na blusa denuncia os seios normais na minha visitante. Amazona não virá de sua ablação, ou massa avultada, mas do vocábulo Lua, na língua tscherkesse. A lua era uma presença animadora no espírito das Amazonas. No Brasil todas as cerimônias ocorriam durante os plenilúnios, no lago “Espelho da Lua”, Jaciuaruá, perto de Faro, à margem esquerda do Nhamundá ou Jamundá, no Pará.

As Amazonas de Rubens ostentam fartos seios rijos. Eram devotas de Ártemis na invocação lunar. A pátria foi a Ásia Menor. Não há motivo guerreiro mais surpreendente, emocional e sugestivo. E estou olhando uma dessas rainhas, a última esperança da sagrada ilion, há trinta e três séculos.

– Prazer em ouvi-la…

Creio, professor, que depois da morte de Alexandre Magno, saudado por minha colega Talestris, novecentos anos depois da minha luta com Aquiles, o senhor perdeu contato com as Amazonas, as verdadeiras, desde o Ponto Euxino. Não haverá surpresa de minha linguagem, mas do motivo provocador. O Centauro Bianor insistiu na presença de sua raça como uma “constante” psicológica contemporânea. Trago o meu depoimento. As Amazonas são uma permanente na evolução da mentalidade feminina. Persistimos, obstinadamente, quase vinte séculos, libertando a mulher de sua subalternidade moral, como afastamos o domínio masculino da nossa vida coletiva. Frágeis e amorosas, enfrentamos em batalha os mais famosos heróis de antigamente, Hércules, Teseu, Belerofonte, Peleu, Telamon, o rei Ciro, e mesmo Dionísio, junto aos muros da nossa Éfeso. Não mudamos de forma e nem tivemos o reforço bestial de uma garupa cavalar, como os Centauros. Batemo-nos com a nossa feição natural, como éramos e são todas as mulheres. Amamos e fomos mães, educando as filhas na disciplina do combate e fidelidade à tradição. Os filhos, os pais que os criassem… O senhor jamais deparou um Centauro sem a projeção equina, mas sempre nos viu na veracidade do nosso tipo físico. O Centauro Bianor tem uma inveja milenar das Amazonas, domadores e combatentes a cavalo.

Ergueu-se, gesticulando com a mão fechada como se empunhasse a lança dos Citas.

– Nenhum dos Deuses ou Deusas, de qualquer paragem religiosa, tentou a igualdade social da mulher. Nem antes e nem depois das Amazonas apareceu um grupo feminino disputando aos homens participação justamente no que mais os orgulha e distingue: o domínio guerreiro, o manejo das armas, a luta corpo a corpo, leal e direta. Com alternativas de êxito e desastre, nós temos a prioridade indiscutível. Provamos com o nosso valor que, mesmo de espada, machado ou flecha, o homem não é superior à mulher. O professor sabe que uma derrota em campo aberto não anula a valentia dos vencidos. Antes afirma que não temeram a fama belicosa dos adversários, oferecendo batalha, golpe por golpe, sem medo algum. Tomiris não temeria a Cirus, invencível, como eu não recuei ante Aquiles, o mais bravo dos homens.

Quando ficamos em disponibilidade perpétua, tendo as compensações da nossa categoria mítica, notei como os Deuses e Deusas, sempre que podiam, enviavam poderosos pensamentos ao cérebro dos Homens, sugerindo-lhes ações, para os antigos Divos, excelentes e lógicas. Bianor narrou ao senhor a participação dos Centauros nessa campanha de influências invisíveis e afirma seu grupo vitorioso. Que diremos nós, as Amazonas? Irradiamos constantemente ao nosso sexo vivo as ideias valentes de reação, contínua e cauta, para os direitos igualitários, ocupando nível irmanado aos homens. De nenhum outro cérebro poderia nascer semelhante imagem senão das Amazonas. O professor compare a situação feminina de agora com a de um século atrás: quem manteve a força inextinguível e potente para a resistência mulheril, através do tempo, fomos nós. Elas próprias, isoladas, desanimariam, com desunião e rixa. Posso dizer como santa Teresa: Tengo experiencia de lo que son muchas mujeres juntas. Dios nos libre! A santa falava nas espanholas de 1576 e eu conheço as mulheres desde as asiáticas de 1180 a.C.! É assunto de minha predileção. Todas as coragens femininas no plano social foram esforço nosso. Captavam elas, inconscientemente, as ondas de energia, enviadas com tenacidade e afeto pelas Amazonas, veteranas no esforço e desprezando o insucesso. Eis porque, em pouco mais de cem anos, as mulheres estão em todos os postos masculinos, como os Plebeus em Roma alcançaram os cargos ciumentamente reservados aos Patrícios. Naturalmente, professor, a nossa colaboração, alta, generosa, desinteressada, espontânea, pode não ser reconhecida e proclamada pelas beneficiadas. Sei muito bem o espírito do meu sexo. A glória é devida a elas mesmas, sem auxílio de ninguém. Lembro quanto nos custou esses longos tempos de irradiação energética, de confiança, de entusiasmo, de perseverança…

Parou diante de mim elevando a voz de comando:

– Um poeta do Brasil, Olavo Bilac, profetizara:

Virgens, reviverão as Amazonas

Na cavalgada esplêndida da glória!

– É o que fizemos, professor! missão cumprida. Todos os meus votos pela sua felicidade.

Saudou, apanhou a bolsa, e desapareceu.

 

 

Neste vídeo, o professor doutor Humberto Hermenegildo, um dos principais estudiosos da obra de Cascudo no país, fala sobre o livro.


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