Boas-festas com bons livros

Pescamos na coleção Melhores Crônicas da Global Editora textos que tratam do Natal e de Ano-Novo, entre os consagrados autores que fazem parte dessa publicação de sucesso, dirigida por Edla van Steen. É um bom exemplo da multiplicidade de estilos e abordagens possíveis, que torna a crônica brasileira um gênero altíssimo.

trechos de “Segredo de Natal”, de Ivan Angelo

Desde o Natal passado, a pequena Vivian guarda um segredo maior do que poderia acomodar, tanto que o dividiu em dois: esconde parte no coração e parte no cerebrozinho esperto. Não pensou nele o ano inteiro, nem poderia; na verdade esqueceu-o, mas no início de dezembro, ao perceber nas cores, nas luzes, nas músicas, na televisão, na escolinha, nos shoppings e no rebuliço geral os sinais de um novo Natal, o segredo voltou a deixá-la intensa, porque possuidora de um conhecimento que as outras crianças não tinham.

Na escolinha, coleguinhas diziam bem alto:

– Papai Noel não existe!

Como se soubessem do que estavam falando! Ouvi-los era a confirmação íntima de que só ela sabia o segredo. […]

E então veio dezembro novamente, e trouxe de volta prenúncios de Natal e a responsabilidade insuportável. Não, não, não! Não queria viver aquilo de novo, decidiu. Pensou, secreta e maliciosa: naquele Natal, ia contar para todo mundo.

trechos de “8 de janeiro de 1855”, de José de Alencar

Ainda vos lembrais do ano passado? Ainda não esquecestes a última noite de 1854?

Era uma noite de luar, mas turva e carregada. O céu cobria-se de nuvens. A natureza estava calma e sossegada. As horas corriam silenciosamente.

Deu meia-noite. Um ano terminava, um ano começava. Mas nem um sinal, nem um vestígio atestava essa grande revolução do tempo que se acabava de consumar. […]

Para aqueles que ainda se deixam involuntariamente dominar pela poética e graciosa ficção do ano-bom, este dia é um oráculo cheio de presságios e de vaticínios. Quanto desejo querido, quanto voto ardente, não vem afagar no fundo desses corações aquela primeira aurora do ano! Neste dia pensa-se naquilo que mais se ama no mundo, junta-se no seio da família, visita-se os amigos, e troca-se mutuamente as boas entradas de ano, os presentes de amizade, as étrennes. […]

Bem entendido, não falo aqui de certa gente, que desejaria que um ano fosse um minuto, e que passasse como uma hora de tédio, ou um dia de convalescença. Parece incrível, porém não é menos verdadeiro.

 

trechos de “Ano muito bom”, de Cecília Meireles:

Certa noite de 31 de dezembro, éramos um grupo de pessoas mais ou menos estranhas umas às outras, que voávamos juntas para a Índia. Nossas relações de conhecimento, muito vagas, datavam apenas de horas. Nossa história comum limitava-se à contemplação de algumas imagens inesquecíveis: o Mediterrâneo, as Pirâmides, imensos desertos pálidos, golfos que o Sol coloria com tintas orientais e, finalmente, o céu que se ia tornando noturno, o céu que fora tão grande e parecia pouco a pouco reduzir-se em sombra, e ficar do nosso tamanho, do tamanho das nossas pequenas vidas ali suspensas, com seus mistérios, esperanças e medos. […]

Foi assim que, entre um ano e outro, uma noite, entre o céu e a terra, o Oriente e o Ocidente estiveram unidos simbolicamente, num fervoroso abraço.

O dia seguinte foi belo, colorido, bizarro, como são todos os dias da Índia. Mas lá o ano não começa em janeiro em todos os calendários. O primeiro dia do ano lunar, o Gudi Parwa, é na primavera. Há grandes festas, e quem mastigar folhas de nim, nesse dia, terá saúde o ano inteiro. Mas a coisa mais bela é que nesse dia ninguém pode falar com violência e são proibidas todas as manifestações de cólera. Ano-bom, verdadeiramente! Quem o pudesse conservar assim, recomeçando-o do mesmo modo todos os dias!

 

trechos de “Boas-festas”, de Maria Julieta Drummond de Andrade:

Tantas vezes deixo transparecer meu desconcerto e envolvo meus leitores insontes em queixas e suspiros particulares, que hoje tenho vontade, tenho quase a obrigação de torná-los cúmplices de uma circunstância oposta: esta manhã acordei feliz. […]

Resumindo: estou bem, neste sábado de dezembro – apesar de nada ter se modificado, realmente, em meu quotidiano. Acordei feliz porque sim, e nessa sem-razão, nessa gratuidade bela reside precisamente a essência valiosa da notícia que entrego aos meus leitores, em manchete: HOJE ACORDEI FELIZ! Não digam, por favor, que estou cronicando em vão – estou lhes oferecendo um presente de fim de ano.

E por falar nisso, boas-festas! Acordem felizes, de vez em quando, no que resta deste ano e principalmente no próximo.

 

trechos de “Solidão de Natal no Bexiga”, de Ignácio de Loyola Brandão

Vindo do interior, trabalhava havia nove meses em jornal e estava ansioso para, no 24 de dezembro, apanhar o trem e voltar a Araraquara, a fim de passar o Natal em família. Aos 21 anos, tendo morado a vida inteira no interior, movia-me por São Paulo sem desenvoltura, sem muitos amigos, a não ser os da pensão da Nina, onde morava. Vinte e um anos? Vida inteira? Nem se começou a viver, dirão muitos. Acontece que ao completar 21 tive um ataque de desespero, considerei-me velho, a vida acabada: “O que vou fazer depois?” Não que tivesse feito muito, não tinha feito nada, porém me via dominado por um grande sentimento de tragédia. No começo do mês, os amigos da pensão, todos estudantes, tinham ido embora, eram do interior do Paraná, de São Paulo. Foram curtir as férias, passar o Natal com as famílias. E eu a rondar solitário pela pensão deserta.

Comprei passagem antecipada na Estação da Luz, para o trem azul, de luxo, com poltronas numeradas. Enfrentava-se longa fila na bilheteria, dávamos gorjeta aos funcionários e descobríamos, no interior do trem, que nosso lugar não existia. Impossível viajar de trem na época de Natal e ano-novo. Tudo lotado, gente em cima da cabeça e dos ombros. Pura farra, demorava-se cinco horas para fazer o percurso que o automóvel faz hoje em menos de três. No dia 20, Ceso Jardim, chefe de reportagem da Última Hora, e o homem que me ensinou jornalismo, me chamou: “Você vai cobrir o Natal”. […]

Celso me enviou ao Bexiga, então o bairro dos teatros e da boemia. Elegância com cultura, tradição e povão. Fui à Luz e revendi a passagem. A minha missão era fazer chorar. Como já escrevia razoavelmente (escrevia-se mal em jornal, mas não tanto quanto hoje) eu teria de levantar histórias para comover. “Faça o Natal dos solitários”, comandou o Celso. Assim, um solitário saiu à rua à cata de outros solitários. Os teatros estavam fechados. As cantinas cheias. Pelo barulho e agitação, concluí que nas cantinas não encontraria solidão. Grande parte das casas estava com as portas escancaradas, havia música, gritos, saudações. Um tempo em que se podia festejar com portas abertas, amigos entravam e saíam, estranhos que passavam eram brindados. Não, nas casas também não parecia haver solidão. Comecei a procurar botecos e a entrevistar pessoas sozinhas diante de uma cerveja, um vinho tinto pesado, uma cachaça.

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