A legião Rubem Braga

Legião é um ajuntamento de pessoas. De admiradores, nesse caso, e para não caracterizar nada que seja armado com coisas de matar. Porque Rubem Braga escreveu demais e bem sobre as coisas de viver. Juntou-se aqui nessa postagem uma legião de grandes nomes que escreveram recentemente sobre Rubem Braga.

Paradoxal que a data que se tem em sua biografia, nesta semana, seja de sua partida, madrugada de 19 de dezembro. Ainda que até na morte tenha inscrito seu estilo, saindo de sua eterna cobertura em Ipanema, Rio de Janeiro, na manhã anterior, para comprar as frutas preferidas – como conta o poeta Affonso Romano de Sant’Anna.

Rubem Braga segue vivo no que escreveu, é claro, e a Global Editora vem publicando sua obra em novas edições. Segue vivo no testemunho desses amigos e admiradores. Quem guarda tem, já ouviu dizer? Um simples arquivo caseiro pode armazenar preciosidades da literatura, como alguns testemunhos sobre Rubem Braga que estão aqui na página, copiados por um aparelho digitalizador (tentativa de trazer ao português o famoso e útil escâner).

Em 15 de janeiro de 2013, Arnaldo Jabor escreveu no Estadão: “Caro Rubem Braga”. No centenário do maior cronista do Brasil, Jabor pescou memórias de seus encontros com ele. Como numa festa na cobertura de Ipanema, onde estavam amigos, bebendo e papeando, como todos nós. Mas esses amigos são hoje – e eram já na época – monstros da Literatura, gente que a gente teria medo de dar bom-dia, e esse medo era o do Jabor: estavam lá, além do Rubem Braga, Fernando Sabino, Danuza Leão e  João Cabral de Mello Neto atirando provocações a Vinicius de Moraes. Assim mesmo. “Que negócio de Garota de Ipanema, Vina, você é poeta!”. Já pensou? Essas cenas aconteciam o tempo todo ali, naquele sítio suspenso com apartamento no meio.

José Castello, grande crítico literário, escreveu sobre Rubem Braga depois do centenário. O texto foi publicado no jornal Rascunho, em fevereiro de 2014. Trata principalmente da relação de Rubem Braga com a crônica, lembrando logo no começo que amigos do escritor tentavam lhe convencer a produzir um romance. Não aconteceu. Castello fala de Braga para tratar da relevância da Literatura, não importa o gênero. E que nisso é preciso até discordar do cronista, que frequentemente afirmava fazer algo sem tanta importância: “Não chega a ser Literatura”, dizia. O tempo mostra mais e mais que não, que a obra de Rubem Braga é gigante em influência, prazer e relevância. “Esses são motivos suficientes para que Rubem Braga, passado seu centenário de nascimento, não seja esquecido. E sobretudo para que os jovens romancistas não parem de lê-lo. Tem muito a dizer a todos nós, basta querer ouvir. Um escritor que – como fazem os grandes escritores – nunca deixou de ser fiel a si mesmo”, arrematou Castello.

Na terceira edição apenas de Nicolau, impresso que abrilhantou os anos 1980 e 1990 a partir do Paraná, tem uma coluna assinada pelo próprio Braga. Generoso, em vez de escrever muito, abriu espaço para outros autores e para a poesia, sua paixão como leitor. Ele sacou, de um concurso que havia promovido na antiga revista Manchete, a tradução de um poema de Gabriela Mistral (chilena, prêmio Nobel de Literatura). O vencedor do concurso foi Agmar Murgel Dutra, que, diz o cronista, ganhou garrafões de vinho chileno e livros de poetas do Chile. Essa ligação forte com o gênero está no livro A Poesia é necessária (Global Editora), um recorte do que Braga mais gostava e oferecia aos leitores, trabalho ao mesmo tempo de louvor e educação que ele fez em veículos de grande circulação e influência.

O quarto tesouro foi escrito por Humberto Werneck e publicado pela revista Vida Simples. A reportagem é Fazendeiro do ar – A vida de Rubem Braga, o cronista que vivia rodeado de amigos em um verdadeiro pomas suspenso. Werneck, como é uma de suas especialidades, nos aproxima do escritor, põe o leitor ao lado de Rubem Braga, pela trajetória riquíssima que teve, em vivências, desde o primeiro trabalho como jornalista, passando pela cobertura da Segunda Guerra, e pela inevitável cobertura de Ipanema, no Rio de Janeiro, onde fez crescer uma verdadeira floresta em redor de seu apartamento. Entre outras passagens muito gostosas, Werneck escreveu: “Na sua limpidez, o texto do cronista maior pode dar aos desavisados a ilusão de serem também eles capazes de escrever algo assim. Trata-se daquilo que o poeta Hélio Pellegrino chamou de ‘a difícil arte de escrever fácil’. Tecidas sem pompa ou grandiloquência, as crônicas de Rubem Braga são feitas de palavras simples – não por acaso, ele achava que um dos versos mais belos da língua portuguesa é este decassílabo, sem qualquer enfeite, de Luís de Camões: ‘A grande dor das coisas que passaram’.”

Werneck lembra também que Rubem escreveu mais de 15 mil crônicas, ao longo de seis décadas. Por isso, se já não começou, é bom não perder tempo, né? A Legião recebe adeptos a qualquer momento, incluindo Natal e Ano-Novo. Boas festas e um ótimo Rubem Braga pra você.

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