19 de abril mágico: aniversário de Lygia Fagundes Telles e de Manuel Bandeira

Romancista e contista de estilo incomparável, tão intensa a busca como escritora por dizer as coisas de forma muito própria, inaugurando a todo tempo modos de ver a mundo interno e externo das pessoas, Lygia Fagundes Telles atingiu em vida o reconhecimento entre as mais importantes autoras brasileiras de todos os tempos.

Manuel Bandeira, um poeta que também escreveu ensaios e crônicas, mas essencialmente se expressou pelo poema, trilhou um caminho de ressignificação dos dizeres do povo, às vezes na “língua errada do povo, língua certa do povo” (Evocação do Recife), mas sempre numa busca da simplicidade de mãos dadas com a erudição artística, para ser a mais sólida ponte entre a tradição da Poesia no Brasil e tudo o que depois se originou no Modernismo. É impossível tratar da Poesia brasileira sem falar muito de Manuel Bandeira. E que coincidência! Esses dois gênios das palavras fazem aniversário no mesmo dia: 19 de abril.

 

Da vasta obra de ambos, a Global Editora oferece generosas portas de entrada, que são os volumes de Melhores Contos Lygia Fagundes Telles e Melhores Poemas Manuel Bandeira, no novo formato pocket, que facilita muito a companhia desses livros no dia a dia de todos nós.

 

Era o que ele estudava. “A estrutura, quer dizer, a estrutura”, ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão, compreende?” Não compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor, calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolas de sabão. Mas e a estrutura? “A estrutura?”, ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado, cuidadinho, ô! a paciência. A paixão.

trecho do conto A estrutura da bolha de sabão, de Lygia Fagundes Telles

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquito.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite…

(Não desta noite, mas de outra maior.)

poema Noite morta, de Manuel Bandeira


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