Ser leitor, que diferença faz? Entrevista com Luzia de Maria

Por / 1 ano atrás / Entrevistas / Nenhum Comentário

Luzia madrugou. Mais uma vez. Tinha que dormir, porque viajaria cedo ao Rio Grande do Sul. Mas parece que não se controla quando alguém a instiga a falar da missão de sua vida: semear literatura. Luzia de Maria dedica a vida a iluminar os caminhos da leitura no Brasil, desde a década de 1980, experiência que compartilha em O Clube do Livro: ser leitor, que diferença faz? (Global Editora, 2016). Ela coleciona argumentos sobre o prazer que é ler uma obra literária e os benefícios trazidos a quem se entrega a esse prazer. Sim, ela não fala de obrigação, mas de uma prática democrática de oferecer opções às crianças e aos jovens a opção de fazer “um mergulho na literatura e não uma história da literatura” (página 42). Foi assim, mergulhando nas horas, que Luzia de Maria respondeu a essa entrevista: “é preciso trabalhar todo dia, toda hora, toda madrugada para que não se perca essa extraordinária herança, esse legado: o patrimônio literário e cultural que a humanidade, ao longo de séculos, construiu“.

Blog da Global: Para quem já é leitor, às vezes é difícil explicar racionalmente por que a literatura é essencial – porque parece óbvio. E também porque é como se houvesse culpa de se falar de uma utilidade da arte. Mas no livro você aborda alguns dos benefícios práticos de se ler costumeiramente obras literárias. Como foi seu processo até ter esses argumentos tão definidos? 

Luzia de Maria: Minhas observações sobre os benefícios da leitura começaram muito cedo: fui caçula temporã em uma família de 8 filhos e aos dois anos de idade comecei a ter sobrinhos. Assim, aos 15 anos eu já me via rodeada de crianças, provenientes de lares diferentes, com formações diferentes. Sobrinhos que em suas casas conviviam com livros de histórias e revistinhas, cujos pais contavam e liam histórias para eles, eram mais concentrados, tinham uma linguagem mais rica e uma postura diferente em relação aos meus livros: não os rasgavam, assim que os viam sobre minha cama, por exemplo. Desde ali, jurei que meus filhos não rasgariam livros: e os apresentei às minhas duas filhas ainda no berço. No ensino médio, eu e uma amiga, também chamada Luzia, devorávamos romances,  dia e noite, enquanto víamos colegas repetindo a leitura dos textos de História, Geografia, Ciências… o dia inteiro, e na hora das avaliações eu e a outra leitora conquistávamos melhores notas. Tive a sorte de ter lido uma coleção de 12 volumes, contendo as mais fantásticas histórias de todos os tempos aos 9 anos de idade; ao entrar no antigo Ginásio – 6º ano hoje – comecei a ouvir elogios dos professores – especialmente os de Português – de que eu seria “escritora”, porque, segundo suas falas, eu tinha um dom para escrever. Trabalhando no ensino fundamental por vinte e poucos anos, fui testemunhando – e acredito que essa observação é feita por qualquer professor que seja observador – que os alunos leitores são sempre os melhores, em todas as disciplinas. Vi minhas filhas – ambas leitoras – terem excelente rendimento escolar e conquistarem colocações extraordinárias em concursos. E é bom que se diga, ninguém tem jeitão de cdf, nerd, etc. Nem se trata, também, do famoso “dom”, justificativa para diferenças culturais e até muitos braços cruzados (não tenho dom para isso ou aquilo…). Nos anos 1980, entre 1982 e 1987, numa escola pública de ensino médio, tive a sorte de poder criar e desenvolver um “clube de leitura” – origem de O Clube do Livro – Ser leitor, que diferença faz? – livro em que, no 3º capítulo, conto essa experiência e publico 25 depoimentos de ex-alunos meus que, nessa escola pública, em 1987, leram 50, 60 e muitos deles até 70 livros em um ano escolar. Programa de sala de aula. Vinte anos depois, ao assistirem a uma entrevista minha no Programa do Jô, por conta de outro livro, eles quiseram me rever. E foi esse encontro que me levou a escrever O Clube do Livro. No 1º capítulo, desenvolvo 9 itens sobre a importância da leitura, a partir das minhas vivências, leituras e pesquisas sobre o tema. Como fui sempre uma voraz leitora, desde os primeiros anos, como professora, no ensino fundamental e médio, sempre tive um olhar dedicado à leitura, não somente incluindo literatura no cardápio dos estudantes, mas ao mesmo tempo acompanhando tudo que se publicava sobre sua prática e seus benefícios. Hoje tenho convicção de que a educação pública brasileira não atinge níveis de excelência justamente porque não se dá o devido espaço à formação de leitores, especialmente nos anos finais do 1º grau e no ensino médio. A prova dessa afirmação é o fato de que, nos anos iniciais – nos quais a leitura e a literatura infantil estão mais presentes –,  melhores rendimentos estão sendo colhidos.

Blog da Global: O livro mescla experiências suas, análise da situação brasileira quanto à leitura e propostas, principalmente para as escolas. Você sente nos últimos anos que suas ideias são mais bem-aceitas por professores? Diria que a maioria já sente a necessidade de mudar a abordagem à literatura em sala de aula?

Luzia de Maria: Para minha alegria, embora ainda seja um longo caminho a trilhar, embora a grande maioria dos professores ainda em sala de aula, em todos os níveis – incluindo o universitário –  em sua formação escolar não tenham se tornado leitores, o que tenho sentido e presenciado é uma  preocupação maior com a leitura. E também, o que é muito bom, uma preocupação com sua própria relação com a leitura, com a sua “história de leitor”. Neste século XXI, a pressão para que sejamos leitores, ou melhores leitores, está recorrentemente presente, é forte e vem hoje de todos os lados. Como decorrência da globalização, a competitividade é voraz, tanto a nível empresarial, como a nível pessoal. Vivemos em um mundo sem fronteiras, posto ao alcance de todos graças às novas tecnologias, mas é preciso estar atento porque tudo tem dois lados: tanto temos acesso às mais diversas notícias, literaturas e conhecimento acerca de países distantes, como também postos de serviço podem ser tomados via internet, sem a presença física de um possível imigrante. As nações desenvolvidas mostram sua preocupação com uma formação de qualidade pondo livros nas mãos dos bebês. Por outro lado, os avanços nas pesquisas sobre o cérebro, a plasticidade como sua principal característica, mostram que a experiência – e a leitura é uma forma de experiência – é um propulsor do desenvolvimento cognitivo. E mais, segundo a neurociência, a leitura é essencial não somente para alavancar o desenvolvimento cognitivo da criança, mas também para manter a vitalidade e a saúde do cérebro de adultos e idosos. Quando saiu a 1ª edição de O Clube do Livro, no final de 2009, fui convidada pela Fundação CECIERJ – Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro – a criar um curso de “leitura e formação de leitores” para professores. Ele foi oferecido a distância durante os anos de 2010, 2011 e 2012, e a cada semestre, para 400 vagas, o número de inscritos era superior a mil. Com sua extinção, em parceria com uma amiga, criamos e estamos desenvolvendo o Projeto LER PRA VALER e, através da Lei Rouanet e patrocínio das editoras FTD e GAUDÍ, em 2016 estamos oferecendo um curso semipresencial (60 horas) de atualização leitora para 400 professores, em 3 estados brasileiros. O material deste curso – que os cursistas recebem gratuitamente, como parte do Projeto, na 1ª aula presencial – é um livro de 416 páginas, intitulado Amor Literário – Dez instigantes roteiros para você viajar pela cultura letrada. Não tenho dúvidas de que os professores estão se ressentindo da carência deixada por uma formação que não se preocupou em torná-los leitores. As reações dos cursistas são altamente positivas, tanto no curso oferecido antes pelo CECIERJ, como testemunho isso, hoje, ao vivo, nas 30 aulas presenciais do curso. Tenho estado muito feliz com isso!

Blog da Global: É sempre polêmica a questão da obrigatoriedade da leitura de clássicos por alunos em anos do Fundamental e Médio. Ao mesmo tempo em que você pondera que devem ser evitados a alunos ainda sem costume de ler, mesmo que estejam no ensino médio (páginas 42, 144 e 148, por exemplo), na parte final seu livro é praticamente uma homenagem muito reverente a Machado de Assis, o clássico de nossos clássicos. É uma questão de pavimentação de um caminho até Machado, em vez de colocá-lo como porta de entrada?

Luzia de Maria: Sim, esta é a questão! Defendo isso há mais ou menos 30 anos, desde maio de 1989, quando criamos –  eu, a atual sócia no Projeto e mais 5 amigas – o jornal-revista PRAvaLER – Educar para a leitura / Travessia para a liberdade, que circulou até 1991, quando, convidada pelo senador Darcy Ribeiro, com minha equipe criei a revista Informação Pedagógica e cuidamos de todo o material (mais de 50 títulos) para estudantes e professores no Programa dos CIEPs, escolas integrais do Estado do Rio de Janeiro. Como se pode observar, são algumas décadas em que venho defendendo uma formação escolar que se inicie nas creches, passe pela educação infantil, 1º grau e não se esmoreça em nenhum momento, para que nossos estudantes cheguem ao ensino médio lendo Machado de Assis e muitos outros clássicos prazerosamente e com perfeita compreensão. Isso vi minha filha fazer quando, recebendo como fria indicação de leitura o Dom Casmurro, no 2º ano do ensino médio, passou a mão no volume dos romances, da Obra Completa de Machado, da Nova Aguilar (agora parte do Grupo Editorial Global), leu três dos seus melhores romances. Claro que a terraplenagem havia sido feita em casa, desde o berço. Agora estou “servindo” Machado aos professores! E a recepção deles ao sabor me faz acreditar que “a educação brasileira tem salvação”.

Blog da Global: É mais difícil hoje, com tanta tecnologia de entretenimento à disposição, fazer o convite à Literatura?

Luzia de Maria: Sim, acho que é difícil, quando se demora a começar. Há uma paródia minha, no livro Amor literário,  que responde à questão: “Bem-aventurados os que tiverem quem leia histórias para eles, nos primeiros anos, porque deles será o reino das palavras”. Se a tecnologia do entretenimento não chegar antes da conquista do imaginário, o risco será bem menor. Mas é preciso estar atento, é preciso trabalhar todo dia, toda hora, toda madrugada para que não se perca essa extraordinária herança, esse legado: o patrimônio literário e cultural que a humanidade, ao longo de séculos, construiu.

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