Roteiro da Poesia: Ana Elisa Ribeiro a partir dos Anos 90

Por / 4 meses atrás / Entrevistas / Nenhum Comentário

Localizar poetas em alguma época da história não é fácil nem sempre muito preciso. Ao mesmo tempo, é uma maneira de dar chão a estudos, à curiosidade, de enxergar um fio possível no tempo. O Roteiro da Poesia Brasileira, com seus 15 livros, retratando toda a história da produção poética no país, é por isso uma ação corajosa. E, de vez em quando, aqui no Blog, vamos pinçar poetas que fazem parte dessa série para iluminar o passado e o presente da Poesia no Brasil. Há tesouros e muitas possibilidades guardadas na coleção, dirigida por Edla van Steen, com seleção e prefácios feitos por especialistas importantes, como Domício Proença Filho, Antonio Carlos Secchin, Ivan Junqueira, Walnice Nogueira Galvão.

Entre 45 poetas que estão na edição sobre os Anos 90, convidamos Ana Elisa Ribeiro. Mineira de Belo Horizonte, nascida em 1975. É uma autora muito ativa. Tem seis livros de poesia publicados, o mais recente é Xadrez (Editora Scriptum). Também publica crônicas, contos, é professora – doutora em Linguística Aplicada –, e tem textos em coletâneas no exterior, como em Portugal, França e México.

Antiguidade d’onde viemos

Péricles disse
que a maior virtude
de uma mulher
era ficar calada.

Péricles se fodeu.

Péricles, hoje,
levaria uma surra
dada por mil mulheres
como eu.

Esqueça se quer dela elogios fáceis. Ana Elisa é firme na entrevista, como é irônica, significativa e aguda em sua obra. Afinal, como diria José Castello, Poesia não é para agradar, mas para perfurar. Perfure-se:

Blog da Global – Imaginando que a edição do Roteiro da poesia brasileira – anos 90 fosse uma grande sala, você olharia em redor e veria pessoas, poetas, muito diferentes entre si. Tente me descrever como seria para você essa imagem (imaginária) e essa sensação de estar ali.

Ana Elisa Ribeiro – Vou embarcar nessa cena imaginária, nesta metáfora da sala cheia de gente diferente, e te dizer que vejo uma sala bem mais cheia de homens do que de moças. Éramos 12 de 45, então é claro que o papo tinha lá seus vieses. Bem, eu não conhecia nenhuma das minhas companheiras pessoalmente, mas conhecia uns caras, tipo o Joca Terron, que ainda era poeta, o Fabrício Carpinejar, que era muito diferente do que é hoje, o Frederico Barbosa, com quem trocava ideias, o Ricardo Aleixo, meu conterrâneo. Ouvia muito falar em vários e acompanhava o trabalho de alguns. O problema da representatividade feminina não me tocava, na época da antologia. Hoje toca mais. Mas hoje acho que essa sala seria diferente, é apenas uma suspeita. Sabemos que antologias são registros parciais de algum cenário. Quando fui convidada para esta, fiquei feliz. Ser visível fora do espaço onde estão concentrados os holofotes é uma proeza, até hoje. Mas não tinha muita noção de quem seriam os demais poetas e nem éramos o que somos agora, é claro. Hoje eu acho muito mais bacana ainda estar ao lado da Prisca Agustoni, do Tarso de Melo, da Cláudia Roquette-Pinto, do Marcos Siscar, mas vejo todos os nossos caminhos de modo muito diverso. Os holofotes continuam concentrados, embora a internet tenha avançado muito mais do que naquele início de década, favorecendo, em tese, uma dispersão que pouco aconteceu. Eu admirava alguns poetas desde antes, então achava até que deveriam estar em décadas – antológicas – diferentes. O Ricardo Aleixo, por exemplo, é uma referência para mim e produz desde muito antes, se não me engano. Do mesmo modo a Cláudia. Fico imaginando então uma sala com gente menos e mais experiente, gente que sequer olharia na minha cara e gente que não teria estômago para continuar até hoje, duas décadas depois.

Blog da Global – Como você compara a si mesma, como poeta, hoje e quando publicou o primeiro livro?

Ana Elisa Ribeiro – Publiquei meu primeiro livro no final de 1997, em uma coleção grande, organizada pelo Marcelo Dolabela e outros poetas. Eu já vinha publicando antes, em zines, jornais, revistas. E é bom lembrar que, na época, era tudo impresso. Conhecer as pessoas dependia de um esforço bem grande, assim como ter notícia das coisas em tempo real. Nem sei direito como eu fazia. A internet é que deu uma guinada nisso. Meu livro chamou-se Poesinha e foi o despertar, aquela coletânea de textos que saíram da gaveta. Tive a luxuosa ajuda da poeta e ensaísta Laís Corrêa de Araújo, mãe da Myriam Ávila, minha professora de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras da UFMG. Eu não tinha nem ideia do que significava isso! Naquela época, eu achava que publicar um livro seria mesmo lançar-me. Em alguma medida, foi. Conheci muita gente, vi meu nome citado sob a rubrica de “poeta” ou “escritora” e aí confiei um pouco mais no meu taco. Mas era tudo muito demorado, lento. Como ainda é, só que vivemos uma pressa meio maluca e uma “fama” ilusória, oca. Eu tinha paciência. Eu estava a fim de uma coisa que fosse duradoura na minha vida. Não tinha esse lance de virar celebridade. Então tinha uma ideia de que precisava me manter trabalhando, criando espaços. E eram poucos, menos do que hoje. Minha poesia era ainda sem muita identidade, embora minha expressão já nascesse ali, é claro. Republiquei alguns dos poemas desse primeiro livro agora e vejo que eram ingênuos, o que considero totalmente esperado. Continuo escrevendo com humor, ironia, sarcasmo, o que não é visto com bons olhos, talvez até tenha me estagnado ou me deixado à margem, em relação a uma poesia mais “aceita”. Não sei se é impressão minha. Hoje tenho feito uma poesia com uma voz que ainda estou testando. Depois daquele primeiro livro, publiquei mais cinco de poesia (e vários outros de crônica, conto, infantis, etc.). Correu água embaixo da ponte. Gosto mais do terceiro (Fresta por onde olhar), autoeditado, o mais orgânico, coerente. Estou com um novo livro na manga, mas paralisada por uma preguiça do cenário atual. Quando publiquei o primeiro livro, tinha uma certa serenidade pra desengavetar poemas e esperar alguma reação. Lançava livros a intervalos de cinco anos, o que hoje me parece muito. Há uma enxurrada qualquer que leva a gente, e nem sei se vale a pena. Hoje escrevo mais, com menos ingenuidade, e guardo muito mais textos. Hoje tenho mais noção do meu lugar, do meu espaço e do que preciso atravessar pra chegar a qualquer canto. Sou mais frustrada também, mas muito mais serena quanto a isso.

Blog da Global – Fale por favor de suas influências. Quais os poetas que a gente encontra ao longo do Roteiro, de décadas ou séculos anteriores, que te marcaram ou ainda marcam?

Ana Elisa Ribeiro – Minhas influências iniciais são muito escolares. Li muito Drummond, encantada com o fato de ele ser mineiro. Li Cecília Meireles, encantada com o fato de ela ser mulher. Li Adélia Prado, encantada com o fato de ela ser próxima, viva. Li muito Paulo Leminski, muito mesmo, até decorar, incorporar. Li, daí, Cacaso, Torquato e Chacal, porque era tipo uma trilha em que eu enxergava semelhanças e o tom deles me agradava. Conheci, nos anos 1990, vários livros de contemporâneos, como Carlito Azevedo (pirava na 7Letras, mas nunca consegui contato com eles), Joca Terron (que estava no primeiro livro ainda e tornou-se o editor da Ciência do Acidente, editora do meu segundo livro, o Perversa, de 2002), Ademir Assunção, Paulo Ferraz, etc. Ainda penso minha poesia muito na trilha do Leminski, mas acho que também já me distanciei. Leio alguns contemporâneos hoje e não me acho parecida com ninguém, embora eu pense que isso é difícil de discernir. Hoje eu leio muito menos poesia do que nos anos 1990.

Blog da Global – Uma velha pergunta de sempre renovadas e muito próprias respostas: o que é Poesia?

Ana Elisa Ribeiro – Participei de um livro do Edson Cruz (aliás, gosto da poesia dele) chamado O que é poesia?, publicado em 2009 pela editora Confraria do Vento, em parceria com a Calibán. Lá eu dizia uma coisa que ainda me ocorre que é aquela metáfora do clique, do zíper, da precisão, da diretividade. Num dia desses de 2016, vi uma postagem do escritor pernambucano Tadeu Sarmento sobre conto, romance e poesia. Ele dizia que o romance atira para todos os lados, o conto atira uma única vez e que a poesia é o alvo. Discordei prontamente: a poesia é a flecha. Na poesia você precisa ter uma intimidade com a língua/gem que outro gênero não precisa exigir. Poesia continua sendo, para mim, um exercício tipo quebra-cabeça, montagem, mesmo que não seja muito consciente, instrucional. Já vi gente dizer que não curte poesia que comunica, que gosta do lirismo descomedido, da palavra, da sonoridade. Conheço poetas que fazem bem isso. Mas eu confesso que leio sem muito interesse. Vou achando chato esse exercício da palavra pela palavra, para ouvir e ver como ela soa, para testá-la. Eu cá com meus botões prefiro que a poesia possa dizer. Que diga algo, que comunique, num bom sentido qualquer. E é engraçado porque essa é uma escolha que também faço no meu texto acadêmico, no meu trabalho. Eu adoro uma reação de leitor que compreendeu. Poesia pra mim precisa chegar lá no fundo dos olhos de alguém. Você divisa, lá dentro da pupila, um espanto: ah!

Saco sem fundo

Sim
algo como
me esconder de mim

fazer poesia
é me virar
ao avesso

constatar:
não tenho fim
nem começo

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