Poesia no cinema – Torquato Neto

Neste mês de março de 2018 chega aos cinemas o documentário Torquato Neto – todas as horas do fim, com direção de Eduardo Ades e Marcus Fernando. Tem muita significação o título do filme: é muito comum, quando se fala de Torquato, citar logo que foi o poeta do Tropicalismo que se matou em 1972. Mas é de todas as horas até o fim que se trata a história, é sobre a vida do poeta nascido no Piauí e que atuou fortemente além dos poemas, no cinema, na música e no jornalismo também. Mas é claro que na poesia é que se condensa a força criativa de Torquato, como se pode comprovar no recém-lançado Melhores poemas Torquato Neto (Global Editora). O documentário traz depoimentos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, diversas vozes importantes da cultura brasileira desde os anos 60. Entrevistamos os diretores, acompanhe:

A poeta polonesa Wislawa Szymborska, no discurso de recebimento do Nobel de Literatura de 1996, chega a dizer que os poetas levam a pior em comparação a músicos e pintores porque o cinema não se interessaria por eles, justo porque seu processo de criação seria insuportável de se filmar:Seu trabalho é irremediavelmente não fotogênico. O sujeito senta à mesa ou deita no sofá e olha fixamente a parede ou o teto, de quando em quando escreve sete versos, dos quais, depois de quinze minutos, risca um e de novo passa uma hora sem que nada aconteça… Que espectador aguentaria assistir a uma coisa assim?” Em um documentário, a coisa é diferente, ou o desafio é o mesmo da ficção – pelo menos como imaginava a poeta? 

Eduardo Ades – Eu ousaria discordar dela. Está claro que o ato da escrita é mesmo como ela descreve. Mas o processo criativo é muito mais do que isso: escrever, pensar, voltar à mesa, jogar fora, levantar, reescrever. O processo criativo envolve toda a nossa vida. Andar na rua, encontrar pessoas, comprar um peixe na feira, dormir – bem ou mal, pouco ou muito. Tudo isso nos afeta e vai pra dentro da criação – objetivamente ou não. No caso do Torquato, a gente percebeu o quanto vida e obra estavam mutuamente implicadas – talvez mais do que outros escritores. Ele coloca na sua poesia o que ele vive, assim como ele vive o que a poesia dele expressa. Assim, por exemplo, quando ele coloca no papel “Ligue o rádio, ponha discos, veja a paisagem, sinta o drama: você pode chamar isso tudo como bem quiser”, isso é indissociável da experiência do desbunde, da praia, das dunas do barato. E aí o que a gente procura trazer, numa cena como essas, não é o ato de sentar à máquina e escrever esse texto. É justamente a atmosfera da vida vivida. Aliás, nesse mesmo texto, “Cordiais saudações”, ele toca nesse assunto diretamente: “Estar bem vivo no meio das coisas é passar por elas e, de preferência, continuar passando”.

Quem na equipe do filme se afundou mais na pesquisa sobre Torquato Neto? Pode contar como foi a elaboração do roteiro?

Marcus Fernando – Quando procurei o Eduardo, eu já tinha um esboço de roteiro, mais cronológico, e já usando a obra dele pra contar a sua história. Mas ao longo do processo, como é comum em um documentário, a gente foi buscando outros caminhos juntos, sabendo que estávamos lidando com um personagem que precisava ser revelado ao espectador. Nesse caminho, ambos nos afundamos nessa pesquisa, lendo todo o material disponível e revirando o acervo dele em Teresina, com fotos, cartas, letras de música etc.

Como foi o trabalho de conseguir as imagens de Torquato? Eram fartas em arquivos? 

Eduardo Ades – A gente teve uma grata surpresa ao descobrir que o Arquivo Torquato Neto, em Teresina, gerido por George Mendes, tinha uma quantidade bastante significativa de fotos (além de textos e documentos). Inclusive da infância, o que parecia ainda mais improvável para uma criança nascida em 1944. Mas os pais de Torquato tinham uma condição confortável, para os padrões da época, e por isso temos fotos dele durante todas as fases de sua vida. Conseguimos ainda algumas outras com seu amigo João Rodolfo do Prado e poucas em coleções maiores. O problema maior não era, na realidade, com fotos, mas com imagens em movimento. Além de rápidas aparições em outros filmes curtos, o principal material audiovisual existente é o filme Nosferato no Brasil, do Ivan Cardoso, em que o Torquato faz o papel-título. Isso, sim, foi um grande desafio. Porque o personagem do Nosferato traz uma performance bastante específica, que nós não podemos utilizar para qualquer momento da sua vida. Foi por conta disso que optamos por utilizar trechos de outros filmes do período – Cinema Novo, Cinema Marginal, Super8 – abrindo mão de trazer a figura objetiva do Torquato, mas fazendo uma espécie de recriação da sua imaginação.

Mas, na verdade, ao longo de todo o período da pesquisa, o que mais nos intrigava era não existir registro de sua voz. Há mais de quarenta anos não se ouvia a voz de Torquato. Não havia sequer pistas. Foi a partir de uma reportagem, em que o Marcus falava dessa nossa busca, que o Vanderlei Cunha, um radialista gaúcho, soube do filme e lembrou-se que havia feito uma entrevista com Torquato no Festival da Canção de 1968. Foi logo atrás das antigas fitas de rolo e, felizmente, encontrou o material muito bem preservado.

Como você define o que foi o Tropicalismo/Tropicália?

Marcus Fernando – A Tropicália foi uma revolução cultural que partiu da música e se espalhou por várias manifestações artísticas. Um grande liquidificador que misturou a cultura pop brasileira e estrangeira, incorporou um referencial estético amplo, tratando a poesia de forma inovadora. Torquato escreveu um manifesto irônico chamado “Tropicalismo para principiantes”, que define muito bem o movimento que ele organizou com Caetano, Gil, Rogério Duarte, entre outros.

Qual sua relação com a poesia? Sempre leu? O que entende por poesia (aproximações possíveis sobre o que não tem uma definição, claro)? 

Eduardo Ades – Gosto muito de poesia. Certamente, os primeiros que eu li foram Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira – dois livrinhos infantis que ainda tenho: A arca de Noé e Berimbau. Depois me interessei muito por Drummond, Augusto dos Anjos, Arnaldo Antunes, Leminski. Agora estou conhecendo melhor Ana Cristina César. Mas não sou um leitor disciplinado de poesia. Já fui mais. É comum que eu pegue um livro e escolha um, dois ou três poemas aleatórios para ler. É bem raro que eu pegue um livro de poesia para ler do início ao fim. Me custa – ou talvez me proporcione – muito tempo e atenção a leitura de um poema. E acho que é esse o poder da poesia, de implodir a linguagem, como diria o Torquato. E, claro, explodir com ela.

Marcus Fernando – Sempre gostei de poesia: Drummond, Bandeira, João Cabral, Vinicius. Da geração do Torquato, nomes como Waly Salomão, Antonio Cícero, Leminski, Ana Cristina César. (Curiosamente os três primeiros transitaram também pelas letras de música.) A poética do Torquato, fora da produção musical, aquela que foi publicada só depois da sua morte, foi uma descoberta maior por conta do mergulho na pesquisa para o filme. Eu usaria o que o Gullar diz mais amplamente sobre a arte para a poesia: ela existe porque a vida não basta.

Quem era Torquato Neto para você antes desse trabalho e quem é Torquato Neto para você agora? 

Eduardo Ades – Torquato Neto era um nome que me causava curiosidade – assim como, eu imagino, para a maior parte das pessoas que assistirão ao filme. Eu sempre lia os encartes dos discos e o nome dele aparecia na música “Go back”, dos Titãs, que eu ouvia muito. Adolescente, conhecendo a Tropicália, o nome dele ressurgiu nos encartes dos CDs. E depois, nas parcerias com Jards Macalé. E volta e meia era citado em entrevistas por Caetano, Gil, Rogério Duarte, Macalé… Quando o Marcus veio com a ideia do filme, logo me interessei. Não sabia quem era Torquato, mas eu gostava de tudo o que eu conhecia dele – e certamente gostaria de conhecer mais. Não estava errado. Hoje, Torquato é, pra mim, uma enorme referência poética e de vida.

Marcus Fernando – Ele era um compositor, parceiro de Caetano e Gil, autor de belas letras. Depois de cinco anos de convivência quase diária com ele, virou um membro da família, um amigo. E, claro, com o conhecimento da obra que ele deixou, minha admiração se multiplicou.

Pode apontar um poema preferido seu na obra de Torquato Neto? 

Eduardo Ades –  “Literato cantabile” é, para mim, um dos pontos máximos da obra de Torquato:

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu agradeça a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
[…]

Marcus Fernando – Difícil escolha. Mas “Cogito”, que abre o filme, talvez seja o mais representativo, aquele que diz tudo sobre o Torquato em poucas palavras.

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível 

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

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