O camisa 10 da poesia do camisa 10 Wilberth Salgueiro

O futebol anda mudado. Mas a camisa 10 ainda tem seu significado. Talvez por causa de Lionel Messi (talvez apenas por ele hoje em dia), mas principalmente pela História do Futebol e da mítica de que esse é o número dos grandes craques – Pelé, Maradona, Zico, Zidane. Wilberth Salgueiro é um 10. Em campo e fora dele. Poeta que se expressa pela forma clássica dos sonetos, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, habilidoso jogador de futebol, uma potente luz sobre a poesia brasileira. Bith, como os amigos o chamam, lê poemas com profundidade e os despedaça em muitas partes para mostrar como são no todo. Realiza isso em suas aulas e também na coluna “Sob a pele das palavras” do jornal Rascunho. Ao fazer assim, ele ilumina cada questão, cada camada de possível significação dos mais aparentemente simples ou curtos poemas. Não é por acaso que um cara como ele, grau elevado de humildade colado a um elevado grau de conhecimento e talento, tivesse Manuel Bandeira como camisa 10 de sua seleção pessoal de poetas. “Tanto quanto Drummond, mas distintos, Bandeira é também claro enigma”, declara Bith nesta deliciosa entrevista, muito reveladora sobre Bandeira e a Poesia.

Blog da Global –  Você se lembra da primeira vez que leu Manuel Bandeira? Ou isso fica diluído no tempo, nas diversas releituras? Ainda assim, costuma haver um momento de uma espécie de epifania, paixão, quando somos sugados para a obra de alguém. Aconteceu isso com você no caso da obra do Bandeira?

Wilberth Salgueiro – Devo ter lido Bandeira no antigo ginásio, mas a lembrança nítida que tenho é já ou somente no segundo grau. Tive um professor de Português, o Agostinho (que era também professor na UFRJ), no colégio estadual, em Copacabana, que era fã do Bandeira – e do Millôr Fernandes. Isso foi no final dos anos 1970, tipo 1979, quando eu tinha uns 15 anos. Desde então, venho lendo e relendo Bandeira sempre com muito prazer. Sempre digo nas aulas e a amigos que Bandeira é meu poeta preferido do coração, e que Cabral (seu primo) o preferido da cabeça. (Entre os dois, a sombra onipresente de Drummond.) Bobagem, criancice – mas fica sendo.

Na graduação em Letras e depois nas pós, mas sobretudo como professor de literatura, meu contato com a obra dele foi constante e crescente. Um aspecto que sempre me chamou a atenção foi essa tão decantada nostalgia ou, noutros termos, o tema do ubi sunt. No caso de Bandeira, o que ressalta é que esse tema da infância, da rememoração, do que poderia ter sido e que não foi, da finitude comparece desde o primeiro livro. Em geral, o ubi sunt (aquilo que passou e não volta jamais) é um assunto de velhos, mas nele a “velhice” (que se confunde com a morte sempre pro dia seguinte, vide o sensibilíssimo verso “Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir”) está desde o livro inaugural, A cinza das horas.

Em Personecontos, em 2004, um livro meu de sonetos, há um exatamente com o título “Bandeira”, que brinca com alguns poemas do nosso recifense:

Acordou com ruídos, bem ao lado,
à esquerda, no canto da bicama.
Antonia, a namorada, viajara
pro sul, Argentina – trabalho e tango

(agente de turismo e ornitólogo:
par, diziam amigos, tão exótico).
Não pensou duas vezes: levantou-se
e zuniu a coberta, feito um show

de vã pirotecnia em breu sem público.
Nada viu, mas os tais pius persistiram:
estaria sonhando sons ao vivo?

Foi só de dia, abaixo do abajur,
que, flâmulas, notou as três vizinhas:
um belíssimo bando de andorinhas.

Blog da Global –  Lista, a sempre injusta mas irresistível lista: é possível escolher três poemas de Bandeira para o “Pódium Olímpico da Poesia”? Se pode, por que estes?

Wilberth Salgueiro – Difícil mesmo, mas adoro “Namorados”, “Porquinho-da-Índia” e “Os sapos” (e como deixar de fora “Arte de amar”, “Autorretrato”, “Irene no céu”, “O bicho”, “Mulheres”, “Poema tirado de uma notícia de jornal”, “Pneumotórax”, “Neologismo”, “Consoada”, “Vou-me embora para Pasárgada” etc. etc. etc., rs?). Em “Namorados”, elogiar a amada chamando-a de “lagarta listrada” é bom demais: é o amor sem mesmice. O porquinho-da-índia que só queria estar debaixo do fogão é outra imagem marcante: quem, criança, não teve seu platônico porquinho-da-índia? “Os sapos” é, como os demais poemas citados, obra-prima: a quadra “Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos.” é uma lição de poesia, pois é preciso obedecer ao poeta/poema e comer o hiato da palavra hiato para que o verso fique, como todos os outros do longo poema, uma redondilha menor. Com “Os sapos” se entende bem mais e melhor o que foi (ou não foi?) nosso modernismo.

Blog da Global –  Pela sua experiência como professor, pela linguagem muitas vezes coloquial que usou, a obra de Manuel Bandeira é uma porta generosa para convidar as pessoas aos desafios e prazeres da Poesia, de forma geral?

Wilberth Salgueiro – Com certeza, uma porta generosíssima. Há algo de intimidador no famosérrimo verso de Drummond: “trouxeste a chave?”. Em Bandeira, rola uma impressão que a porta fica entreaberta. É uma impressão, é claro. Tanto quanto Drummond, mas distintos, Bandeira é também claro enigma. Fez verso livre, soneto e outras formas fixas, traduziu com grandeza, foi simbolista, modernista e “concretista”. Uma palavra importante na poesia de Bandeira – a que Arrigucci em seu incontornável Humildade, paixão e morte deu a devida dimensão – é “desentranhar”: a coisa tá lá dentro, nas entranhas, parece difícil de captar, mas vem o danado do poeta e, de modo muito aparentemente simples, faz a coisa surgir. Isso, de fato, encanta e seduz, e deixa os leitores com aquela sensação gostosa (e perigosíssima também, diga-se) de que é fácil ser poeta.

Bandeira, para mim, meio que sintetiza um modo digamos equilibrado de ser poeta: na vida, agia com simplicidade e bom senso; escrevendo, também não faz barulho: é elegante e preciso. Em passagem gostosíssima de Itinerário de Pasárgada (que todo poeta deveria ler), Bandeira fala como o verso livre foi para ele “uma conquista difícil” e a seguir dá exemplos de como foi percebendo a presença desse tipo de verso em contextos surpreendentes, e arremata com estes versos que ele “desentranhou” de uma fórmula de preparados para pele:

Óleo de rícino
Óleo de amêndoas doces
Álcool de 90
Essência de rosas.

Há muito ainda a aprender com esse melancólico e bem-humorado “tísico profissional”, como ele mesmo se definiu em “Autorretrato”. Aprender, por exemplo, que só importa o lirismo que seja libertação. E que, mesmo diante do que parece iniludível, sempre há um tango argentino à nossa espera.

* Leia aqui a coluna sob a pele das palavras em que Wilberth Salgueiro ilumina o poema “O bicho”, de Manuel Bandeira.

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