Milton Hatoum fala sobre Thiago de Mello

Os dois são amazonenses. Thiago de Mello, um dos mais influentes poetas do Brasil, nasceu em Barreirinhas, em 1926. Milton Hatoum, romancista consagrado, nasceu em Manaus, em 1952 – um ano depois da publicação do primeiro livro de Thiago, Silêncio e palavra. Ligados pela amizade, pelo rio Negro, pela floresta amazônica, pela admiração mútua, expressada tanto nesta entrevista de Milton, quanto no poema Lucidez e devaneio, que está no livro Acerto de contas, de Thiago de Mello (Global Editora). O poema, reproduzido ao fim da entrevista, é composto a partir de trechos colhidos de Relato de um certo Oriente (Companhia das Letras), publicado em 1989, romance de estreia de Hatoum. Os olhos tão apurados do poeta detectaram na prosa, como flores raras no meio da mata, frases impregnadas de poesia, e então as dispôs em versos. Nas estrofes finais, essa colheita é celebrada com ênfase: “e contente me dou conta/ de que ao recompor o poema/ eu simplesmente/ moldava,/ modulava a melodia/ que tanto e em vão procurava/ desde o sol da minha infância”. Vale lembrar que vinte anos antes do primeiro romance, Hatoum publicou, em edição de autor, um livro de poesia chamado Amazonas: palavras e imagens de um rio entre ruínas (informação publicada na edição número 1 da revista Babel, em janeiro de 2000).

Blog da Global – Qual sua mais antiga lembrança de Thiago de Mello? Ele era um nome presente em Manaus, em sua juventude, por exemplo? Como foi que tomou contato com a obra dele; que impressões teve, então?

Milton Hatoum – Sim, Thiago já era uma pessoa conhecida na minha juventude manauara. Depois, quando vim morar em São Paulo, li a poesia dele, o que ele tinha escrito até então. Isso foi no começo da década de 1970, quando Thiago estava exilado no Chile e era amigo de Pablo Neruda e de outros grandes poetas brasileiros e hispano-americanos. Aliás, ele me contou ótimos lances sobre o Neruda.

Blog da Global – No livro Acerto de contas, Thiago de Mello compõe um poema, chamado Lucidez e devaneio, em que usa trechos de seu romance Relato de um certo oriente. Esse encontro entre as obras revela que vocês têm visões e sentimentos semelhantes sobre o Amazonas? Ou é um encontro de outra natureza?

Milton Hatoum – Antes de mais nada, é preciso ressaltar a generosidade do Thiago, que me deu muita força quando publiquei o Relato de um certo Oriente. Ele sempre fala desse romance com admiração, memorizou passagens do livro, sabe mais do Relato do que eu. O poema Lucidez e devaneio é muito bonito, muito trabalhado, Thiago fez várias versões desse texto. É um poema autônomo, pois não depende da leitura do romance. Não deixa de ser uma tradução. E é preciso lembrar que Thiago traduziu grandes poetas hispano-americanos. Fiquei contente e emocionado quando o li o poema.  É uma homenagem ao romance, à poesia e à nossa amizade. Mas compartilhamos outras coisas: o amor pela floresta e seus rios, nossa admiração e respeito pelos povos indígenas e sua cultura; o amor por Manaus, que foi uma cidade belíssima, projetada em harmonia com a natureza, muito diferente da Manaus atual. Apoiamos também a Expedição Vagalume, uma ONG que faz um maravilhoso trabalho de educação, formação de leitores e implantação de bibliotecas infanto-juvenis nas comunidades amazônicas.

Blog da Global – Faz bem ao romancista ler poesia?

Milton Hatoum – Acho que todo romancista lê poesia e textos dramáticos, de teatro. Alguns dos grandes romances foram escritos com uma forte densidade poética. É difícil separar a poesia da prosa num livro como Grande sertão: veredas, ou em várias passagens de Pedro Páramo e Lavoura arcaica. A poesia é a arte mais concisa e talvez a mais complexa. É muito difícil sintetizar tantas relações simbólicas e tantos sentimentos em poucas palavras.

Lucidez e devaneio
Thiago de Mello

Contente de antigo enleio,
meigo e longo como o seio
da linha de um banda de asa,
leio e releio o Relato,
que aconchega lucidez
e devaneio e me ensina
porque Milton ao mundo veio.

Para cumprir sua dura
e doce destinação,
bem servida pelo dom
e labor da contação:
é quando a palavra ganha
poder de sonho e de ação.

Só assim é que Milton pôde
abrir porões, farejar
encantos e sortilégios,
desventuras de azulejos
e desvelar os segredos
de conversas de calçadas,
desvelos de vizinhanças,
a atração de águas escuras,
amores e dissabores
da cidade que me fez.

O Relato lembra prendas:
a flor lilás de um jambeiro,
a descoberta da fala,
um cabo de narguilé,
vinte e oito casas lunares
onde habitam o alfabeto,
o homem na plenitude,
as goivas e cimitarras,
a pérola protegendo
o instante em que Deus criou
as orquídeas, alimárias,
a vida urdida no Líbano
empilhada sobre a sombra
do pêndulo do relógio.

Ler é saber: a floresta
e a cidade, duas mentiras
separadas pelo rio.
O paraíso se encontra
no dorso dos alazães,
nas páginas de algum livro,
te espera por entre os seios
de uma mulher. Essas coisas.

Mas no furor das golfadas
do vento eterno, no aviso
de mil bocas das metáforas,
na indecisão dos pretéritos
mais que perfeitos, na fala
dos silêncios, no rumor
noturno por sobre as águas,
no cupim da ostentação,
num amálgama de enigmas
e na perversão urbana
de certo oriente
a contação já revela
a Manaus que se desfez.

Tomo o peso de cada sílaba,
apalpo a música dos fonemas,
cheiro a cor do pôr do sol
escondido nos vocábulos
e contente me dou conta
de que ao recompor o poema
eu simplesmente

moldava,
modulava a melodia
que tanto e em vão procurava
desde o sol da minha infância.

* Os versos em itálico são redondilhas encantadas
que recolhi do Relato de um Certo Oriente,
romance do amazonense Milton Hatoum.

 

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