Buscam-se interpretações para Gilberto Freyre

Por / 7 meses atrás / Entrevistas / Nenhum Comentário

Está aberta a temporada de caça a novas visões sobre a extensa e fundamental obra de Gilberto Freyre. O pensador, que tem seus principais livros publicados pela Global Editora e inspira cada vez mais abordagens na Academia, é tema da 6ª edição do Concurso Nacional de Ensaios, promovido em parceria entre a Fundação Gilberto Freyre e a Global Editora. Os autores têm até o dia 31 de dezembro desse ano para inscrever seus trabalhos. O vencedor receberá R$ 20 mil e terá seu ensaio publicado. Nesta entrevista, o historiador Gustavo Tuna, gerente editorial da Global, e ele próprio um especialista no autor, com a dissertação de mestrado na Unicamp Viagens e viajantes em Gilberto Freyre (2003), dá a dimensão e o contexto da obra tanto nos dias de hoje e como na primeira metade do século 20, quando foi escrita.

Blog da Global –  Sobre os cinco concursos que já foram realizados, que diferentes aspectos da obra de Gilberto Freyre foram iluminados pelos ensaios vencedores?

Gustavo Tuna – Na primeira edição do Concurso, o ensaio premiado foi o da socióloga Élide Rugai Bastos. Professora da Unicamp e grande especialista na obra de Freyre, Élide apresentou em sua tese de doutorado – que deu origem ao livro As criaturas de Prometeu (Global Editora) – uma ampla e aprofundada análise dos principais conceitos desenvolvidos por Freyre para interpretar a formação brasileira. As outras edições do concurso premiaram trabalhos que abordaram segmentos específicos da obra do sociólogo pernambucano como seus estudos no campo da arquitetura e acerca das heranças semitas na formação ibérica. Somente a partir desses breves exemplos podemos ter uma noção aproximada de como Freyre tinha um leque de interesses bastante variado.

Blog da Global – Você percebe que a obra de Gilberto Freyre é cada vez mais presente no meio acadêmico?

Gustavo Tuna – Ela só vem revigorando sua força. Percebo que os livros de Freyre estão integrando não somente os cursos de Ciências Sociais e História, como também entraram com tudo nas faculdades de Economia, de Letras e de Jornalismo. A crítica acerca de seu conservadorismo se esgotou. O próprio público acadêmico entendeu que era necessário avançar na análise de seu pensamento, visando produzir uma leitura mais generosa a seu respeito. Não se mostrou produtiva a tentativa de posicionar Freyre como um pensador que parou no tempo, destinado a ser superado por novas gerações de intelectuais.

É importante termos em mente alguns parâmetros: nos anos 1920 e 1930, quando Freyre iniciou seus trabalhos juntamente com outros de sua geração como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr., o caminho seguido foi o de confeccionar radiografias amplas da formação brasileira. Nos dias de hoje, o trabalho intelectual é de outra ordem, estamos num contexto histórico completamente diverso daquele. As universidades se consolidaram, a pesquisa no campo das ciências humanas se aperfeiçoou e se tornou altamente especializada.

Blog da Global –  Você mesmo é autor de uma dissertação de mestrado sobre Gilberto Freyre. Percebe que ainda há muito o que se explorar na obra dele, apesar de tanto já se ter dito? O quê, por exemplo?

Gustavo Tuna – Ao procurar um tema para realizar o mestrado em História na Unicamp, verifiquei que havia muito a ser compreendido a respeito do modo pelo qual Freyre utilizou os livros de viajantes estrangeiros, que foram, segundo ele, suas fontes principais. E essa presença constante dos relatos dos que nos visitaram entre os séculos XVI e XIX pode ser mesmo vista tanto em  Casa-grande & senzala (1933) como em seus livros posteriores. Interessou-me perceber como Freyre se apropriava dos textos dos viajantes, utilizando-os de forma “criativa” para fundamentar teses sobre a escravidão de africanos e indígenas que ele desejava comprovar. Ao mesmo tempo, ao longo da pesquisa, realcei a dimensão de viajante do próprio Freyre, dando destaque para a importância de suas estadas em outros lugares, como o sul dos Estados Unidos, para a confecção de sua peculiar interpretação da formação histórica brasileira. Sem dúvida, ainda há muito ser investigado em seus textos. Freyre escreveu sobre uma infinidade de temas, desde vestuário até a engenharia. Curioso perceber que muitas reflexões dele sobre esses campos profissionais têm sido retomadas nos últimos tempos.

Blog da Global –  Este é um concurso de ensaios. Entende-se por ensaio um gênero mais generoso, que permite, além das questões fundamentadas academicamente, espaço para as impressões e intuições do autor. Em que medida isso é verdadeiro e até desejável? A própria obra de Freyre é mais próxima do ensaio, como gênero?

Gustavo Tuna – Sem dúvida, boa parte dos livros de Freyre estão inseridos no gênero ensaístico. No entanto, trata-se um modelo de ensaio diferentemente de outros produzidos na América Latina. Refiro-me, por exemplo, a Facundo, de Domingos Faustino Sarmiento, livro de 1845 que, ao operar simultaneamente com um discurso literário e com substratos histórico-sociais, consolidou-se como uma síntese da Argentina, das populações que fizeram parte de seu desenvolvimento como nação. Nesse sentido, Facundo é mais marcado por um certa dose de impressionismo. Quem se debruça sobre Casa-grande & senzala, por exemplo, tem em mãos um outro tipo de reflexão. Ainda que lance mão de recursos literários, Freyre concebe Casa-grande trazendo um forte alicerce de conceitos antropológicos e uma alentada pesquisa de documentos históricos para embasar o que escreve. Fico tentando imaginar como deve ter sido para o público leitor brasileiro receber um livro com tantas referências bibliográficas e tamanha reflexão teórica. É importante lembrar que Casa-grande & senzala foi publicado em 1933, quando não existiam no Brasil cursos em nível superior de Ciências Sociais ou História.

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