Atitude e lirismo de Cecília Meireles, em Poemas de viagens

Por / 3 meses atrás / Entrevistas / Nenhum Comentário

A professora doutora Luiza Lobo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mergulha há muito tempo na obra de Cecília Meireles. Em 1984, publicou estudo sobre o Romanceiro da Inconfidência. Mas a vivência vem de antes, tempos de escola, como conta na entrevista que concedeu ao Blog da Global: “Não aprendíamos português com livros de textos escritos com fins didáticos, sem qualquer beleza, interesse ou imaginação, para ‘facilitar’ a compreensão do aluno. No Brasil, a linguística recente rejeita a escrita de escritores, como se fosse um idioleto. Mas, se alguém começa a ler e se interessar por literatura através das belas palavras de Cecília Meireles, será capaz de ler com a maior facilidade uma bula de remédio. Literatura era parte de nossa vida no cotidiano.” Luiza Lobo, em 2017, assina a apresentação do livro Poemas de viagens (Global Editora), com duas décadas de textos, diferentes fases e viagens da poeta pelo mundo todo. Um livro de muitas camadas de significação. E, nesse sentido, uma das leituras possíveis e propostas pela especialista é pelo feminismo, segundo ela realizado por Cecília justamente por ter se tornado uma viajante.

Blog da Global – As viagens parecem ter sido parte de Cecília Meireles como braços, como olhos. Ela escreveu livros de poesia a partir de viagens e também muitas crônicas (reunidas em publicação recente da Global Editora, nos três volumes de Crônicas de viagem). Em sua apresentação do livro Poemas de viagens, você sustenta que essa ligação é uma forma de feminismo. As viagens, então, não eram só curiosidade e diversão?

Luiza Lobo – As viagens de Cecília Meireles sempre foram motivo de trabalho e aquisição de mais conhecimento. Europa, Estados Unidos, México, Uruguai, Argentina, Israel e Índia foram tema de sua poesia. Nos Estados Unidos, por exemplo, lecionou na Universidade do Texas. Viajou diversas vezes a Portugal, em companhia do primeiro marido, o pintor português Fernando Correia Dias. Ali sempre aproveitava a viagem para se reunir com personalidades importantes. Infelizmente Fernando Pessoa não compareceu a um encontro no bar A Brasileira, no Chiado – afirmam que por ter descoberto no seu horóscopo que o dia não era favorável a sair de casa… o que pode ser lenda. Após o suicídio do marido, casou-se com o professor Heitor Grillo em 1940 e fez diversas viagens por todo o mundo. Em Poemas de viagens (1940-1964) temos uma mostra de como nos Estados Unidos aproveitou sua estada quando descrevem o multiculturalismo de Nova Orleans. Diversos poemas desse livro, assim como de Viagem (1939), prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, e Poemas escritos na Índia (1953), mostram sua apreciação estética e cultural dos locais então conhecidos. Creio mesmo que o ponto alto de suas viagens foi a que empreendeu à Índia, quando foi recebida, em Goa, no primeiro Templo e recebeu, na Universidade de Délhi, o prestigioso título de doutora honoris causa das mãos do presidente do país.

Assim, baseada em Irma Garcia, que em Promenades femmilières nos fala da experiência da viagem imaginária como forma de libertação para várias escritoras que despontaram com grande força no século passado, inclusive Clarice Lispector – vemos que Cecília Meireles não se limitou a imaginar a viagem, mas realizou-a. Várias foram as escritoras que utilizaram a viagem como metáfora de libertação, como Virginia Woolf, com seu primeiro romance, The voyage out, e principalmente em Orlando, Sylvia Plath (emigrada para a Inglaterra), ou Sonia Coutinho (cujas personagens se deslocam constantemente entre Rio de Janeiro e Salvador), entre tantas outras. Creio que as viagens são uma forma de incorporar o “vasto mundo” masculino dentro da esfera do eu, um “mínimo eu” feminino que ainda estava encerrado, naquela época, numa casa que ainda não tinha um “escritório próprio”. Cecília Meireles se consagrou em vida, tendo sido considerada por muitos críticos a maior poetisa brasileira do século XX.

Para ela, as viagens significaram um ato de afirmação feminista, de estudo, trabalho e de enriquecimento pessoal e cultural, na vida e na arte – ou, como querem alguns atualmente, foram um instrumento de empoderamento feminista.

Blog da Global – Os poemas são dispostos nesse livro em ordem cronológica, desde 1940 até 1964, ano em que Cecília morre. Essa ordem do livro é representativa das fases da poesia dela?

Luiza Lobo – As viagens estão retratadas nesse livro, Poemas de viagens, de forma cronológica, no entanto essas mesmas viagens são retratadas em poemas de outras obras poéticas, como as que citei acima. Podemos ver, assim, um forte elo entre vida e obra, mas creio que para se compreender o vasto universo da obra de Cecília Meireles seria necessário ir além de uma só obra, tomar grupos de livros de cada fase, desde o primeiro momento, mais próximo da versificação clássica, passando pelo Romanceiro da Inconfidência, até chegarmos a essas obras sobre viagens, que considero espelharem a plena maturidade da artista, realmente a sua entrada no Modernismo, afastando-se do Neossimbolismo do início da carreira.

Blog da Global – Pode parecer papo de vendedor da Global, mas soa bem interessante fazer a leitura de Poemas de viagens em combinação com Crônicas de viagem, ver como ela se expressa de maneiras diferentes a partir do mesmo olhar para o mundo. Ou seria o contrário: bom não misturar os gêneros?

Luiza Lobo – A crônica já foi, no mundo antigo, a única forma de história existente, como vemos em Heródoto, que as aumentou com sua imaginação criadora, nem sempre respeitando os fatos da realidade, mas sempre se voltando para ela. Já nas crônicas de reis de Portugal e da Inglaterra, vemos um alinhavar de fatos sem fim, de fundo encomiástico – uma verdadeira história dos vencedores, sem levar em conta o cotidiano do povo, os vencidos. O que chamamos de crônica no Brasil – no terceiro Modernismo, após 1950 até os anos 1990, principalmente nos jornais do Rio de Janeiro, destacando-se as colunas literárias do “Caderno B” do Jornal do Brasil – é um gênero leve, pessoal, cotidiano, vivo e interessante, próximo da literatura e ligado ao humor. Tivemos cronistas memoráveis, entre os quais Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende – e os autores maiores, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. A coluna desta, no Jornal do Brasil, se compunha mais de minicontos que propriamente crônicas, apesar de terem um pé no cotidiano. Essas literocrônicas, escritas entre 1967 e 1973 (ainda numa máquina de escrever manual), foram reunidas no belo livro A descoberta do mundo (1984; há novas edições). Nestas, raramente Lispector se afasta do eu lírico próprio do poético, mas empregando a prosa para se debruçar sobre a mimese prosaica ligada a questões da realidade exterior.

Viúva, mãe de três filhas, Cecília Meireles foi grande cronista, publicou intensamente para complementar a manutenção da casa, pois era professora primária. Suas crônicas eram feitas com o olhar de educadora e folclorista, jornalista e também com interesse político ou nos faits divers. A ênfase era na descrição em prosa, o olhar sobre o outro, o externo, não na narração, a visão íntima e pessoal do eu subjetivo, como diferencia Lukács. A descrição tem ênfase na metonímia, a narração tem ênfase na metáfora. Suas crônicas de viagem sempre terão as características da prosa e da crônica, em oposição à leveza livre e imaginativa da poesia. Trata-se de dois gêneros distintos. Eu diria que, no caso de Cecília Meireles, há uma divisão bastante nítida em seu fazer no jornal e na crônica, com uma linguagem própria a esse tipo de discurso retórico, e sua criação poética, em que remontou ao fundo de seu eu lírico, sua imaginação pessoal e lembranças arcaicas da infância e do versejar açoriano, num ritmo e rima próprios e metafóricos, bastante originais na poesia brasileira.

Blog da Global – Conte por favor sua história com a obra de Cecília Meireles. Lembra de quando a leu pela primeira vez? Ou de quando se encantou (muitas vezes não nos encantamos na primeira leitura, né)?

Luiza Lobo – Nos tempos antigos em que eu frequentava o colégio, nós estudávamos língua e literatura através de grandes autores – recitávamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, líamos versos de Fernando Pessoa e de Cecília Meireles. Não aprendíamos português com livros de textos escritos com fins didáticos, sem qualquer beleza, interesse ou imaginação, para “facilitar” a compreensão do aluno. No Brasil, a linguística recente rejeita a escrita de escritores, como se fosse um idioleto. Mas, se alguém começa a ler e se interessar por literatura através das belas palavras de Cecília Meireles, será capaz de ler com a maior facilidade uma bula de remédio. Literatura era parte de nossa vida no cotidiano.

Em 1984 publiquei “O Romanceiro da Inconfidência e seu comprometimento ideológico”, no livro Perspectivas I, do Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ (p. 109-115), em que eu cobrava de Cecília uma figura de Tiradentes mais radical, mais revolucionária. Ali encontrei um Tiradentes comparado a Jesus Cristo, e os outros inconfidentes sutilmente vistos como apóstolos. Sabedora da seriedade de Cecília, que chegou a morar um ano numa casa do largo do Boticário, no Cosme Velho, alugada pelo governo do Rio de Janeiro, para “sentir-se no ambiente” de Vila Rica, depois Ouro Preto, no período colonial, decidi não incorporar o ensaio em meu Crítica sem juízo (2.ed. Garamond, CNPq, 2007). Ela é uma das 38 escritoras que estudo em Guia de escritoras da literatura brasileira (EdUERJ, Faperj, 2006). Existe na figura de Cecília Meireles essa forte capacidade de unir o intelectual ao emotivo, de forma natural. Ela foi autêntica em tudo o que escreveu, e não se pode exigir do escritor o que não é. O Romanceiro vale por sua excelência técnica e recuperação histórica, pela riqueza de rima e métrica, e é um dos mais valiosos poemas sobre a história do Brasil que temos nas nossas letras. Nunca se termina de ler, estudar e se comover com Cecília.

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