A grande viagem de Cecília Meireles pela crônica

Sim, há muita Cecília Meireles a se conhecer e aprofundar: a poeta e a cronista, que a Global Editora tem publicado em novíssimas edições, por ser ela tão fundamental. Em recentes lançamentos, Crônicas de viagem e Poemas de viagens, sobressai esse lado muito relevante na trajetória de Cecília, de recontar o mundo através de sua sensibilidade. É sobre isso a entrevista que o Blog da Global fez com o professor doutor Luís Antônio Contatori Romano, da Universidade do Sul e Sudeste do Pará. Mestre e Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, fez pós-doutorado sobre as crônicas de viagens de Cecília.

Blog da Global – Professor, Crônicas de viagem são um gostoso passeio pelo mundo no século passado ou são um aprofundamento das questões do mundo no século XX, pelos olhos de Cecília Meireles?

Luís Contatori Romano – Não penso que, ao escrever crônicas de viagem, Cecília Meireles tivesse intenção de aprofundar questões do século XX, que envolvessem, por exemplo, os dramas das guerras mundiais ou a ditadura Vargas no Brasil. Ela era pacifista e cosmopolita, e as crônicas parecem mesmo um registro de impressões pessoais, com muito lirismo, de diferentes culturas, de obras de arte, paisagens, pessoas. A preocupação em aprofundar questões sociais, principalmente relacionadas ao problema da educação no Brasil, aparece sobretudo em suas crônicas de educação, a partir da década de 1930.

Penso que as crônicas de viagem revelam um olhar muito singular de Cecília Meireles sobre os objetos artísticos, os monumentos históricos, as paisagens e as diferenças de costumes que ela encontra nos lugares que percorre. Tenho mesmo a impressão de que o encontro com os objetos artísticos, ao passear por Veneza, Florença, Roma ou nos museus de Paris, é uma forma de encontro com uma espécie de “mundo ideal”. A Grande Arte parece-me que materializa as ideias platônicas nas crônicas de viagem.

Cecília registra, às vezes, passeios muito breves, como os que faz em San Gimignano ou em Florença, mas que revelam uma concentração do olhar, um olhar muito preparado, erudito e curioso, que adensa as impressões de viagem. Ela faz dialogar com o objeto contemplado uma série de informações prévias, que encontrou em leituras ou em outras viagens, e que dão densidade aos seus textos. Por exemplo, ao lermos a crônica “Uma hora em San Gimignano” temos a impressão de que ela ficou muito tempo na pequena cidade medieval da Toscana, tal o detalhamento de impressões e de informações, mas como o próprio título indica, foi apenas uma hora! E essa densidade do olhar ceciliano, expresso de maneira suave e lírica, parece aproximar seus textos do que passou a ser conhecido como hipertexto, como se ao aludir a informações sobre os lugares ela despertasse a curiosidade no leitor.

Essa singularidade do olhar da viajante Cecília Meireles a faz se deter, por exemplo, em títulos de velhos livros na Feira da Ladra em Lisboa, em velhas receitas de cozinha, coisas que passam despercebidas ao olhar do turista apressado… imaginar o movimento de pessoas por Pompeia, às vésperas da erupção que sufocou e soterrou a cidade, o que supõe referências prévias sobre o lugar… ou, em crônicas sobre os museus de Paris, imaginar os sons da mastigação dos nobres à mesa, das sedas das mulheres ao descer as escadas no tempo em que o Louvre foi um palácio… Tudo cuidadosamente escrito com riqueza de recursos sonoros, sinestésicos, metafóricos… além de muitas referências intertextuais, às vezes apenas aludidas, elípticas. Essa singularidade do olhar ceciliano faz suas crônicas permanecerem e encantarem o leitor muito além da época em que foram escritas e publicadas em jornais.

Informações sobre Florença, os museus de Paris, Amsterdã, Lisboa, Veneza ou a Índia hoje podem ser encontradas em muitas publicações sobre turismo ou na internet, pode-se passear por essas cidades, por grandes museus… virtualmente. Não é o caráter informativo que faz com que as crônicas cecilianas ainda tenham valor, mas a maneira particular de observar as coisas e registrar poeticamente essas impressões.

Blog da Global – Suas pesquisas de mestrado e doutorado tratam de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Que ponte é essa que cruzou para chegar aos estudos de Cecília? Que conexões podem ser feitas entre o casal e a poeta?

Luís Contatori Romano – Bem, quanto a minha trajetória acadêmica, é difícil explicar essa travessia de Sartre e Simone de Beauvoir para Cecília Meireles. Talvez o que eles tenham em comum seja o gosto pela viagem, todos eles viajaram muito e todos gostavam especialmente da Itália. Em certo sentido, meu trabalho de doutorado, que resultou na publicação de A viagem de Sartre e Simone de Beauvoir pelo Brasil em 1960, em 2002, também trata do tema da viagem, só que, nessa pesquisa, de uma perspectiva mais política e ideológica, da recepção do casal de intelectuais no Brasil em 1960. Já o que me levou a Cecília Meireles foi o gosto pela viagem e o interesse despertado pela literatura de viagens, o que devo, em grande parte, ao meu orientador de mestrado e doutorado, Prof. Luiz Dantas, e a Ellen Spielmann, quando frequentei como ouvinte uma disciplina de literatura de viagens, ministrada por ela na Unicamp. Então, voltei-me, a partir de Cecília Meireles, para reflexões sobre o lugar da literatura de viagens no mundo contemporâneo, na era do turismo.

Blog da Global – Cecília tratou das viagens tanto em crônica quanto na poesia, fartamente. Às vezes as crônicas são carregadas de lirismo, às vezes os poemas têm alguma objetividade e descrição. O que dizem a nós, hoje, leitores e pesquisadores, essas formas diferentes de se expressar literariamente a partir do mesmo olhar, das mesmas vivências?

Luís Contatori Romano – Principalmente nas Crônicas de viagem, há um trânsito constante entre linguagem prosaica e poética. Imagino que as crônicas foram textos que Cecília escrevia mais ao calor da hora, sem tanta preocupação com a elaboração da linguagem, pois muitas delas foram feitas para enviar aos jornais, mas, ainda nessas condições, as marcas poéticas são evidentes nesses textos em prosa. Também Rubem Braga, outro cronista de que gosto muito e que também tem registros de viagem, tem essa linguagem altamente lírica. A crônica, como sabemos, é um texto híbrido, sua natureza permite esse lirismo. Em Poemas de viagens, sobre a Itália, sobre a Índia, por outro lado, há muitas vezes um tom prosaico, quase narrativo, como se a poesia perdesse um pouco da fluidez que é característica de Cecília Meireles e os contornos das coisas ficassem mais nítidos. Por exemplo, quando descreve o busto do “ignoto romano” e o público que pouco se detém em observá-lo, ou quando tematiza os mendigos na Índia. Há contornos nítidos, as coisas vistas ganham certa materialidade nesses poemas.

Blog da Global – Para terminar, qual crônica de viagem de Cecília que mais o encanta?

Luís Contatori Romano – São muitas as crônicas de Cecília de que gosto, por exemplo, as crônicas sobre a Holanda, em que há muita intertextualidade implícita com a pintura flamenga, vejo muito Vermeer ali; “Meus ‘Orientes’”, que é memorialística e fala da gênese de sua atração pela Índia e pelo Oriente, mas acho que as que mais gosto mesmo são sobre a Itália, talvez porque eu também goste demais de viajar pela Itália. Especialmente de “Cidade líquida”, em que Cecília registra um dia em Veneza, mas são tão sonoras suas impressões durante o passeio de gôndola pelas águas do Grande Canal, tão marcantes suas impressões sobre a arquitetura da cidade… tão fluida sua escrita, que me faz viajar com ela por Veneza. E olhe que Veneza nem está entre as cidades que mais me atraem na Europa ou mesmo na Itália.

Comentário

  • Gleisia Carneiro de Souza Albuquerque14. fev, 2017

    Ótima entrevista!
    É sempre bom poder se deliciar com temas dessa natureza, poder ler os apontamentos de alguém habilitado
    academicamente, como é o caso do meu estimado professor doutor Luís Romano, tratando da escrita de Cecília Meireles através de um diálogo claro e instrutivo.
    Vê-se através da fala do professor a relevância da escritora Cecília Meireles e de sua obra para a literatura, já
    que esta em seus textos, em suas crônicas de viagens se voltou para um olhar que ultrapassou aspectos
    superficiais da linguagem. Cecília denotou a distinção do ser turista e do ser viajante ao se ater a aspectos da
    viajem que passam despercebidos aos olhos apressados, produzindo obras que refletem de forma sensível sobre o homem, a sociedade, a vida, a morte e também o tempo. Sobrepujou a inconsistência da vida e dos fatos ao
    reter suas impressões através da tessitura de seus textos.
    Assim, sabendo da força literária da escrita ceciliana, esta entrevista veio para reafirmar a importância dos seus
    textos e a necessidade de se seguir pesquisando e se deleitando em suas obras.

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