Arqueologia Global: uma entrevista com Lady Shakespeare para o velho Nicolau

Nicolau apresenta assim sua entrevistada na edição de agosto de 1994: “O nome do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616) tem uma versão em português. É o da crítica de teatro do jornal O Globo, Bárbara Heliodora Carneiro de Mendonça, considerada a melhor de sua categoria profissional em atividade no Brasil.”

Nicolau foi um suplemento cultural editado no Paraná entre os anos 80 e 90, dirigido por Wilson Bueno, que contou com alguns dos principais escritores e poetas da época como colaboradores.

Heliodora no Nicolau_post

Nesta edição, em que Nicolau chama Bárbara Heliodora de Lady Shakespeare, porque assim era conhecida no meio teatral, o jornalista Carlos Tautz faz a ela perguntas sobre o dramaturgo inglês e suas adaptações e encenações no Brasil. Aqui, reproduzimos algumas, que hoje ajudam a iluminar questões para os leitores do Teatro Completo de Shakespeare, com tradução de Bárbara Heliodora, publicado numa caixa em três volumes pela Nova Aguilar, do Grupo Editorial Global.

Nicolau – Quem mais exerceu influência sobre a obra de Shakespeare? A igreja, Maquiavel…?

Bárbara – Maquiavel, um pouco, de forma não muito difundida, porque Maquiavel só foi publicado em inglês bem mais tarde. Acredito que Shakespeare deva ter tido acesso a alguma versão anterior. Entretanto, a maior visão sobre Maquiavel, principalmente por intermédio de Christopher Mallow, foi influenciada por uma variante muito estranha, publicada na França, o Le Contre-Machiavel. A interpretação que se tinha dele era a do monstro, do tirano, de onde surgiu a expressão “maquiavelismo”. Qual era a intenção de Maquiavel quando escreveu O Príncipe? Naquele momento, a Itália estava esfacelada em principados, ducados e, portanto, muito vulnerável a invasões e domínios estrangeiros. Em essência, o príncipe seria o líder de seu povo, comandando um exército de cidadãos interessados em defender sua pátria. Isso em lugar dos mercenários, muito comuns na época  – o inimigo oferecia mais dinheiro e eles passavam para o outro lado. No segundo Henrique IV, Shakespeare matou a charada e entendeu a proposta de Maquiavel: o príncipe não deve sistematicamente quebrar a palavra; mas, se o inimigo quebra a palavra, ou quando isso traz algum benefício, ele não precisa dizer a verdade…

Nicolau – Na sua avaliação, a obra de Shakespeare era popular em seu tempo?

Bárbara – Muito popular. Aliás, continua sendo. E o importante é que a montagem não precisa ser maravilhosa, mas, desde que seja lúcida, é um autor que qualquer plateia entende. É claro que se podem perceber mais implicações, apreciar mais a poesia, mas não acredito que, numa montagem razoável, alguém saia do teatro dizendo “não entendi”. Shakespeare escreveu para uma Londres que tinha 300 mil habitantes e um teatro de dois mil lugares, frequentado por um corte transverso da sociedade: ia todo mundo. A obra de Shakespeare não tende para grandes passagens abstratas, sua expressão é toda em termos da ação. Tem também reflexão, mas que, ligada à ação, permite um acesso real ao que está sendo dito, ao conteúdo, porque a ação ajuda o entendimento. Pode ser que nenhum de nós, sozinho em casa, pense “ser ou não ser?”. Mas a primeira cena de Hamlet, em que aparece o fantasma, leva a uma série de reflexões. E o espectador vai junto com Hamlet, passando por aquele processo. Quando chega o momento de pensar “ser ou não ser?”, ele não fica perdido, porque entende o que o personagem está passando e sofrendo.

Percebe-se na entrevista e pelos textos de Tautz que Bárbara Heliodora tinha profundo conhecimento tanto do contexto histórico de Shakespeare, a Inglaterra dos séculos 16 e 17, quanto do teatro brasileiro e mundial. Ela elogia muito a obra de Nelson Rodrigues. Na conversa, fala de suas experiências como atriz e diretora, solta algumas farpas a montagens e experimentações que considerava ruins e ao fim espetava a política cultural brasileira: “Existe?”.

Sobre Nicolau

A Biblioteca Pública do Paraná recentemente reeditou em três volumes, em fac-símile, todos os números de Nicolau acessíveis. Essa mesma edição número 54 trazia uma homenagem ao poeta Mario Quintana, que morreu em 1994, HQs de Fortuna, um dos fundadores do Pasquim, além de resenha feita pelo historiador e sociólogo Nelson Werneck Sodré.

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked. *