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Cascudo na Nenê de Vila Matilde 8/10/2007-Monday
Que o historiador potiguar Luís da Câmara Cascudo foi alçado à condição de mito pela contribuição que deu à cultura popular brasileira é mais do que sabido. Da mesma forma que o leitor do VIVER também sabe, desde o mês passado, que Cascudo virou o santo padroeiro da tradição oral brasileira - eleito em agosto durante o Simpósio Internacional dos Contadores de História. Pois bem. Mas faltava a comemoração. E se festa que se preze no terreiro da cultura popular brasileira de hoje acaba em samba, Câmara Cascudo não poderia ficar de fora dessa roda. Nem vai.
Isso porque o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Nenê de Vila Matilde - uma das escolas mais tradicionais da divisão principal do carnaval de São Paulo - tratou de chamar Cascudo para o samba e dedica o desfile do próximo ano ao folclorista. Com o tema "Um vôo da Águia como nunca se viu! Também somos folclore do nosso Brasil - 110 anos aprendendo com Câmara Cascudo", a Vila Matilde vai para a avenida cantar a cultura popular. A letra (veja na íntegra ao lado) composta pelos sambistas Nenê, Adriano Bejar e Sulu fala dos costumes e personagens do folclore brasileiro, eterna fonte de pesquisa de Cascudo. A reportagem tentou contato com a escola por e-mail mas não teve retorno até o fechamento desta edição. No site da escola, ainda em fase de construção, estão a letra do samba-enredo e informações sobre dia e hora dos ensaios. A agremiação vive hoje um jejum de títulos no carnaval paulista. O último campeonato foi em 2001.
Coordenadora do Memorial Câmara Cascudo e neta do folclorista, Dhaliana Cascudo soube da notícia pela editora Global, que vem relançado os principais livros do avô. A reação foi de orgulho. "Isso é genial. Vejo como uma consagração maior ainda para ele. O samba é super popular, tem tudo a ver com vovô", disse.
A filha do historiador Ana Maria Cascudo lembra que a homenagem estreita ainda mais a ligação que a família tem com a terra da garoa. "É uma alegria para nós. Vamos todos assistir ao desfile em São Paulo em 2008. Nossa ligação com São Paulo é muito intensa. Papai tinha muitos amigos lá, muita gente querida. Vejo isso como uma reafirmação de que papai continua presente. Um escritor que morou toda a vida em Natal, no Rio Grande do Norte, é lembrado dessa forma sem nenhuma tentativa de pedido da família. Ainda mais em São Paulo, que é uma cidade muito valorizada pelos paulistas", analisa.
Ana Maria ressaltou a ligação do pai com o samba e lembrou que Cascudo aborda o tema em seu livro mais famoso: o Dicionário do Folclore Brasileiro. "Papai foi considerado o papa do folclore brasileiro, pesquisou a cultura do povo, e o carnaval é a cultura do povo! Esse é mais um reconhecimento ao trabalho de todo dia. Papai gostava demais de samba, sabia toda história, o Dicionário do Folclore Brasileiro fala em samba. E existe coisa mais importante que a música para a cultura brasileira? O samba está na pele do povo. E essa homenagem manifesta a presença constante de papai. É como se os 20 anos de encantamento dele não tivesse acontecido", afirmou.
Rafael Duarte - Repórter
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