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Edy Lima homenageada pelo suplemento Feminino do Estadão no dia INTERNACIONAL DA MULHER
16/3/2009-Monday

 

Feminista precoce: amiga de Quintana e Lobato
Moradora discreta de um apartamento em São Paulo, Edy Lima foi feminista bem antes de se queimar sutiãs

Aos 85 anos, Edy Lima, diz que tinha plena consciência de seus desejos de emancipação
- Sentada em sua cama, bem perto do criado-mudo com a luminária acesa, a escritora, jornalista e dramaturga Edy Lima tira de um saquinho plástico os poemas escritos especialmente para ela por nada menos do que Mário Quintana. Segurando um dos papéis amarelados pelo tempo, tenta decifrar a grafia do poeta, enquanto lê as rimas calorosas - ou seriam platônicas? - dedicadas à sua musa.

Os versos revelam mais do que uma época: também a história da própria escritora, que hoje está com 85 anos, mas que, ainda muito jovem, bem antes de se queimar sutiãs em praça pública, já era uma garota emancipada e anos luz à frente de sua geração.

A década em que surgiram os poemas inspiradores de Mário Quintana era a de 1940, em uma Porto Alegre onde floresciam escritores como Edy Lima. Na época, era uma mocinha que encantava um poeta já homem formado, com o dobro de sua idade.

"Naquele tempo ninguém comentava nada", lembra a escritora. "Só percebi o entusiasmo dele por mim depois de velha, quando reli seus manuscritos seis anos atrás. Estavam perdidos e os reencontrei durante a arrumação da minha mudança para São Paulo, quando estava deixando o Rio de Janeiro." Junto com os poemas, surgiu outra relíquia: uma carta de Monteiro Lobato.

Antes de dar detalhes sobre o conteúdo dessa carta, é melhor contar a história do começo. Edy Lima nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul. Leitora voraz desde cedo, colocou na cabeça que um dia iria para a cidade grande. Aos 19 anos, conseguiu que um de seus contos fosse publicado na Revista do Globo, que, na época, era badaladíssima e contava com a colaboração de escritores gaúchos do porte de Quintana.

"Tinha um espírito muito independente e meu pai, apesar de ser um comerciante simples, não me segurava", conta. "Aproveitei a publicação do meu conto para pedir emprego na revista e, dessa forma, consegui me sustentar em Porto Alegre, cidade onde queria morar. Desde então, passei a viver às minhas custas. Sempre achei importante a mulher ganhar o seu dinheiro, pois quem não se sustenta não tem sua liberdade."

Com o emprego na revista, começou a atuar como jornalista e a viver em um pensionato. Não demorou para que essa promissora novata entrasse para o efervescente grupo literário gaúcho, basicamente formado por homens, entre os quais, Quintana. Foi o período em que Edy circulou com essa turma em cafés, cinema e teatro. Daí veio a proximidade com o embevecido poeta e jornalista que, por muitas vezes, a acompanhou nos roteiros culturais de Porto Alegre.

A CARTA DE LOBATO

Com a mesma ousadia que a ajudou a conseguir o emprego de jornalista, decidiu enviar uma carta a Monteiro Lobato. Não era o primeiro contato dela com o escritor. Ainda menina, aos 9 anos, Edy escreveu para Lobato, lhe pedindo um retrato. Queria conhecer o rosto do autor de seus livros prediletos, já que na época fotografia era raridade.

"Para retribuir a página de uma revista com o retrato de Lobato, que ele mesmo me enviou com dedicatória, mandei meu primeiro conto publicado e aproveitei para falar de minha vontade de ir para São Paulo", conta Edy. "Queria ter a chance de me desenvolver pessoal e profissionalmente." O famoso escritor não só respondeu à carta, como indicou um pensionato para que ela pudesse ficar quando chegasse à capital paulistana. Lobato datilografou em 1945:

"Muito boa a sua literatura inicial, reveladora de excelentes dotes que poderão ir longe, se devidamente cultivados (...) Mandei ver as pensões de freiras e fui informado de que a melhor é a de Santa Monica (...) Faça-se humildezinha, porque essas tais damas católicas são umas pestes (...) Depois de assegurados o teto e a comida, venha - e aqui cuidaremos do resto. Esse resto depende da impressão de sua pessoa sobre os prováveis ou possíveis patrões, e de conversa, porque é conversando que as creaturas (sic.) se entendem."

De mala e cuia, com pouquíssimos pertences, chegou Edy Lima sozinha a São Paulo, aos 20 anos, com uma grande possibilidade de Lobato indicá-la para um emprego. Por muitos anos, porém, ela omitiu esse contato tão importante em sua vida. E teve uma razão para tal. Entre as muitas mudanças de endereço, essa carta ficou perdida junto com os poemas inéditos de Quintana.

Sem provas, não quis correr o risco de passar por mentirosa e decidiu guardar segredo. Hoje, com os documentos em mãos, pode revelar a história dos seus protetores literários. "Conseguir apoio de Lobato e a amizade de Quintana é um grande orgulho."

Foi nessa fase de vida que sua carreira deslanchou e sua figura de mulher avançada começou a sobressair. A começar pelo jornalismo, já que era uma das poucas figuras femininas em um ramo restrito a homens. Passou pelos extintos Jornal de São Paulo e Diários Associados. Neste último, ficou quase 20 anos como editora de um caderno feminino que pertencia ao Diário de São Paulo e Diário da Noite.

Apesar do extremo conservadorismo com que as mulheres eram tratadas na época, Edy sempre deu um jeitinho de fugir das regras retrógradas. Em vez de editar tolices, procurava publicar disfarçadamente reportagens com temas que pudessem abrir a cabeça das mulheres. Combatia o consumismo, por exemplo, destacando a importância da economia doméstica. Preferia falar de saúde a prendas do lar.

TRAJETÓRIA

Essa mentalidade permaneceu também em seus livros, que hoje somam quase 50 títulos, a maioria de literatura infanto-juvenil. O mais famoso deles, A Vaca Voadora, já está na sua 32ª edição e fez tanto sucesso nos anos de 1970 que se tornou uma série, com os mesmos personagens vivendo diferentes aventuras. Trabalhos que estão sendo reeditados pela Global Editora.

Com esse olhar, Edy criava personagens femininas fortes, detentoras de sabedoria e que iam atrás de sua emancipação - assim como a própria autora. Em suas histórias, os homens são coadjuvantes e reconhecem o poder das protagonistas.

Não é à toa que essa característica do trabalho de Edy acabou virando tema de tese de doutorado, escrita pela professora de literatura Rosa Riche, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - estudo que a escritora mostra orgulhosa. Nesse trabalho acadêmico, Rosa escreve:

"Em Edy, não há conflito de poder entre homem e mulher. Ela é superior ao homem e não precisa competir com ele, pois seu lugar no espaço social está assegurado sem necessitar de confronto para conquistá-lo. As mulheres na obra de Edy, de uma maneira geral, são maduras, mães, tias e dificilmente aparece uma jovem casadoira. Quando aparece, essa mulher disponível para o casamento já tem filho, como no livro Melhor que a Encomenda."

Explica-se por que um amigo de Edy a chamou de "feminista mansa". Ela ressalta que nunca precisou bater boca com ninguém para ter sua liberdade, nem sair botando banca. "Tinha plena consciência dos meus desejos e tentei realizá-los", fala. "Quem discute é porque está inseguro. E esse nunca foi o meu caso." Assim, discreta, fez muita coisa que as mulheres de sua época jamais poderiam imaginar ser possível.

Quase um anos depois de chegar a São Paulo, Edy casou-se com o amigo de Mário Quintana, apresentado à sua musa pelo próprio poeta. Embora ter filhos logo após o matrimônio fosse uma obrigação, o casal curtiu bem a vida e o primeiro rebento só nasceu depois de nove anos. Mais tarde, veio sua filha. A maternidade não a impediu de conquistar novos caminhos profissionais.

Entre um livro e outro, foi editora de discos para crianças, autora de peças de teatro e de novelas na TV. Como integrante do famoso Teatro de Arena, polo renovador da dramaturgia nacional, escreveu A Farsa da Esposa Perfeita, sucesso de crítica e de público. No final dos anos 1970, assinou com outros autores a novela que fez estrondoso sucesso na TV Tupi, Como Salvar meu Casamento.

Não se engane com esse título. Edy contava a história de uma dona de casa, mãe de dois filhos, que convivia com a infidelidade do marido e, ao mesmo tempo, resistia às cantadas de vários bonitões. O tema caiu tanto nas graças dos espectadores que foi preciso espichar os capítulos, chegando a quase 200. Só não teve final feliz, pois a emissora fechou as portas com sua falência.

A rica produção de Edy lhe rendeu vários prêmios, entre os quais, o consagrado Jabuti, outro da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, e também o do Serviço Nacional de Teatro. Em 2008, foi homenageada pelo Sindicato dos Jornalistas, como a mulher sindicalizada mais antiga de São Paulo. Mas o melhor de tudo é que, aos 85 anos, continua na ativa. Em um dos quartos de seu apartamento - onde mora com um de seus três netos, estudante de cinema -, montou seu escritório.

Quando não está revisando algum de seus livros, que são reeditados até hoje, faz adaptações de clássicos da literatura para o público infantil. Para o seu deleite, trabalhou com os livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll. Agora debruça-se sobre Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

Avessa a tecnologia, ainda faz uso de uma máquina de datilografia elétrica, daquelas enormes, que repousa sobre sua mesa, encostada na janela. Diante da ideia de ser fotografada para esta reportagem sentada perto da relíquia, prontamente respondeu. "Ah, não, de velha já basta eu!" Quem dera que todas as mulheres pudessem gozar da vitalidade de Edy Lima.

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

 
 
 
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